A saúde mental na escola e a prevenção ao suicídio

No Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, conheça algumas ações que mostram como o bem-estar pode ser contagiante na escola

POR:
Martha Maccaferri
Crédito: Getty Images

A literatura e as pesquisas sobre o suicídio e as formas de prevenção trazem a ideia de que, ao contrário da crença popular, falar a respeito não coloca a ideia na cabeça das pessoas. Esses momentos são importantes, mesmo que não seja uma tarefa fácil. A promoção da qualidade de vida e do bem-estar deve ser a prioridade nas ações de prevenção. Sabe-se que o sofrimento é contagioso, portanto o bem-estar também deve ser visto da mesma forma!

O sofrimento psíquico e as doenças emocionais são inerentes ao ser humano e a promoção da saúde está relacionada à nossa concepção de bem-estar. O objetivo é garantir o acesso a condições básicas de existência, que envolvem habitação, alimentação, saúde, escola, trabalho, cultura etc. Quando pensamos em prevenção, estamos falando da atividade relacionada ao controle dos fatores de risco que antecedem o adoecimento.

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O psicanalista Christian Dunker, no livro “Reinvenção da Intimidade - Políticas do Sofrimento Cotidiano”, afirma que “(...) a maneira como interpretamos ou codificamos, nomeamos ou metaforizamos, descrevemos ou narramos nossa experiência de sofrimento transforma sua natureza, extensão e intensidade (...)”. Cada experiência de sofrimento é uma história que se transforma na medida em que é contada. Uma história ruim pede uma pior. Sofrer com o outro ou sofrer do outro são os pólos dessa gramática contagiosa”. Logo, quando alguém ouve uma história que qualifica o sofrimento, o seu cérebro mobiliza outros sentimentos e desencadeia reações que nos levam a outras tantas histórias e vivências.  

Em todas as ações que envolvem cuidado em saúde mental, a escuta das narrativas assume grande importância. Todos os envolvidos, além das pessoas em situações-limite de sofrimento (como as pessoas com risco de cometer suicídio), requerem atenção e cuidados.  

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Atitudes de cuidado e bem-estar na escola

No âmbito escolar, práticas e atitudes de prevenção ao suicídio envolvem cuidado em relação ao outro. Todas as pessoas que compõem esse microssistema social devem formar uma rede de relações e apoios, com momentos formativos para atuar com segurança em diversas situações. Trata-se de contar com o apoio de um psicólogo para explicar como lidar com pessoas em risco, como dirigir a conversa e fazer a escuta ativa. É importante produzir momentos que favoreçam o desenvolvimento das competências socioemocionais nas crianças e nos adolescentes, e não somente das capacidades cognitivas (geralmente, tão enfatizadas). 

Nessa perspectiva é importante considerar que, além dos alunos, professores, coordenadores, diretores, colaboradores administrativos, assistentes de pátio, profissionais da limpeza, da cantina e da portaria fazem parte de um sistema institucional com poderes, saberes e demandas específicos que devem ser considerados como agentes e receptores de atitudes de cuidado e promoção da saúde.

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Conforme afirmam os médicos psiquiatras Gustavo Estanislau e Rodrigo Bressan no livro Saúde Mental na Escola, “o professor bem informado e sensível pode tanto promover a saúde mental quanto atuar na prevenção de transtornos, por exemplo, identificando sinais que demandem encaminhamentos para avaliação de equipe, contribuindo para intervenção precoce". O professor está numa posição ideal e precisa ser capacitado para observar sinais de irritabilidade, oscilações de humor, apatia etc. 

O ato de poder se expressar, por meio da fala ou escrita, e de vivenciar as artes e os espaços culturais favorecem o bem-estar, o sentimento positivo no “existir” e no “pertencer a um grupo” – tão importantes e necessários em qualquer fase da vida, porém especialmente significativos na adolescência.

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Além da postura e de atitudes de cuidado na escuta, outras ações podem ser listadas para promoção de um clima saudável. É papel dos gestores das escolas possibilitarem o desenvolvimento dessas atitudes, desde as formas mais simples, como nos momentos de conversar e de ouvir, na troca de sorrisos, no exercício da comunicação não-violenta e na prática da empatia. Ou as formas mais sistematizadas e planejadas, tais como projetos e ações pontuais com temas transversais e interdisciplinares, viagens e estudos do meio, palestras, aulas diferenciadas, momentos de convivência, meditação e yoga, teatro, oficinas, jogos, campeonatos esportivos (competitivos ou cooperativos), gincanas culturais, entre tantas outras. 

