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#Alguém me explica: Conheça a pedagogia que acaba com as notas e provas

Linha de ensino Waldorf completa 100 anos com 88 escolas no Brasil

POR:
Douglas Lisboa
Crianças desenham com lápis coloridos em folhas brancas
Foto: Getty Images

Quando o filósofo austríaco Rudolf Steiner foi dar uma palestra em uma fábrica de cigarros no interior da Alemanha, arruinada após a Primeira Guerra Mundial, defendeu que além de comida e moradia, a sociedade que tentava se reerguer dos escombros também precisava apostar na sensibilidade. De seus estudos, que uniam a ciência à espiritualidade, nasceu a pedagogia Waldorf, que completa cem anos em 2019.

A primeira escola Waldorf começou a funcionar na própria Alemanha em setembro de 1919. Hoje, elas estão presentes em mais de 60 países. No Brasil, a primeira instituição foi fundada em 1956, em São Paulo, e atualmente são 88 escolas assim no país, distribuídas em 21 Estados, com mais de 16 mil alunos e 1,7 mil professores. Uma faculdade da pedagogia Waldorf também começou a funcionar no ano passado.

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Ainda novidade para muitos pais e professores, essa pedagogia se propõe a olhar para o desenvolvimento do aluno em sua integralidade. Em vez de acumularem conteúdo desde os primeiros anos escolares, as crianças são estimuladas a pensar, sentir, formar opinião e desenvolver uma inteligência social.

A não ser para as turmas de Ensino Médio, nas aulas, não há a adoção de livros didáticos, por exemplo. Os alunos vão construindo ao longo do ano um caderno individual, feito na sala de aula, em que registram as atividades. Na escola pensada por Steiner, os ciclos de desenvolvimento do aluno são marcados por intervalos de sete anos -- é aos sete que as crianças são alfabetizadas, o que acaba sendo alvo de críticas de alguns educadores. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê que todos os alunos estejam alfabetizados até o 2º do Ensino Fundamental, por exemplo.

As crianças também não são avaliadas por provas tradicionais, mas têm lição de casa e um boletim que não tem notas, mas uma descrição do desempenho nas atividades da escola. Além de matérias específicas, como a euritmia (que interpreta sons e palavras com movimentos precisos), as escolas dão uma importância maior ao ensino de Artes e, mesmo em disciplinas tradicionais, o conteúdo é passado de forma lúdica.  

A diretora da Federação das Escolas Waldorf no Brasil, Helena Wurker, lembra que, na maior parte dessas escolas, há um incentivo à autogestão, em que as atividades dos professores não terminam na sala de aula. "O professor participa da gestão da escola, cuida das questões administrativas e se envolve. É como se a própria estrutura escolar estimulasse nos professores a independência que incentiva nos alunos."

Helena explica, ainda, que esse processo de ensino trabalha um aprofundamento dos estudos das escolas tradicionais com uma preocupação em trazer o raciocínio, em formar o conhecimento. E na opinião dela, apesar de a pedagogia Waldorf ainda despertar dúvidas, a tendência é que se expanda no Brasil nos próximos anos.

"O ritmo em que os conteúdos são ensinados pode ser diferente de uma escola tradicional, mas os alunos não deixam de estar preparados para os mesmos desafios que crianças e jovens da mesma idade experimentam no mundo. A escola dá mais espaço para a arte, mas não deixa de preparar os alunos para o mercado de trabalho ou o vestibular", diz ela.

A Escola Comunitária Municipal Vale de Luz, em Nova Friburgo, na região serrana do Estado do Rio, é uma das 15 instituições públicas ou sociais a adotarem a pedagogia Waldorf no país. O diretor da instituição, Dioneson Guimarães, explica que desde a década de 1990 a escola adota a pedagogia e hoje ensina crianças da Educação Infantil até o quinto ano do Ensino Fundamental.  

Com 110 alunos com idades entre três e 11 anos, divididos em sete turmas em período integral, as crianças cuidam de uma pequena horta, em que preparam a terra, plantam e colhem trigo, para mais tarde fazerem pães na cozinha da escola. Elas também têm aulas de música, de tricô, artes e de inglês. 

"A proposta inicial era criar uma escola que somasse a responsabilidade acadêmica e que fosse parecida com a alegria de brincar na rua. A diferença para o ensino tradicional é que o estímulo ao intelecto dá lugar à clareza de raciocínio, equilíbrio emocional e à iniciativa. No futuro, os ex-alunos serão capazes de levar para a vida um forte senso de justiça, amor pela liberdade e compromisso social", diz Dioneson. 

Conceitos

A pedagogia Waldorf trabalha com alguns conceitos específicos. Veja quais são e as suas definições.

Antroposofia: é a filosofia que une a ciência à espiritualidade, elaborada pelo austríaco Rudolf Steiner no início do século passado. Na Educação, considera a importância da relação dos alunos com a natureza, as emoções e o estímulo à individualidade.

Antropologia evolutiva: o desenvolvimento das crianças é o centro da pedagogia, segundo Steiner. Em vez de buscar uma qualificação profissional direcionada, o aluno é estimulado a compreender qual é seu papel no mundo e a sua vocação.

Euritmia: dificilmente você vai encontrar essa disciplina em uma escola que não siga a pedagogia Waldorf. Ela foi criada por Steiner e estuda a linguagem e a música em movimento. Nas aulas, o professor e as crianças podem formar um círculo e fazer movimentos precisos, interpretados durante uma obra musical.

Sensibilidade artística: a arte e a imaginação devem estar presentes em todas as aulas, por meio de imagens, músicas e atividades manuais. Isso porque, para Steiner, o desenvolvimento intelectual não deve ser mais importante do que as habilidades artísticas e artesanais.

Habilidades manuais: alunos e alunas fazendo projetos de tricô, de marcenaria e mexendo na terra. Os conceitos de arte e as oficinas criativas são levadas à prática. O trabalho manual ajuda na coordenação motora e mantém o cérebro em alerta.  

Imitação e experimentação: a criança já aprende naturalmente imitando o comportamento dos pais e de outros adultos próximos. A pedagogia estimula esse aprendizado pela imitação, com jogos e músicas em sala de aula.

Professor companheiro: o professor permanece responsável pela mesma turma durante os oito primeiros anos de ensino, podendo, assim, acompanhar a evolução dos alunos e compreender o tempo de aprendizado de cada um.  

 

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