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Educador Nota 10 | Prêmio Educador Nota 10 de 2019 | Ensino Médio


Por: Beatriz Vichessi

Quando a prática dialoga com a realidade dos alunos

Conheça os três projetos de Ensino Médio vencedores do Prêmio Educador Nota 10

OLHAR CRÍTICO: Projetos deram voz aos jovens do Ensino Médio. Na foto, aluna do professor Rodrigo Seixas exibe trabalho de Sociologia. Crédito: Hans Georg/NOVA ESCOLA

Em três pontos do Brasil – Boa Vista (RR), Barra Mansa (RJ) e Nova Cruz (RN) –, um trio de professores do 3º ano do Ensino Médio planejou trabalhos com propostas provocativas, considerando a realidade das turmas, ao mesmo tempo que elencaram conteúdos importantes e deram espaço para a moçada agir, questionar, trocar ideias e ter voz ativa. Ganhadores do Prêmio Educador Nota 10, Rutemara Florêncio, Rodrigo Seixas e Patrícia Barreto concretizaram algo muito falado hoje em dia – colocar os jovens no papel de protagonistas – sem descuidar do que queriam que as turmas aprendessem. Rutemara explorou as contribuições das mulheres para a história de Roraima. No Rio de Janeiro, Rodrigo estudou o tempo presente por meio da filosofia contemporânea. Já no Rio Grande do Norte, Patrícia fortaleceu a argumentação e o olhar crítico dos seus alunos.

O lugar do feminino em Roraima 

MAIS MULHERES: Rutemara inspirou alunos a aolhar para as contribuições femininas na história local. Crédito: Marcio Lavor/NOVA ESCOLA

Se alguém digitar no Google a frase “história da mulher em Roraima” e apertar o enter, provavelmente encontrará nas primeiras páginas da busca quase exclusivamente vídeos e notícias sobre casos de violência contra a mulher. Isso se deve aos índices epidêmicos de violência doméstica no estado, que é um dos mais letais para as meninas e mulheres no Brasil. Foi nesse contexto desafiador que a professora de História Rutemara Florêncio instigou, por meio da leitura de textos acadêmicos e do trabalho de pesquisa de campo, seus alunos do 3º ano da EE Presidente Tancredo Neves a enxergar as mulheres como sujeitos históricos, protagonistas de suas vidas e também da história local – e não apenas como vítimas passivas da violência. “Violência e mulheres não são temas novos na sala de aula. Mas Rutemara aborda os dois de modo sensível, sem ser panfletária”, elogia Mariângela Bueno, historiadora, pedagoga e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10. Para desvelar o cotidiano, os estudantes leram História das Mulheres no Brasil, organizado por Mary Del Priore (Ed. Contexto). Outra novidade foi entrevistar 41 mulheres da cidade e registrar a história de cada uma delas em vídeo. “Usamos a história oral para trabalhar o tempo presente, algo muito valioso, porque a história de Roraima é recente e pouco se fala sobre as mulheres na sociedade local”, explica Rutemara. As entrevistas perguntaram sobre a infância, a vida escolar e profissional de juízas, educadoras e militares, bem como os feitos e obstáculos nas trajetórias delas. “A turma entrou em contato com a memória, conceito- -chave em História”, explica a docente, que acompanhou todas as entrevistas. “As atividades ajudam a desnaturalizar a ideia de que somente homens protagonizam a sociedade e a política”, explica Marta Bergamin, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP). 

A EDUCADORA

Nome
Rutemara Florêncio 
Escola EE Presidente Tancredo Neves 
Cidade Boa Vista (RR) 
Etapa 3º ano

O PROJETO
História das Mulheres em Roraima

POR QUE É ESPECIAL
Registrando a História das Mulheres
Rutemara instigou os alunos a desassociar a figura feminina do papel de vítima e encará-la como relevante para a história local 

Elas também podem 
O enfoque no papel das mulheres nos acontecimentos de Roraima dá visibilidade para os desafios enfrentados por elas na sociedade e reforça a ideia de equidade sem ser panfletária. 

Quem faz a História 
O projeto convida os alunos a ampliar o conceito de sujeito histórico e desnaturaliza a ideia de que apenas os homens são protagonistas da história, da sociedade, da política etc.  

