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Educador Nota 10 | Prêmio Educador Nota 10 | Ensino Fundamental 1


Por: Maggi Krause

Quando a prática faz sentido para os alunos

Considerar os problemas, as preferências e o cotidiano familiar dos alunos foi essencial para os três projetos de Fundamental I vencedores do Educador Nota 10

BEATLEMANIA: Arabelle foi premiada por sua sequência didática de Inglês sobre a banda britânica

Professora de Inglês, Arabelle Calciolari é apaixonada pelos Beatles, mas sabia que de nada adianta a turma escutar uma música sem se interessar por ela. Por isso, antes de investir em atividades com uma canção, ela ficava muito atenta se o 4º ano se ligava no tema ou dançava. Já o professor de Educação Física Luiz Rufino identificou que os meninos e meninas do 3º ano desmereciam seus corpos e suas habilidades. Achou muito cedo esse tipo de preocupação, reflexo de pressões da mídia e da sociedade. Resolveu reverter o quadro e fazê-los pensar sobre as possibilidades e limitações do corpo nas aulas de Educação Física. Natural de uma região dominada pela indústria têxtil, a professora Jussara Schmitz levou suas turmas do 4º ano a oficinas de costura, onde trabalham muitas mães e avós. Assim as crianças perceberam como a matemática é aplicada no dia a dia. 

Em comum entre Arabelle, Luiz e Jussara, professores que trabalham em contextos distintos, está a consciência de que há mais empenho dos alunos quando conteúdos e práticas têm relação direta com suas realidades. Para essas turmas brindadas com projetos dos Educadores Nota 10, aprender fez muito mais sentido.

Na Educação Física, práticas levam ao autoconhecimento 

OUTRO CORPO: Traçar o contorno dos colegas foi uma das atividades propostas para a turma por Luiz. Crédito: Roosevelt Cássio/NOVA ESCOLA

O que é o corpo? Para que serve? Você gosta do seu corpo? Dirigidas para meninos e meninas de 8 e 9 anos, essas perguntas receberam respostas inquietantes. “Mais de 50% mostraram uma visão depreciativa de si mesmas”, contou o professor Luiz Rufino, que planejou experiências significativas na Educação Física para que três turmas do 3º ano (perto de 75 alunos) aceitassem melhor o seu corpo e o dos outros. “As atividades são conhecidas, inovador é incentivar a olhar as possibilidades e limitações do corpo em situações de movimento individual ou em duplas”, explica Marcos Mourão, professor da Escola da Vila e selecionador do Prêmio Educador Nota 10, que elogiou a facilidade de aplicação do trabalho. 

Luiz Gustavo dividiu o projeto em eixos: “Eu, meu corpo e minha história” explorou as possibilidades físicas no atletismo, na ginástica e no circo; “O outro e seu corpo” teve ações como delinear o contorno dos colegas na quadra e o usar pernas de pau em duplas e “O corpo, suas potencialidades e limitações” abordou os sentidos por meio de atividades sem a visão, com limitações motoras ou desafios, como o parkour. As práticas aconteciam ao ar livre e, na sala, o professor pedia que os alunos relembrassem o ocorrido e fizessem um desenho ou um relato. “A costura entre os conteúdos diferentes era a visão de corpo”, ressalta Luiz Gustavo. 

O desafio para as crianças foi entender a relação entre os registros e as atividades físicas. A ideia era que percebessem o corpo parado, em movimento, cansado, mas às vezes o professor notava que competiam entre si. “Tive de repetir para mim mesmo qual era a intenção do trabalho, não foi uma linha reta. Mas, no meio do projeto, já sabiam que a gente se sentava em roda para refletir.” Ao fim do semestre, ficou visível a melhora na autoestima e na aceitação dos colegas. “O professor incentivou experiências das crianças com elas mesmas. A perna de pau, por exemplo, faz o aluno problematizar a situação. E assim entende o corpo como sujeito”, explica Mário Nunes, docente do Departamento de Educação Física e Humanidades da Unicamp e coordenador de um grupo de pesquisas em Educação Física Escolar. Segundo ele, compreender como os próprios corpos atuam e as diferenças entre eles é uma forma de resistência ao padrão estético da sociedade e à lógica do consumo e eficiência do corpo humano visto como máquina, que impera no esporte e nas academias. 

O EDUCADOR
Nome Luiz Gustavo Bonatto Rufino 
Escola EM Odete Emídio de Souza 
Cidade Paulínia (SP) 
Etapa 3º ano 

O PROJETO
Ressignificando as visões sobre o corpo

NA BNCC
Componente curricular Educação Física 
Competência Geral 8 Autoconhecimento e autocuidado 
Competência 6 da Educação Física Interpretar e recriar os valores, os sentidos e os significados atribuídos às diferentes práticas corporais, bem como aos sujeitos que delas participam.

POR QUE É ESPECIAL
Observação e reflexão sobre o corpo
As crianças passaram a entender e respeitar as diferenças e se aceitar melhor depois das vivências proporcionadas nas aulas de Luiz Gustavo, que valorizaram estas três atitudes: 

Exploração 
Proponha práticas que permitam descobrir potencialidades e limitações do corpo. Use alongamentos, posturas para notar o equilíbrio e saltos na cama elástica para ver o quanto a impulsão varia entre as crianças. 

Interação 
Colocar os alunos para trabalhar em parceria os expõe a novos desafios. Quando se corre dando a mão para o outro, por exemplo, é preciso fazer ajustes, e o processo de cooperar passa a importar mais do que o resultado.

Reflexão 
Vale acostumar a turma a refletir e a discutir sobre o que realiza, em rodas ou por meio de breve explicação no início e a retomada do tema no final da aula. Pensar sobre a própria ação faz a criança entender como ela aprende

Foto: Roosevelt Cássio/NOVA ESCOLA

Paixão compartilhada com os alunos

NA ÉPOCA: Além de aprimorar o idioma, projeto contextualizou fatos históricos das canções. Crédito: Roosevelt Cássio/NOVA ESCOLA

Escutar música não é só prazeroso, ajuda na aquisição da melodia de um idioma. “Você percebe a entonação, o jeito de falar, a pronúncia de sons que não existem na língua materna. Crianças expostas a áudios e vídeos em geral tornam-se bons falantes”, explica Alberto Costa, gerente sênior de Serviços de Avaliação de Cambridge English. No entanto, atividades de listening costumam ser menos frequentes na escola do que as de gramática e escrita. Não nas aulas de Arabelle Calciolari, premiada por sua sequência didática sobre os Beatles, banda da qual é fã desde pequena. 

A professora de Inglês privilegia a oralidade, trazendo histórias, vídeos e jogos em suas aulas duplas. Ouvir canções é uma constante. “Os alunos sabem que não precisam entender tudo para sacar o contexto”, conta Arabelle, que estudou estratégias de aprendizagem em uma pós-graduação. Com atividades diferenciadas de listening (veja exemplos no box abaixo), ela apresentou oito faixas da banda inglesa. 

A rede de Jundiaí começou a apostar na inserção do idioma no currículo desde o 1º ano do Fundamental em 2004. “Trabalhamos projetos que aliam língua e cultura”, explica Carina Cassalho, coordenadora pedagógica do Núcleo de Língua Inglesa do município. Na escola de Arabelle faltam recursos e internet, mas ela nunca se desmotivou: baixa os vídeos e músicas em casa e grava tudo em um pen drive. 

“A professora sabe bem aonde quer chegar, mas respeita as preferências das crianças. Mostra um videoclipe, daí sente se elas se empolgam ou não”, ressalta Laura Nassar, coordenadora pedagógica do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo, e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10. Laura diz que Arabelle aproximou as crianças de temas delicados graças à narrativa em quadrinhos do livro Os Beatles (editora SM), em português, com as principais Estados Unidos nos anos 1960, ela levou o filme Hairspray, vídeo sobre a militante Rosa Parks e parte do discurso de Martin Luther King. 

“Quando toquei Blackbird, um menino disse que a letra fala da luta contra a segregação. Eles têm 10 anos e identificam o que o pássaro negro representa na canção”, orgulha-se a professora, que, meses após o final do projeto, ainda ouve os alunos pedirem para tocar músicas dos Beatles. canções, a beatlemania, fatos históricos e o ativismo de John, Paul, George e Ringo. Como os alunos se impressionaram ao ler sobre a divisão entre negros e brancos nos

A EDUCADORA

Nome Arabelle Calciolari 
Escola EMEB Maria Angélica Lorençon 
Cidade Jundiaí (SP) 
Etapa 4º ano

O PROJETO 
Os Beatles – seu tempo e sua história

NA BNCC 
Componente curricular Língua Inglesa 
Habilidades (EF08LI18) Construir repertório cultural por meio do contato com manifestações artístico-culturais vinculadas à língua inglesa (artes plásticas e visuais, literatura, música, cinema, dança e festividades, entre outros), valorizando a diversidade entre culturas.

POR QUE É ESPECIAL
Estratégias diferentes para o listening
Nada do tedioso “preencha as lacunas” do texto: Arabelle investe em diferentes maneiras para deixar os alunos atentos, apurando o ouvido para a pronúncia e ampliando o vocabulário.

Anote tudo que puder 
Ao assistirem ao vídeo da música Hello, Goodbye, as crianças tiveram de anotar no caderno todas as palavras que conseguiram entender. Logo depois, foi feita a checagem da lista e repassadas a pronúncia e a escrita correta. Entender que identificam muitas palavras mostra aos estudantes o quanto já sabem.

Está ou não está na música? 
Quando trabalha a canção Blackbird, a professora distribui aos alunos várias palavras em pequenos cartões. Em duplas, escutam a música e decidem quais estavam e quais não estavam nela. Depois, recebem a letra com algumas palavras a mais, escutam novamente e devem riscar as que não pertencem àquela canção. 

