Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Educador Nota 10 | Prêmio Educador Nota 10 2019 | Educação de Jovens e Adultos


Por: André Bernardo

Professora de EJA cria projeto de alfabetização sobre preconceito

Ao promover a reflexão compartilhada sobre a discriminação, projeto combate a evasão e ajuda alunos a avançarem na leitura e na escrita

ESPELHO: Nilma promoveu o levantamento do preconceito e levou alunos de EJA ao Museu Afro Brasil

Ouvido na roda de conversa, o relato de uma estudante, que discorreu sobre os motivos que a levaram, ainda criança, a parar de estudar e os preconceitos que sofreu ao longo da vida, inspirou a professora Nilma Sladkevicius, de Língua Portuguesa, a criar o projeto Um Sorriso Negro, Um Abraço Negro, da EMEF Luiz Bortolosso, em Osasco (SP), um dos projetos selecionados para o prêmio Educador Nota 10 de 2019. “O relato motivou uma série de histórias sobre preconceito”, recorda. 

Com 16 anos dedicados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), Nilma dividiu a sequência didática em duas partes. Na primeira, pediu à turma – em sua maioria migrantes nordestinos de 24 a 71 anos – que listasse os preconceitos já sofridos. “Gostei de discutir racismo na aula. Infelizmente, vivencio todo santo dia”, lamenta Pedro dos Santos, de 68 anos. 

Em seguida, entrevistaram pessoas sobre discriminação e contabilizaram os dados em uma planilha apelidada de “tabela do preconceito”. “Racismo, machismo e gordofobia estão entre os mais citados. O que mais sobressaiu, porém, foi o preconceito contra analfabeto. Muitos relataram a vergonha que sentem e os mecanismos que usam para esconder essa condição”, revela a docente.  

Na segunda parte, propôs a leitura coletiva da biografia de personalidades negras. “A preferida foi Carolina de Jesus”, conta. Catadora de papel, ela registrava o cotidiano da favela nos cadernos que encontrava no lixo, transformados posteriormente no livro Quarto de Despejo. Por fim, Nilma estimulou os alunos a escrever suas próprias biografias. 

O projeto culminou em uma visita ao Museu Afro Brasil, em São Paulo. O maior medo da docente, o da evasão, revelou-se injustificado. A turma começou com 18 alunos e acabou com 51. Resultado: a Luiz Bortolosso abriu outra turma. “Queria mostrar que, se espelhando em personagens negros, eles também podem superar os estigmas causados pelos preconceitos e construir suas novas identidades como cidadãos capazes de se tornar a mudança que queremos ver em nosso país”, afirma. 

A maior qualidade do projeto para a selecionadora do Prêmio Educador Nota 10, Miruna Kayano, foi selecionar um tema relevante para os alunos, sem perder de vista o avanço na leitura e escrita. Por meio da reflexão compartilhada sobre preconceito, a professora propôs situações potentes de leitura e registros de respostas. “Como é um projeto pensado a partir dos levantamentos feitos pelo grupo da professora Nilma, é importante que os docentes que queiram colocá-lo em prática entendam esta seleção de temas para que possam organizar as propostas adequadas”, orienta.

A EDUCADORA

Nome
Nilma Sladkevicius 
Escola EMEF Luiz Bortolosso 
Cidade Osasco (SP) 
Etapa Educação de Jovens e Adultos (EJA) - Multisseriada (1º ao 5º ano)


O PROJETO 
Um Sorriso Negro, Um Abraço Negro

POR QUE É ESPECIAL
Eu, por mim mesmo
Inspire-se no projeto para propor a produção de autobiografias

Indique biografias 
Escolha um recorte que faça sentido para a turma: selecione histórias de pessoas negras, de mulheres etc. O projeto de Nilma trouxe as biografias de personalidades como a escritora Carolina Maria de Jesus e Nelson Mandela. 

Estimule a escrita de histórias de vida 
Para ajudar os estudantes na tarefa, elabore uma espécie de guia ou manual. Oriente os alunos a começar pelas informações básicas: nome, filiação, estado civil, local e data de nascimento etc.

O que é importante 
Após as informações iniciais, instigue a turma com perguntas como “que tal falar de algo que considera importante em sua vida?” 

No ritmo deles 
Caso sua turma seja multisseriada, é importante levar em consideração e respeitar o aprendizado de cada um.

Fotos: Roberto Setton/NOVA ESCOLA