Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Como melhorar a conversa com os pais? Veja as dicas

Professores convidados por NOVA ESCOLA dividem suas experiências e afirmam: quando os pais sentem que são ouvidos, eles vão até a escola

POR:
Flavia Nogueira
Professora em sala de aula recebe aluna da Educação Infantil no colo e se despede da mãe
Foto: Getty Images

“Todo e qualquer tipo de conversa com os pais precisa ser planejada”, a frase é da professora Mônica Felismino, especialista em Matemática, Neurociência, Direito e Gestão Educacional e com experiência de 12 anos em escolas públicas.

Mônica e Ademir Almagro, professor de História há mais de 26 anos, lecionando para o Ensino Fundamental e Ensino Médio nas redes públicas e particulares e um dos coordenadores do Núcleo da Conectando Saberes de Novo Horizonte, São Paulo, se reuniram em NOVA ESCOLA no #TiraDúvidas do Professor, um programa ao vivo para apoiar os professores em sala de aula. O programa foi uma iniciativa de NOVA ESCOLA e da Rede Conectando Saberes

LEIA MAIS Como fazer o seu aluno prestar atenção na aula? Veja dicas

“Antes de me reunir com os pais para falar de um aluno que tem dificuldade, por exemplo, eu elaboro e anoto uma pauta de coisas que não posso esquecer: alguma dificuldade específica que ele tem, algum problema de relacionamento. Porque senão, muitas vezes convocamos os pais e fica muito na retórica: eu pergunto, eles não sabem responder, eu também não sei para onde vou”, afirma a professora.

LEIA MAIS 94% dos professores acreditam que falta interesse dos pais no desempenho escolar dos filhos

Para o professor Ademir, é preciso também resgatar a importância da reunião com os pais.

“Por que ela existe? Quais as consequências positivas que ela pode trazer? Então existe essa conversa com os professores, com a comunidade escolar. A partir daí é o planejamento. E o planejamento no sentido de identificar qual é o modelo de reunião que nós precisamos para aquele momento, existem vários modelos de reuniões e cada uma se adapta melhor à nossa necessidade”, explica.

Veja abaixo os principais pontos da conversa. 

Ouvindo a família 

Mônica afirma que a reunião com os pais dos alunos não é simplesmente para o professor passar informações.

“É uma prática dialógica, é uma ação coordenada e com intenção. Você pega um assunto, dirige a pessoa que vai conversar com você, mas também espera que ele transforme a ideia que você tem. São as técnicas de comunicação: uma escuta ativa, às vezes o professor não escuta ou os pais não escutam.  Em um diálogo podemos falar mas precisamos ouvir, ouvir os pais, ouvir os professores, uma escuta ativa e sensível e uma fala coordenada”, diz.

Para a professora é preciso primeiro escutar atentamente o que a família tem a dizer.

“Não é escutar e estar ali só de corpo presente, é ouvir mesmo, com sensibilidade. Às vezes temos uma dificuldade com o aluno, achando que os pais vão colaborar, mas os pais também estão precisando da nossa colaboração. Ouvir primeiro até sensibiliza o professor”, conta.

“E torna a reunião mais participativa, foge da monotonia e cria aquele sentimento de pertencimento entre os pais, que pensam: ‘vale a pena ir na reunião porque eu sou ouvido’. É uma reunião produtiva”, afirma Ademir.

E o professor vai mais longe: além de ouvir é possível também fazer avaliações das reuniões.

“Hoje, graças à tecnologia nós conseguimos colher as informações dos pais, através de formulários na internet: como foi a reunião, o que eles acharam. E dali virão sugestões para a próxima, porque não existe um modelo perfeito, é um constante construir. E tem que ter começo, meio e fim, tem que ter suas consequências também.”

Quando a família não aparece na reunião

Quando uma família não aparece na reunião, o ideal, segundo o professor Ademir, seria ter profissionais voltados exclusivamente para ir até as casas desses pais.

“Seria o modelo ideal, mas não é a realidade de todo o Brasil. Tirando esse modelo, o ideal seria, nesse momento, convencer os pais de que tudo mudou, a reunião é outra. Levar essa informação para os alunos e os alunos levam para os pais. De repente, na primeira reunião, teremos poucos pais, mas se ela for diferente, eles vão comentar um com o outro, e eles virão”, explica.