Mão na massa 
A professora confiou na capacidade dos estudantes de realizar 41 entrevistas biográficas com mulheres de Roraima. O projeto é também contraponto aos materiais disponíveis na internet, em geral relacionado só à violência. 

Vamos além 
Rutemara não se limita ao livro didático e apresenta aos alunos textos mais complexos para conhecer outros aspectos da História do Brasil. Ela acompanhou a leitura de perto, para ajudar os jovens a interpretar o conteúdo mais acadêmico. 

Foto: Marcio Lavor/NOVA ESCOLA

Argumentação em foco 

MEU LUGAR: Mais do que treinar para a redação, alunos de Patrícia aprenderam a argumentar. Crédito: Bruna Justa/NOVA ESCOLA 

Ao identificar que os alunos do 3º ano do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, em Nova Cruz, discutiam de maneira genérica e superficial sobre as questões do local onde vivem e não tinham um vínculo com ele, a professora Patrícia Barreto usou esse cenário em um trabalho com o gênero artigo de opinião, levando os alunos a aprender a argumentar de forma sólida. 

Mas, ao contrário do que geralmente acontece em sala de aula, a docente não listou temas polêmicos e propôs que os alunos escrevessem exaustivamente sobre eles, até alcançar um bom resultado final. Patrícia apostou justamente em fazer os alunos pensar sobre o entorno e ativar a voz de morador de cada um deles (além de Nova Cruz, muitos vivem em municípios vizinhos ao da escola, como Serrinha, Passa e Fica e Brejinhos). Para começar o projeto, a professora desafiou os alunos a analisar fotos que representavam denúncias de problemáticas sociais do planeta, identificando oral e coletivamente a temática do texto. Tanto o posicionamento a respeito dos problemas sociais quanto as justificativas para pensar daquela forma eram bastante frágeis, observou a professora, que desafiou cada aluno a fotografar um problema do seu município e, depois, a ler e estudar artigos de opinião de estudantes extraídos da Olimpíada de Língua Portuguesa de 2016. Assim, os jovens puderam observar aspectos composicionais do gênero e, com a ajuda da professora, construir uma definição do que significa, afinal, saber argumentar. 

Patrícia também criou o jogo Argument(ação), para que os jovens aplicassem os conhecimentos adquiridos sobre tipos de argumentos e sobre os problemas dos municípios fotografados anteriormente. Eles foram convidados a preparar perguntas para ser respondidas por meio de pesquisa e exposição oral. Só depois disso tudo é que Patrícia encaminhou a produção da primeira versão do texto seguida da revisão e da autoavaliação. 

“O projeto de Patrícia foge do padrão de explicar primeiro e deixar os alunos produzirem de - pois”, analisa Claudio Bazzoni, coordenador do Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e selecionador do Prêmio Educador Nota 10. Por fim, a turma preparou e gravou o podcast Minha Cidade, Meu Lugar, para divulgar as ideias dos estudantes a respeito dos lugares onde vivem. 

Ao deslocar o olhar dos alunos para as cidades que conhecem, Patrícia mobiliza a turma de forma genuína e aumenta a chance de construção de autoria por meio da proposta provocadora. 

“A tarefa transcende o lugar da velha redação escolar. Argumentar é a essência do exercício da cidadania e os jovens precisam aprender a fazer isso”, explica Maria José Nóbrega, professora da pós-graduação e do curso de formação de escritores do Instituto Vera Cruz. 

A EDUCADORA

Nome Patrícia Barreto 
Escola Instituto Federal do Rio Grande do Norte 
Cidade Nova Cruz (RN) 
Etapa 3 º ano do Ensino Médio

O PROJETO 
Argument(ação): protagonismo juvenil

POR QUE É ESPECIAL?
Opinião bem embasada 
Para fortalecer o texto argumentativo dos alunos, Patrícia partiu de problemas locais

Eu vivo aqui 
Mais do que abordar problemas distantes ou abstratos, o projeto fez os alunos pensarem sobre a realidade local e opinar sobre ela. 

Uma boa discussão 
O projeto mostrou a importância da pesquisa e da informação para sustentar argumentos mais consistentes. 

