Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Para que aprendemos a ler e escrever, senão para fazer uso na vida?

Apesar de trazer conceitos e definições sobre Alfabetização, o Caderno da PNA não aponta quais ações podem colaborar na construção de uma Alfabetização de qualidade

POR:
Mara Mansani
Crianças exercitam a escrita em sala de aula em escola de Brasília   Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em agosto, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Caderno da Política Nacional de Alfabetização (PNA), que vem complementar e explicitar o Decreto Presidencial, assinado em abril, que institui a Nova Política de Alfabetização em nosso país.

Sempre procuro acompanhar e estudar tudo o que diz respeito à Alfabetização, seja documentos, novas metodologias, estudos e pesquisas, normas, leis etc – especialmente o que vem do MEC. Afinal, precisamos de direcionamento e de políticas públicas para que a Alfabetização seja prioridade no Brasil.

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Lendo e relendo o caderno da PNA, penso que ainda temos muito que avançar no entendimento e debate na construção de uma Alfabetização de qualidade para todos. Apesar das intenções, ainda não há muita clareza de ações de como avançar nesse sentido.

O caderno traz definições e conceitos sobre a Alfabetização apresentados pelo MEC. “Ao aprender as primeiras regras de correspondência entre grafema-fonema/fonema-grafema, a pessoa começa a decodificar, isto é, a extrair de uma sequência de letras escritas a sua forma fonológica (ou pronúncia), e a codificar, isto é, a combinar em sinais gráficos (letras ou grafemas) os sons produzidos na fala. Em outras palavras, começa a ler e a escrever. O ensino dessas habilidades de leitura e de escrita é que constitui o processo de Alfabetização”. (pág.18 e 19, PNA)

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Segundo o MEC, “a palavra alfabetização é muitas vezes usada de modo impreciso, resultando confusão pedagógica e didática (...)”. Não acredito que seja esse o problema da nossa Alfabetização. A Alfabetização vai muito além de decodificar e codificar. Insere-se nesse processo o uso que se faz da língua, o que o documento chama de Literacia, que é bem próximo do que conhecemos como letramento. Mas a PNA apresenta o processo de Alfabetização separadamente do uso que se faz da língua, como uma continuidade. Muitos especialistas em seus estudos, como Magda Soares, explicitam que são partes que se desenvolvem concomitantemente. Em minha experiência como alfabetizadora, no processo de alfabetização de meus alunos tudo caminha junto. Para que aprendemos a ler e escrever, senão para fazer uso na vida?

Há muitos anos venho alfabetizando a partir do texto, da unidade maior, como diz a BNCC, “Centralidade do texto na alfabetização”. A PNA apresenta o caminho inverso: das unidades menores (letras, silabas e palavras) para a maior, o texto. Acredito que partindo do texto, a Alfabetização faça mais sentido para as crianças, afinal elas convivem com esse mundo letrado antes de lerem e escreverem convencionalmente, antes mesmo de entrarem na escola.

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O documento apresenta como foco principal a questão do método para alfabetizar, apresentando o método fônico como o mais eficaz, tendo como base de ensino seis componentes essenciais para a Alfabetização:

a. Consciência fonêmica
b. Instrução fônica sistemática
c. Fluência em leitura oral
d. Desenvolvimento de vocabulário
e. Compreensão de textos
f. Produção de escrita

O MEC dá a isso o nome de “Alfabetização baseada em evidências”. Esses componentes têm como base os pilares recomendados pelo National Reading Panel (2000/EUA), entre outros documentos.

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Penso que não devemos limitar as possibilidades de alfabetizar nossos alunos. Ao longo desses trinta e dois anos na Alfabetização, eu me apropriei e fiz uso de diferentes metodologias e linhas pedagógicas para alfabetizar, logicamente seguindo uma linha coerente entre elas. Em alguns anos, de acordo com a necessidade de aprendizagem de algum aluno, fiz uso de metodologia diferenciada para alfabetizá-lo.

Para alfabetizar a todos, os professores precisam estar preparados, bem formados, não só na universidade, mas também em serviço, atuando em sala de aula. A PNA não traz de forma explícita as ações nesse sentido.

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No item Implementação do caderno, há pontos importantes, mas se percebe apenas intenções e, por enquanto, não há “um como fazer”.

Veja abaixo alguns dos elementos da Implementação da PNA.

"A implementação da PNA se dará por meio de programas, ações e instrumentos que incluam:

- Orientações curriculares e metas claras e objetivas para a Educação Infantil e para os anos iniciais do ensino fundamental;

- Desenvolvimento de materiais didático-pedagógicos cientificamente fundamentados para a literacia emergente, a alfabetização e a numeracia, e de ações de capacitação de professores para o uso desses materiais na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental;

- Recuperação e remediação para alunos que não tenham sido plenamente alfabetizados nos anos iniciais do ensino fundamental ou que apresentem dificuldades de aprendizagem de leitura, escrita e matemática básica;

- Promoção de práticas de literacia familiar;

- Desenvolvimento de materiais didático-pedagógicos específicos para a alfabetização de jovens e adultos da educação formal e da educação não formal;

- Produção e disseminação de sínteses de evidências científicas e de boas práticas de alfabetização, de literacia e de numeracia;

- Estímulo para que as etapas de formação inicial e continuada de professores da educação infantil e de professores dos anos iniciais do ensino fundamental contemplem o ensino de ciências cognitivas e suas aplicações nos processos de ensino e de aprendizagem;

- Ênfase no ensino de conhecimentos linguísticos e de metodologia de ensino de língua portuguesa e matemática nos currículos de formação de professores da educação infantil e de professores dos anos iniciais do ensino fundamental;

- Promoção de mecanismos de certificação de professores alfabetizadores e de livros e materiais didáticos de alfabetização e de matemática básica;

- Difusão de recursos educacionais, preferencialmente com licenças autorais abertas, para ensino e aprendizagem de leitura, de escrita e de matemática básica;

- Incentivo à formação de gestores educacionais para dar suporte adequado aos professores da educação infantil, aos professores do ensino fundamental e aos alunos;

- Incentivo à elaboração e à validação de instrumentos de avaliação e diagnóstico".

Finalizo minha reflexão sobre a PNA com uma questão que julgo das mais importantes na Alfabetização. Alfabetizar não é colocar um professor na sala e ter um método definido. Alfabetizar envolve formação e conhecimento do professor, valorização desse profissional, materiais que apoiem a aprendizagem em sala de aula, escolas com boas estruturas, a definição do perfil do bom alfabetizador, apoio aos professores, bons gestores, uma base curricular (que já temos), entre tantos outros elementos.

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Realmente espero que possamos avançar nessa construção da Alfabetização de qualidade para todos. Os professores alfabetizadores se preparados e apoiados podem transformar a realidade da Alfabetização em nosso país.

Continuo por aqui com meus estudos, querendo contribuir para a melhoria da Educação dos nossos alunos. E vocês, queridos professores, já conhecem a PNA? Como anda o debate da Alfabetização em sua rede? Qual a sua sugestão para avançarmos? Conte aqui nos comentários!

Um grande abraço a todos e até semana que vem!

 

Mara Mansani

Professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

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