“Na Educação nada é muito rápido, é um processo um pouco lento, mas precisa começar e esse processo. Mostrou que tem qualidade, mostrou que é diferente, a sociedade vai responder. E aí teremos alguns casos esporádicos, que não vão. Aí é outra situação, talvez ir na casa mesmo, conversar com o Conselho Tutelar, aí é outro caminho”, afirma o professor.

Mônica conta que já teve casos em sua escola de convocar a família de uma criança várias vezes e, ainda assim, eles não aparecerem.

“É muito triste, é uma forma de abandono. A reunião de pais é uma colaboração, é um casamento entre eu, a família e a criança. Quando não dá, muitas vezes tive que conversar com o aluno e falar: ‘olha eu gostaria que sua família fizesse isso e eu não estou conseguindo chamar. Você sabe me dizer o que houve?’”, explica.

Mas, se mesmo com isso a família não comparece, o professor não deve ficar desmotivado.

“Se eu já sei que não tenho a parte da família, vou desenvolver outras estratégias para que eu resolva sozinha, porque eu sei que vou resolver. Faço combinados com a criança, com os alunos, e tentamos caminhar”, conta Mônica.

Abordagem da família e indisciplina

Para a professora Mônica, a técnica de ficar na porta da escola pode ser uma boa alternativa para fazer a abordagem dos pais.

“Na entrada, acho um pouco difícil, estou recebendo os alunos. Mas, na saída, faço questão de entregar aos pais, um a um. E, quando eu tenho dificuldade com os pais, já falo: ‘olha, preciso de cinco minutos com você’. Às vezes eles falam que não podem naquele dia, eu insisto e peço para o dia seguinte e já alerto que é importante”, diz.

O professor Ademir conta que, como trabalha com Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio, não existe essa facilidade de encontrar os pais na porta da escola. Por outro lado, quando os pais são chamados pelos professores, eles costumam aparecer.

E, quando o problema a ser conversado é de indisciplina, Ademir recomenda que reunião seja em um local reservado e que o professor já saiba exatamente o que será falado.

“Quando você chama os pais, você já tem que ter o encaminhamento e não pode trabalhar com ‘achismo’. Você trouxe a família, tem que trabalhar com dados, pegar a prova, trazer o aluno para ele dar o depoimento dele, explicar o que está acontecendo. Uma reunião olho no olho e que não tenha um culpado, nós estamos procurando uma solução.  Sem acusações, senão fica desgastante, não dá certo.”

O professor se lembra de um exemplo prático que ocorreu com ele no primeiro semestre, com um aluno que causava muita indisciplina em sala de aula.

“Chamamos os pais e, na conversa, o aluno comentou que o problema é que, até o ano passado, ele tomava um remédio para controlar a ansiedade e os pais cortaram o remédio. Ele falou na nossa frente: ‘vocês cortaram, eu não estou me controlando, preciso de ajuda’. Então é uma conversa muito séria, sem acusação, sem um culpado, vamos resolver o problema”, conta.

Para Mônica, também é preciso fazer uma primeira abordagem mais cuidadosa dos pais em casos de indisciplina.

“Os pais também não podem sair com um peso, do tipo: ‘a professora falou que tem um problema!’. Alguns até chegam brigando com a criança. E isso não pode A ideia é: conversamos e resolvemos juntos.”

Porta da sala de aula

Também não faltam casos de pais que preferem abordar o professor na porta da sala de aula. Algo que Mônica não aprova e já avisa aos pais durante as reuniões que não pode atender na hora da entrada dos alunos.

“Então, quando vem um pai na entrada da sala de aula, já sei que o assunto é realmente sério. É aquele momento de pedir a ajuda de uma funcionária, às vezes faço o combinado com as crianças: ‘olha, o assunto é sério, aguardem um pouco’. Também posso falar com o pai se é sério ou se posso ouvir no horário da saída, um horário melhor. Se ele falar que não, que tem que ser ali, então ouço e falo que precisa ser resumido porque estou com as crianças. E eles sabem que estou zelando pela segurança das crianças, então eles colaboram também.”

No Ensino Fundamental 2 e no Ensino Médio, onde Ademir trabalha, geralmente os pais aparecem na porta da sala de aula para passar uma informação urgente ou rápida.

