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Educação Midiática e BNCC: saiba como aplicar com a sua turma

Em uma sociedade cada vez mais conectada, é importante que seus alunos saibam produzir, interpretar e refletir sobre conteúdos que chegam diariamente pelas redes e pela internet

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Camila Cecílio
Em uma sociedade cada vez mais conectada, os jovens precisam ter conhecimento para identificar conteúdos e refletir sobre o que estão produzindo e recebendo    Crédito: Getty Images

Antes de começarmos esta conversa, algumas perguntas: Quantas mensagens, fotos ou notícias chegaram via WhatsApp ao seu celular nas últimas 24 horas? Deu tempo de ler tudo ou só a manchete? E deu tempo de checar se as informações eram as mesmas em um site ou portal diferente? Ou você bateu o olho e mandou rapidinho para alguns amigos?

A ideia aqui não é entrar em julgamentos, mas refletir sobre comportamentos que a maioria de nós tem ao lidar com informações que chegam pelas redes sociais (como Facebook, YouTube, Instagram, por exemplo) ou aplicativos de mensagens (WhatsApp, Messenger, Telegram, entre outros). Em um mundo cada vez mais conectado, o excesso de informação é um desafio ao senso crítico de qualquer pessoa. À medida que crianças e jovens escrevem posts ou publicam vídeos em que expressam suas opiniões – vistas por eles como socialização – estamos diante da “necessidade de um papel educativo”, segundo Carlos Eduardo Canani, professor de Produção Acadêmica e Língua Portuguesa na Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac). “As mídias ajudam a exibir valores e a formar”, diz. “Toda essa leitura precisa ser ensinada também na escola”.

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Entra em cena a Educação Midiática, o processo de ensino e aprendizagem sobre a mídia que envolve a aplicação do senso crítico. O papel da Educação Midiática é estimular o senso crítico para que crianças e jovens sejam capazes de estabelecer relações, analisar informações, entender a natureza da mídia e refletir sobre o papel de quem produz o conteúdo e de quem está recebendo na outra ponta. Os pilares da Educação Midiática estão presentes na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e são parte integral do desenvolvimento do aluno na era digital. Para que esses estudantes possam se tornar proficientes nessa área do conhecimento, da mesma maneira que aprendem conceitos de Língua Portuguesa, Matemática e História, o professor precisa se apropriar do processo de Educação Midiática.

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O que faz parte da Educação Midiática

A Educação Midiática é o conjunto de habilidades para acessar, analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional e midiático em todos os seus formatos, dos impressos aos digitais. Embora essa área do conhecimento tenha ganhado mais relevância nos últimos dez anos, o estudo sobre o impacto das mensagens de mídia já era discutido nos anos 1960. Com a evolução dos meios de comunicação, passando dos jornais para rádio, televisão até chegar à internet, foi preciso entender as peculiaridades de cada mídia. O avanço das redes de conexão Wi-Fi associado ao crescimento das redes sociais e do mercado de smartphones (celulares com conexão) tornou possível que as pessoas fossem impactadas com uma frequência muito maior por diferentes mídias. Isso faz com que um tema que era discutido nos cursos de Jornalismo e Comunicação seja material imprescindível agora para a Educação Básica.  

A Educação Midiática encoraja uma abordagem inquisitiva em sala de aula, baseada em perguntas como:

  • Quem criou essa mensagem? Qual é o propósito?
  • Qual é o público que essa mensagem quer atingir? Por quê?
  • De que ponto de vista essa história está sendo contada? Só existe um lado dessa história?
  • Como diferentes pessoas ou mesmo públicos interpretam essa história?

Identificar os conteúdos que trazem fatos e informações relevantes de outros que fazem uso de informações imprecisas, sem contexto e verificação é uma área de conhecimento que está sendo muito demandada e precisará ser cada vez mais trabalhada em sala de aula.

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Lançado neste ano pelo Instituto Palavra Aberta, o programa EducaMídia, estabelece a Educação Midiática como requisito fundamental para a formação do cidadão e para o fortalecimento da democracia. O projeto, voltado para professores e educadores, possui três pilares – ler, escrever e participar – que podem ser desenvolvidos com os alunos em sala de aula.

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Ler. As habilidades deste eixo ajudam a filtrar, ler criticamente e dar sentido ao enorme fluxo de informações que nos cerca – imagens, vídeos, notícias, posts, games, embalagens, publicidade, memes, gráficos, mapas, entre outros. Ensina a entender as intenções por trás de cada texto de mídia, separar notícia de opinião, fatos de propaganda, e reconhecer sátira, caça-clique (do inglês, clickbait, que se refere a notícias com títulos chamativos para fazer o leitor clicar), mensagens falsas, inexatas ou tendenciosas. Aqui entra também o questionamento: o que não foi dito por quem produziu o conteúdo?

Escrever. Neste eixo, o foco é dar voz aos jovens, promovendo as habilidades necessárias para que possam produzir conteúdo e se expressar em diversas linguagens, publicando para audiências reais, engajando-se com questões de suas comunidades e participando do diálogo da sociedade. É o eixo para desenvolver a autoria.

Participar. Diz respeito ao uso da tecnologia para promover a empatia, reconhecendo e respeitando diversas vozes, entendendo questões de representação e exclusão na mídia, ensinando crianças e os jovens a dialogar, discordar e reagir nas redes sociais de maneira equilibrada e não-violenta, combatendo a discriminação e o discurso de ódio. É neste eixo que entram os temas ligados à cidadania digital e participação cívica.

O EducaMídia já disponibiliza diversos materiais para auxiliar professores que queiram levar o tema, que é tratado como componente transdisciplinar na BNCC, para a sala de aula. Os objetivos do programa foram elaborados com habilidades alinhadas à Base em pelo menos cinco de suas 10 competências gerais: Conhecimento, Pensamento científico, crítico e criativo, Repertório Cultural, Comunicação e Cultura Digital.

“Sem o letramento necessário, esta geração tão bombardeada por informações o tempo todo não consegue avaliar sua origem ou propósito”, afirma Mariana Ochs, formadora de professores certificada pelo Google e coordenadora do EducaMídia. “Reportagens que são produzidas por jornalistas, com informações verificadas, aparecem junto a textos de opinião, conteúdos patrocinados, por exemplo”.

Segundo Mariana, o Brasil combina um alto grau de analfabetismo funcional com uso elevado das redes sociais – inclusive como fonte principal de informação. Nessas plataformas, o conteúdo que chega aos usuários está sujeito à seleção feita por algoritmos. “Vemos um recorte da informação, influenciado por nossos próprios comportamentos e crenças, e sem indicação alguma de procedência ou confiabilidade”, complementa.

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Conhecimento para exercício da cidadania

A importância da Educação Midiática vai além de seu alcance como área de conhecimento. De acordo com Claudemir Edson Viana, doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), a Educação Midiática é essencial para termos uma comunicação que não seja apenas o exercício de um direito do cidadão, mas uma prática política não partidária de existência, cidadania, do indivíduo e de seu coletivo.

O especialista, que há décadas estuda temas como Educomunicação e Educação e Mídia, defende que a noção da consciência social e da comunicação como processo social leva o cidadão a se empoderar, ser capaz de lidar de forma efetiva com essa comunicação, favorecer o processo de cidadania de seu coletivo, da sua comunidade e seus grupos. O pesquisador reconhece que a Educação Midiática é um dos desafios da Educação no Brasil. “É um debate antigo, mas que precisa ser assumido por outras entidades, além do Instituto Palavra Aberta. Hoje, há cobrança até da ONU para que se torne política pública, inclusive para a formação dos professores da Educação Básica”, afirma.

O argumento mais defendido por pesquisadores e organizações centradas no estudo e na disseminação de técnicas de Educação Midiática, como Media Education Lab, ligado à Universidade de Rhode Island, New Media Literacies, do MIT, National Association for Media Literacy Education (Namle), e London School of Economics and Political Science (LSE) é que possibilitar o conhecimento dessas habilidades é a melhor maneira de empoderar indivíduos. “O maior desafio da educação para letramento midiático (que integra a Educação Midiática) será oferecer treinamento interdisciplinar para a próxima geração de educadores, acadêmicos e pesquisadores”, afirma Renee Hobbs, professora de Estudos de Comunicação na Faculdade Harrington de Comunicação e Mídia da Universidade de Rhode Island e uma das maiores referências no tema. “Não basta ter uma graduação em Comunicação ou Educação ou mesmo Psicologia das Mídias. Precisamos trabalhar o tema de forma interdisciplinar e explorar as conexões entre as disciplinas”.

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Na prática, como trabalhar Educação Midiática?

É importante reforçar que a Educação Midiática não é uma disciplina que o professor trabalha à parte em suas aulas. Como esse conhecimento perpassa várias áreas e disciplinas, ela funcionaria como uma “camada” aplicada ao processo de aquisição de conhecimento, segundo Mariana Ochs. “Precisamos criar o hábito da leitura reflexiva, incentivando os professores a trabalhar textos diversos, entendendo as técnicas utilizadas em cada formato e sempre avaliando sua origem, propósito e confiabilidade”.