Outros exemplos inspiradores que agregam às práticas escolares são os momentos em que os alunos podem vivenciar a criação e a organização de atividades, tornando-se responsáveis por esses movimentos. Entram aí os grêmios estudantis, tutoria ou monitoria de estudos entre pares, clubes (xadrez, literatura, cinema, tecnologias) e ações comunitárias de voluntariado. 

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Intervenção em situações de risco ao suicídio

Diante das múltiplas possibilidades e experiências vividas com adolescentes e pessoas na escola, atitudes e combinados precisam ser estabelecidos entre os profissionais que atuam nesse local, principalmente, em situações que envolvam o sofrimento psíquico.

A primeira ação é não banalizar a fala da pessoa que expressa algum sofrimento. Isso parece óbvio, mas é bem importante ser ressaltado. Todas as pessoas da escola precisam estar conscientes da importância desse primeiro cuidado. Posteriormente, é necessário ouvir a pessoa em risco ou, se o profissional não se sentir competente para tal tarefa, que ele encaminhe essa conversa para alguém da escola que julgue mais capaz.

O “Manual de Prevenção ao Suicídio de Genebra”, adaptado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o Brasil traz orientações para nortear a prática da atenção primária nesses casos. Esse documento ressalta que o contato inicial com a pessoa que fala em suicídio é muito importante. Quando as pessoas dizem “Eu estou cansado da vida” ou “Não há mais razão para eu viver”, elas precisam ser acolhidas. 

O primeiro passo é achar um lugar adequado para manter uma conversa com tranquilidade e privacidade. O próximo passo é reservar o tempo necessário para essa conversa. Pessoas com ideação suicida normalmente necessitam de mais tempo para deixarem de se achar “um fardo”. É preciso que o profissional da escola esteja preparado mentalmente para dar atenção. O manual afirma que possibilitar esse contato e ouvir é o maior passo para reduzir o nível de desespero suicida.

No “Manual de Prevenção ao Suicídio de Genebra” encontram-se orientações específicas sobre como se comunicar com alguém que tem ideação suicida:

- Ouvir atentamente
- Ficar calmo 
- Entender os sentimentos da pessoa (empatia)
- Dar mensagens não-verbais de aceitação e respeito
- Expressar respeito pelas opiniões e valores da pessoa
- Conversar honestamente e com autenticidade
- Mostrar sua preocupação, cuidado e afeição
- Focalizar nos sentimentos da pessoa 

O manual aponta ainda comportamentos a evitar ao se comunicar com aquele que está com ideação suicida:

- Interromper com frequência
- Ficar chocado ou muito emocionado
- Dizer que está ocupado
- Tratar a pessoa de maneira que o coloca numa posição de inferioridade
- Fazer comentários invasivos e pouco claros
- Fazer perguntas indiscretas

Após ter uma conversa inicial, o profissional da escola precisa pensar em fazer encaminhamentos adequados para profissionais de saúde em ambulatórios especializados, além de relatar a situação para a família e cuidar para que a pessoa em questão não se sinta sozinha. 

Após os encaminhamentos, é importante cuidar do retorno do aluno à escola. Manter um vínculo e postura de apoio é fundamental, assim como encontrá-lo em intervalos regulares e estabelecer combinados que possam aliviar o estresse. O professor pode rever as formas e os períodos de avaliação: propor provas diferenciadas ou com um menor número de questões, ou aplicar provas na residência do estudante ou ainda pedir trabalhos autorais que ele poderá entregar dentro de um prazo.  

 

Martha Maccaferri é psicóloga e pedagoga, com especialização em Intervenções Sistêmicas e Mediação de Conflitos pela PUC. Trabalha como Coordenadora Educacional do Ensino Médio da Escola Móbile, em São Paulo.  

Referências 

Dunker, Christian. Reinvenção da Intimidade - Políticas do Sofrimento Cotidiano. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

Estanislau, M. Gustavo. Bressan Rodrigo A. (organizadores). Sáude Mental na Escola. O que os educadores devem saber. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Prevenção do Suicídio: um manual para profissionais da saúde em atenção primária. Transtornos mentais e comportamentais. Departamento de Saúde Mental. Organização Mundial da Saúde. Genebra, 2000.

Saúde Mental depende de bem-estar física e social, diz a OMS. Nações Unidas Brasil. 10/10/2016. Acesso em: 19 de set. de 2019.

Zygmunt, Bauman. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

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