“Ele ficou sabendo de alguma coisa, quer tirar satisfações, normalmente vem muito nervoso. E aí entra a ideia da “escutatória”. Tem a oratória e a “escutatória”: deixa falar, desabafa, o nervosismo passa em minutos. E aí vamos conversar, porém direcionando para a coordenação. Nós não podemos perder o tempo de sala de aula, os alunos estão lá. Então o pai desabafa por alguns minutinhos, mas quem dá a sequência é a coordenação.”

E se o assunto for específico com o professor, aí o conselho de Ademir é que o pai venha em outro horário, na reunião semanal ou marque uma conversa em particular.

“Porta da sala de aula não é o local, não é apropriado”, pontua. 

Psicólogo na reunião

Em alguns casos mais específicos, nos quais o problema se estende sem solução, é preciso contar com a presença de um psicólogo nas reuniões e isso já ocorreu com Mônica.

“Pedi que um psicólogo viesse e ele teve 20 minutos de fala dentro da reunião. Não é um atendimento, não pode gerar a confusão de que ele virá à escola para uma consulta, a ideia é tomada de informações gerais. E resolveu o problema. Foi um caso que eu sozinha e a gestão não conseguimos. Era um problema que vinha se arrastando há três meses. E o psicólogo colaborou para que desse certo”, diz.

Nesse caso, de acordo com a professora, o psicólogo não faz perguntas, ele traz informações.

O professor Ademir afirma que já passou por casos parecidos e o psicólogo ajudou muito.

“Porque essa é a reunião produtiva, o pai sai melhor do que entrou e ele vai voltar. Aquela reunião em que se falam as mesmas coisas, no mesmo formato, está desgastada. Esse é o modelo que funciona. A sociedade valoriza, ela quer isso e quem não participar, vai se arrepender.”

Bilhetes

Na hora de enviar bilhetes para a família, Mônica afirma que sempre pensa que devia ter escrito o bilhete de uma forma diferente. E, por isso, em 2019, resolveu pedir a ajuda de uma escriturária da escola que sempre analisa o que ela escreveu.

“Não penso, escrevo e mando, porque sempre tem erro. E isso é chato, somos uma escola. E o que eu acho importante é no bilhete da reunião também colocar, além da hora e local, o que vai tratar, assuntos pedagógicos, formaturas.  Dar uma prévia no bilhete funciona bem.”

Ademir lembra que as reuniões precisam começar exatamente no horário que foi comunicado no bilhete.

“Temos que ter fidelidade de horário, começar no horário, levar o compromisso à sério. E também no final dela, reuniões extensas se tornam improdutivas, sabemos que chega um momento em que ninguém mais presta atenção”, alerta. 

Aquele grupo do WhatsApp

O que fazer quando os pais e a própria escola decidem fazer um grupo no WhatsApp para discutir a vida escolar dos alunos? Para Mônica, é preciso, antes de tudo, estabelecer limites.

“Precisa ter uma relação na qual os pais compreendam que você é profissional e precisa ter horários, tem uma família no final do horário. E o grupo de WhatsApp tem que funcionar para trabalho. É preciso colocar um recado: esse grupo serve para isso. Coloque essa mensagem frequentemente.”

Em um grupo que teve problemas, Mônica optou por uma eleição para apontar três mães que coordenavam o grupo.

“Se tivesse alguém reclamando ou fazendo fofoca, elas já puxavam no privado e falavam que o grupo não é para isso.  Funcionou bem.”

Mas, quando uma colocação no grupo de mensagens pode ser mal interpretada pelos outros pais, o melhor é mesmo encerrar o grupo e ficar apenas com a reunião, sempre explicando as razões e pedindo a opinião de todos.

E Mônica lembra uma regra básica: “um grupo para reclamar não é um grupo produtivo, é para achar soluções. Senão encerramos”.

Ademir afirma que não participa de grupos no WhatsApp mas conhece alguns que funcionam. No entanto, estes são exceções.

“Na maior parte das vezes não funciona e é algo que precisa ser muito bem estudado. Depende da realidade da escola, se funcionar, é uma ferramenta que deve ser levada em consideração, ajuda muito, é comunicação rápida. Mas, mesmo quando funciona, vale o alerta: a comunicação no WhatsApp não substitui reunião, não é ali que se discutem ou resolvem os problemas. Ali é para organizar uma reunião, passar uma informação de urgência.”

 

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias