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Por que você precisa da convivência democrática na sua escola

Pesquisa com mais de 8 mil alunos mostra que esse é um valor pouco vivenciado nas escolas e que merece mais atenção

POR:
Adriano Moro
Alunos em uma sala de aula levantam a mão para decidir em uma votação
Fotos: Getty Images

Os resultados da Talis (Teaching and Learning International Survey), 2018, divulgados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), apontam o Brasil como um dos países com índices mais altos de situações de bullying entre alunos. Os questionários foram aplicados para aproximadamente 250 mil professores e gestores escolares de 48 países.

Os dados mostram que 28% das escolas brasileiras que trabalham com os anos finais do Ensino Fundamental identificam, semanalmente, situações de intimidação ou bullying entre os estudantes – o dobro da média da OCDE. Além disso, episódios de intimidação ou agressões verbais contra professores são vivenciados semanalmente em mais de 10% das escolas brasileiras, enquanto a média internacional é de 3%.

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A referida pesquisa, a partir de análise de dados comparáveis internacionalmente sobre as questões da aprendizagem e as condições de trabalho dos professores e diretores, aponta para um problema grave. Problema que está além das dimensões do ensino e da aprendizagem, das áreas cognitivas, como a Matemática, a Linguagem e as Ciências; e nos alerta para o valor da convivência entre crianças e adolescentes e deles com seus professores. Não temos dúvidas de que, em um ambiente onde a convivência é tóxica, hostil e autoritária, que as regras são impostas sem a possibilidade do diálogo e que as pessoas não se sentem pertencentes ao espaço, problemas de violência, como o bullying, vão se revelar.

A convivência, sobretudo a convivência ética e democrática, deve receber atenção especial não somente dos atores escolares – alunos, professores, gestores e funcionários –, mas também das políticas públicas que objetivam uma Educação de qualidade para todos. Tal qualidade consiste em considerar o estudante na sua plenitude, capaz de desenvolver suas competências e habilidades cognitivas, sociais, emocionais e morais. Entretanto, o que a Talis tem mostrado é que a convivência ética nas escolas brasileiras merece atenção.

Ao analisar os dados de uma investigação realizada na Fundação Carlos Chagas a respeito da adesão aos valores sociomorais (justiça, respeito, solidariedade e convivência democrática), verificou-se que a maior parte dos alunos da Educação Básica de escolas públicas e privadas (a maioria do estado de São Paulo) apresentou respostas de forma favorável ao valor da convivência democrática. Entretanto, essas respostas foram em uma perspectiva social muito individualista (TAVARES E MENIN, 2015).

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A pesquisa foi conduzida, principalmente, para verificar como os estudantes e professores têm se posicionado frente a situações hipotéticas do cotidiano que requerem reflexões e ações envolvendo os valores sociomorais. No caso da convivência democrática, valor a ser tratado neste texto, investigou-se como as pessoas se posicionavam em relação às resoluções de um conflito coletivo. Ou seja, estariam os indivíduos aderindo ao valor investigado na pesquisa? Se o faziam, quais as motivações predominantes? Seria por interesse próprio, em cumprimento ao que a sociedade pontua como o “certo a fazer”, ou de forma ética, considerando sua atitude como boa não somente para si próprio, mas para qualquer ser humano?

As questões sobre valores continham histórias que representavam o dia-a-dia da escola, da sociedade ou da família, sempre com cinco alternativas de respostas. Dessas, três eram pró-valor, ou seja, favoráveis ao valor investigado; e duas, contravalor, nas quais os respondentes se posicionavam contrários ao valor. E eles deveriam escolher somente uma das possibilidades de resposta.

Tais alternativas de respostas, indicando posições pró ou contra o valor, apresentavam também três graus de perspectivas sociais que demonstravam modos diferentes das pessoas aderirem ao valor. Por meio dessas perspectivas sociais, pudemos identificar as motivações pelas quais as pessoas assumiam seus posicionamentos: mais egocêntrico (a pessoa age ou pensa levando em conta somente seu próprio ponto de vista ou suas necessidades); sociocêntrico (as ações estão muito presas às expectativas do que a sociedade espera que se faça, bem como voltadas ao seu círculo social ou familiar); até um posicionamento mais descentrado ou moral (a pessoa já não se vê como o centro de tudo, nem age apenas em função do que a maioria lhe diz para fazer, mas amplia suas perspectivas, se colocando no lugar de todo e qualquer ser humano).