Organize as estrofes 
A) Uma letra é entregue em estrofes separadas, que precisam ser colocadas na ordem correta, enquanto os alunos escutam a música. Em seguida, são feitas a correção e a explicação sobre o vocabulário não compreendido.
B) Em outra atividade, ela entregou folhas com as estrofes da canção em português, fora da ordem, na coluna da esquerda e em inglês, numeradas, na ordem de escuta, do lado direito. Os alunos colocam o número correspondente nas estrofes traduzidas, usando para isso o vocabulário que conhecem. 

FOTO: Roosevelt Cássio/NOVA ESCOLA

A matemática na vida cotidiana 

NA COSTURA: Como toda profissão usa matemática a ideia de Jussara pode ser replicada. Crédito: Luiz Kriewall/NOVA ESCOLA

A constatação de que 60% das famílias dos alunos do 4º ano dependiam da costura para o sustento foi a deixa para que a professora Jussara Schmitz, ela mesma filha de costureira, iniciasse um projeto em torno da atividade predominante em Gaspar, no Vale do Itajaí. Há na cidade 1.487 indústrias têxteis, entre elas facções (como são chamadas as oficinas na região) e pequenos negócios. Por isso não foi difícil organizar visitas às oficinas de costura próximas da escola para entrevistar mães e avós dos alunos. O objetivo era saber quantas roupas produziam por dia, a média de horas de trabalho, o valor recebido por peça e os gastos com linha e energia, por exemplo. Os dados coletados transformavam-se em gráficos e tabelas na sala de aula, permitindo comparações e inspirando várias situações-problema. A turma aprendeu estatística, medidas, problemas das quatro operações, sistema monetário e frações. “O projeto permitiu investigação, pesquisa, análise de dados, olhar crítico para situações sociais e valorização do contexto profissional da comunidade na qual os alunos estão inseridos”, ressalta Lilian Marciano, selecionadora da área de Matemática do Prêmio Educador Nota 10. Segundo ela, qualquer profissão envolve conhecimentos matemáticos, ou seja, professores de todo o país podem adaptar as ideias do projeto. Entender melhor um trabalho real, ligado à cultura da região, trouxe mais sentido aos problemas tratados em sala de aula, geralmente em duplas ou em grupo. “Algumas crianças os resolviam com adição, outras com multiplicação e até desenho. Foram capazes de interpretar e solucionar de acordo com estratégias e mecanismos próprios”, contou Jussara Schmitz. Especialista em didática da Matemática, a argentina Delia Lerner nota que “é necessário definir em que situações é pertinente propor problemas da vida cotidiana. Estas definições dependem da natureza do conteúdo sobre o qual se está trabalhando e as estratégias que as crianças colocarão em ação para reconstruí-lo”. No projeto de Jussara, muito da aprendizagem nasceu na interação social com as costureiras, que se sentiram valorizadas em seu ofício. Os alunos puderam manusear fitas métricas e moldes nas facções. Por fim, lidaram com medidas e calcularam quantidades para confeccionar bonequinhas usando sobras de malha. As bonecas Abayomis – símbolo da cultura afro- -brasileira – foram doadas para as crianças menores, fechando um ciclo que uniu saberes matemáticos e reaproveitamento de materiais.

A EDUCADORA
Nome Jussara Cristina Wandalen Schmitz 
Escola EEB Frei Godofredo 
Cidade Gaspar (SC) 
Etapa 4º ano

O PROJETO 
Costurando a Matemática

NA BNCC
Componente curricular Matemática 
Habilidades (EF04MA27) Analisar dados apresentados em tabelas simples ou de dupla entrada e em gráficos de colunas ou pictóricos, com base em informações das diferentes áreas do conhecimento, e produzir texto com a síntese de sua análise. Outras: EF03MA19 e EF03MA24 

POR QUE É ESPECIAL
Das oficinas de costura para a aula
Ao visitar oficinas, projeto incentivou a análise de dados matemáticos aliada ao contexto real da atividade econômica importante para a região onde está a escola 

A matemática da profissão 
Os alunos coletaram dados que inspiraram a construção de problemas, valorizaram e observaram criticamente o trabalho das costureiras e, por fim, colocaram a mão na massa para costurar bonecas. 

Medindo a boneca Abayomi 
Feita de retalhos, a boneca negra é símbolo de resistência. Seu nome significa “encontro precioso” em iorubá. Para construí-la, usaram-se sobras de tecidos. Acima, confira as medidas utilizadas para produzi-la. 

Exemplo de uso da matemática 
Para confeccionar cinco bonecas, precisamos de qual medida de friso? Ao somar 37 cm + 16 cm e converter a unidade de medida, chegamos ao resultado de 0,53 metro. Multiplicado por cinco, a quantidade de bonecas, tem-se o resultado final de 2,65 metros.

Foto: Luiz Kriewall/NOVA ESCOLA