Um exemplo desse uso em Língua Portuguesa seria pedir aos alunos para pesquisar um texto noticioso nas redes sociais ou grupos de WhatsApp. Escolhido o texto, pedir que provem se o texto traz informações relevantes e confiáveis. Tem fonte? Quem escreveu? Como saber se a informação foi checada? A mesma notícia foi publicada em outros veículos? Que veículos são esses? A partir das pesquisas dos alunos, eles podem escrever um texto em que mostram suas evidências e, ao final, uma reflexão. Esse mesmo princípio poderia ser aplicado a uma aula de Ciências (vacina contra rubéola em mulheres grávidas pode causar microcefalia no bebê?), História (o homem pisou mesmo na lua?), Matemática, etc.

Relacionar os conteúdos aprendidos na escola com as situações que vivemos na atualidade é um bom caminho para esse exercício. “A história contemporânea, a que vivemos, vem sendo contada pela mídia, não apenas pelos grandes veículos tradicionais, mas também por indivíduos e grupos que se tornaram transmissores de informação e conhecimento nos mais diversos temas e nas mais diferentes mídias, como os youtubers”, diz Priscila Gonsales, mestre em Educação, Família e Tecnologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca, na Espanha.

Fazer uso de diferentes formatos de mídia permite que os alunos aprendam a lidar com o universo contemporâneo das mensagens multimodais e da comunicação. Um assunto curricular pode ser explorado através textos escritos, como notícias, ou então explorado em gráficos, imagens, vídeos, jogos ou memes. O ponto mais importante é ensinar a decodificar esses diferentes formatos, afirma Mariana Ochs. Priscila Gonsales concorda: “As atividades devem envolver debates e reflexões sobre como uma mesma mensagem pode ser veiculada por perspectivas distintas, comparando estilos e discursos, imagens e edições".

Para trabalhar os conceitos e ferramentas de Educação Midiática em sala de aula é necessário, sobretudo, que o professor esteja aberto ao diálogo, segundo Claudemir Edson Viana. Só assim, diz, o professor poderá entender que tipo de informação os alunos consomem, o que gostam ou não e, com isso, planejar uma sequência didática com diferentes dinâmicas para explorar o assunto.

O professor também deve ensinar seus alunos a praticar um “certo ceticismo saudável” em relação às informações. Não se trata de duvidar de tudo, mas de fazer uma pausa diante de um conteúdo que nos chama a atenção. “Na comunicação, diversas técnicas verbais e não-verbais podem ser utilizadas para mobilizar, causar indignação ou espanto. Se essas [reações] aparecem, precisamos reconhecer que o autor tem esse propósito, e fazer a nossa leitura a partir desse fato", afirma Mariana. Ou seja, voltando ao início do texto: é sempre melhor parar para refletir antes de compartilhar. "Precisamos fazer o aluno se perguntar: essa informação tem autor? Quem mandou isso e por que mandou? Às vezes, basta fazer uma rápida busca no Google junto com as palavras ‘falso’ ou ‘fake’ [falso em inglês] para desbancar a informação”.

 

habilidades desenvolvidas pelo PROGRAMA EDUCAMÍDIA

A partir dos pilares LER, ESCREVER e PARTICIPAR, o programa EducaMídia propõe os seguintes objetivos: 

PARA OS ALUNOS

ANALISAR de forma crítica, e habitualmente, os textos de mídia em qualquer formato - dos impressos à internet;


COMPREENDER os mecanismos de busca, curadoria e produção de conhecimento;


ACESSAR uma ampla gama de ferramentas digitais e ter flexibilidade para encontrar e adaptar-se a novas ferramentas;


APLICAR o conhecimento do ambiente informacional e midiático para solucionar problemas, para o exercício da cidadania e para a autoexpressão;


CRIAR peças de mídia fundamentadas em uma escrita técnica ou criativa bem desenvolvida, de forma ética e responsável.

PARA OS PROFESSORES

EXPLORAR novas abordagens pedagógicas proporcionadas pelas tecnologias de informação e comunicação;

PROMOVER uma cultura de aprendizagem que estimule a curiosidade e o aprendizado contínuo;

FACILITAR a aprendizagem significativa, fazendo uso de recursos de mídia;

GUIAR os alunos para práticas éticas, legais e seguras no ambiente digital e fora dele;

CRIAR experiências engajadoras que levem os alunos a participar e contribuir para a sociedade de maneira crítica, ética e responsável.

 

Este conteúdo é parte do projeto Educamídia, do Instituto Palavra Aberta, com apoio do Google.org, para incentivar a Educação Midiática e a liberdade de expressão.

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