Espalhando a palavra 
O projeto culminou em um podcast, trabalhando, assim, com a oralidade e a escrita argumentativa a favor das práticas sociais

Foto: Bruna Justa/NOVA ESCOLA

A modernidade líquida no Rio 

TEMPO ATUAL: Rodrigo, ao lado de Gleiciane, guiou alunso da escola técnica pelas ideias de Bauman. Crédito: Hans Georg/NOVA ESCOLA

O uso de frases feitas em discussões e a superficialidade da turma ao argumentar sobre a sociedade atual inquietavam Rodrigo Seixas, professor de Sociologia do Ciep 493 – Profª Antonieta Salinas de Castro, em Barra Mansa (RJ). 

O professor do 3º ano do Ensino Médio incomodava-se também com a ideia propagada pelos estudantes de que, antigamente, tudo era melhor. Então, resolveu provocar os estudantes de forma positiva: planejou um projeto sobre as ideias do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), famoso pelo conceito de modernidade líquida. “Aproximei a turma da Sociologia porque os jovens se enxergaram no processo reflexivo de um pensador da época deles”, comemora. Embora não faça parte do currículo da Educação Básica, o pensador é muito citado na academia, e suas ideias podem contribuir com o pensar sobre o mundo atual. Mariângela Bueno, historiadora e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10, explica que o trabalho consegue mostrar que a Sociologia é um componente curricular vivo – sem negar os autores clássicos ou difamar os atuais. Além disso, Bauman trata da superficialidade das relações e do individualismo exacerbado – contraproducente à vida ética, republicana, democrática, social. “Se sou individualista, não consigo colocar em primeira ordem o coletivo. Dou o mínimo possível de mim para o outro e apresento algo superficial – tal como nas redes sociais, quando reproduzimos a ideia de estar sempre bem”, conta Paulo Ribeiro, coordenador do núcleo de pesquisa da Fesp. 

O desenvolvimento de um projeto como o de Rodrigo, em coautoria com a professora de Língua Portuguesa Gleiciane Rocha, também chama atenção pelo contexto: acontece em uma escola técnica – onde tradicionalmente é desafiador conquistar a atenção dos estudantes para a Filosofia e a Sociologia. “Ele revela preocupação com a forma com que os alunos se posicionam e em que medida estão mergulhados numa alienação permanente”, comenta Paulo. Rodrigo mostrou à turma um episódio da série Black Mirror e propôs uma conversa sobre os novos modelos de relacionamento, baseados na objetificação do outro. 

Depois, a turma estudou e se aprofundou nas principais ideias de Bauman. Por fim, em grupos, os estudantes organizaram apresentações usando multilinguagens sobre microtemas e interagiram com a comunidade escolar. “Eles se valeram de estratégias interativas e elaboraram um mapa mental da educação, uma roleta de perguntas da fé, um quiz para medir o nível de egoísmo, entre outros trabalhos”, conta o professor. “Participar da mostra permitiu que os alunos aprendessem com o colega e ensinassem, interagindo. Rodrigo acerta ao sair do centro, sem deixar de apoiar o grupo”, conclui Mariângela. 

O EDUCADOR

Nome Rodrigo Seixas 
Escola CIEP 493 – Profª Antonieta Salinas de Castro 
Cidade Barra Mansa (RJ) 
Etapa 3º ano do Ensino Médio

O PROJETO 
Um Passeio pelos Tempos Líquidos

POR QUE É ESPECIAL?
Sociologia para os tempos atuais
Projeto traz autor contemporâneo e instiga alunos a refletir sobre a modernidade 

Autonomia 
O projeto envolveu pesquisa, reflexão e culminou em uma mostra. Com isso, o professor saiu do papel central e convidou os alunos a ensinar.

Além dos clássicos 
Ao escolher Zygmunt Bauman, a turma teve oportunidade de refletir sobre o que vivencia à luz de um pensador contemporâneo.

Conhecimento vivo 
Realizado em uma escola técnica, o trabalho aproximou a turma da Sociologia, apresentada como um campo em transformação. 

Linguagens múltiplas 
O projeto de Rodrigo convida os alunos a produzir apresentações híbridas sobre os temas estudados, valendo-se de multilinguagens para expor as ideias deles.

Foto: Hans Georg/NOVA ESCOLA