As histórias que compuseram as questões para avaliar a adesão à convivência democrática traziam em seu conteúdo situações de conflitos, discórdia ou de tomadas de decisão coletivas e, no final do enunciado, perguntava-se o que a pessoa da história deveria fazer.

É importante destacar que o valor da convivência democrática requer a participação ativa das pessoas, por meio da troca dialógica, nas escolhas e decisões que têm implicações na sua vida social e coletiva, assim como na discussão e elaboração de regras, normas e leis que as regulem. Nesse sentido, podemos pontuar que uma pessoa democrática é a que aceita e incentiva a participação de todos os envolvidos nas decisões que os tocam, repudiando soluções tomadas de forma autoritária.

Os resultados revelaram que 88% das crianças e 78% dos adolescentes (do total de cerca de 8.500 alunos participantes) apresentaram respostas favoráveis ao valor. Contudo, com uma adesão egocêntrica – muito centrado em si mesmo, levando em conta somente o que é bom para ele próprio, sem considerar as outras pessoas.

Em outras palavras, tais alunos até demonstraram uma tendência a buscar meios de resolução de conflitos coletivos de forma mais dialógica, mas, principalmente, para evitar consequências negativas para si (punição) ou em busca de uma consequência positiva individual. Por exemplo: a manutenção da boa imagem, a manutenção de vínculos pessoais ou o favorecimento daqueles que julga merecedores. No limite, podemos considerar que, a partir desses resultados, o valor de se conviver democraticamente, numa perspectiva ética, se revelou pouco experienciado no cotidiano escolar em que a pesquisa ocorreu.

Ao tratarmos da qualidade da Educação, algumas indagações deveriam permear as ações pedagógicas da instituição educativa, seja ela qual for: que ser humano se pretende formar e educar? Estaria a escola auxiliando na construção de uma personalidade ética, de um indivíduo que privilegie as reflexões morais em suas decisões e ações para consigo próprio e para com os demais cidadãos? Que cidadão a escola almeja formar para a sociedade que tanto queremos: justa, democrática, solidária e respeitosa?

Não são questões simples, mas é preciso tê-las no horizonte de nossas ações como educadores e interpretar os resultados acima levando em conta tais reflexões. É preciso agir no sentido de propor ações e intervenções organizadas, intencionais e sistemáticas para que a convivência seja um valor na relação com o outro (VINHA, NUNES, SILVA, VIVALDI, MORO, 2017).

Embora os estudantes tenham apresentado respostas que, na sua maioria, revelam uma adesão ao valor de convivência democrática, tais adesões podem estar representando uma perspectiva ilusória da moralidade. Isso porque o interesse próprio e as ameaças de possíveis punições os fazem deixar de considerar o outro. Evidencia-se, portanto, respostas que são convenientes aos indivíduos, com tendências individualistas, egocêntricas e até mesmo egoístas do que seria “o certo a fazer”.

É fundamental que a escola se atente às questões da convivência, mas não qualquer uma, e sim a convivência democrática, de cunho moral. Faz-se urgente que os valores morais sejam revisados, e que haja ações planejadas e periódicas para a resolução dos conflitos.

Os conflitos não podem ser vistos como “só coisa de criança ou adolescente”, devemos discuti-los construtivamente, propondo soluções que beneficiem a todos os atores escolares.

*Adriano Moro é doutor em Educação pela Unicamp e mestre em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Ele é pesquisador do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas – (FCC) e integra o Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Moral (Gepem), da Unicamp/Unesp

Para saber mais

TAVARES, M.R.; MENIN, M.S.S. (Coord.) Avaliando valores em escolares e seus professores: proposta de construção de uma escala. Textos FCC, São Paulo: FCC-DPE, v.46, out. p. 1-85, 2015.

VINHA, T. P.; NUNES, C.A.A; SILVA, L.M.F.; VIVALDI, F.M.C; MORO, A. Da escola para a vida em sociedade: o valor da convivência democrática. Americana, SP: Adonis, 2017.

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