Ana Maria Machado: Eu devo minha carreira de escritora aos professores

Autora relembra carreira de 50 anos e fala sobre o papel da Literatura na Educação

POR:
Paula Peres
Sentada em uma cadeira, no palco do Fórum de Educação, a escritora Ana Maria Machado gesticula e conversa com a plateia
Foto: Divulgação Bienal do Rio/Felipe Panfili

Sentada no palco do auditório do Fórum da Educação, realizado durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Ana Maria Machado relembrou sua carreira de escritora de livros infanto-juvenis, carreira essa que completa 50 anos em 2019. “Foi em 1969 que eu, Ruth Rocha, Joel Rufino, Sonia Robatto começamos a escrever histórias para a revista Recreio (editora Abril)”. A revista foi lançada no ano seguinte, “e aconteceu uma coisa maravilhosa: eu gostei de ser escritora e os leitores gostaram do que eu escrevia”, conta.

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Ana Maria atribui boa parte do seu sucesso aos professores. “A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1972 recomendava leituras extracurriculares. Não havia muito livro infantil naquele tempo, mas a revista saía toda semana. Aí os professores começaram a recomendar a revista ou levar para a sala de aula. Nossa geração, que depois veio a ser chamada de ‘boom da literatura brasileira’ nos anos 1970, deve muito aos professores, que nos perceberam, nos resgataram, souberam nos levar aos leitores”. A ponto de, em 1976, Ana Maria Machado ser convidada para inaugurar uma biblioteca com seu nome em uma escola de Juiz de Fora. “Eu não havia publicado nenhum livro ainda, e os alunos votaram para dar o meu nome à biblioteca, de tanto que me conheciam”.

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Para ela, o segredo da literatura infantil é ser um texto que deve ser curtido também pelos adultos. “Ítalo Calvino, pensador italiano, dizia que a literatura infantil só existe se ela puder ser lida com proveito pelo adulto, que já leu quando criança e vai encontrar nela coisas diferentes. Eu costumo dizer que o adjetivo ‘infantil’, aplicado à literatura, ao contrário daquilo que a gente aprendia em gramática, que o adjetivo tinha uma função restritiva do substantivo, ele não tem, ele é ampliativo. A verdadeira literatura infantil permite que a gente encontre sentidos novos, e isso é uma prova de sua qualidade literária”.

Em entrevista à Nova Escola, Ana Maria Machado reflete sobre o papel da Literatura na escola e dá dicas e sugestões para os professores se aproximarem desse universo e conquistarem seus alunos para os livros. Confira abaixo:

Nova Escola: Você acha que, em 2019, concorrendo com internet, celular, aplicativos, ainda há espaço para o livro na vida das crianças e dos adolescentes?

Ana Maria Machado: Sim, sem dúvida. Antes o livro concorria com quintal, subir em árvore, tomar banho de rio, jogar bola, brincar com os amigos… Hoje, com a tecnologia. Cada coisa tem sua hora. Inclusive o livro. Sou de uma família grande, tenho três filhos, dois netos, 20 sobrinhos, 19 sobrinhos-netos, das mais variadas idades. Todos gostam de livro, mesmo os pequeninos que não sabem ler nem falar e só ouvem histórias ou veem figuras.

Escrever literatura infanto-juvenil hoje é a mesma coisa que há 50 anos? O que muda, e o que se mantém?

Acho que é bem parecido. Mudam as circunstâncias das histórias (cenário, roupa, tecnologia à disposição, comportamento, costumes). Mas não muda o cuidado com a linguagem, com a construção dos personagens, com a estruturação da narrativa, esse tipo de coisa. E não muda o espírito humano. Continuamos às voltas com as mesmas questões: medo, sonhos, ciúmes, angústia, compaixão com quem sofre, solidariedade, vontade de ser livre e não ter de obedecer ao que não faz sentido, desejo de questionar, revolta contra injustiça...

Pesquisas mostram que a média de leitura dos brasileiros é muito baixa: um livro por ano. Por que lemos tão pouco e como quebrar esse ciclo?

Temos um déficit educacional histórico. Nossa sociedade, como um todo, negou durante séculos o acesso da maioria da população à Educação. Só a partir da década de 1990 começamos a ter vagas para todos nas escolas – e com uma qualidade que deixa muito a desejar. Assim, não somos uma sociedade letrada. E só fomos começando a nos alfabetizar maciçamente quando as novas tecnologias audiovisuais exerciam enorme atração, dando a impressão de que poderíamos relegar a segundo plano a palavra escrita. Em consequência, a maioria das famílias não convive ou conviveu com livros – inclusive as famílias da maioria dos professores. As crianças veem poucos adultos lendo a seu redor. E o exemplo faz falta. Crescem achando que livro não importa.

Só ler em sala de aula e pedir que os alunos leiam em casa é suficiente para desenvolver a leitura nas próximas gerações? O que mais está ao alcance do professor que pode ser feito?

Acho que o professor deve procurar ler para seu próprio prazer, descobrir seus gostos leitores, falar com os amigos sobre o que leu, de modo a se sentir mais seguro nesse universo. Há experiências positivas que podem servir de inspiração: de estantes de livros bons, não técnicos, na sala dos professores, de clubes de livros entre eles, de rodas de leitura... Enfim, o professor procurar se desenvolver como leitor, em termos pessoais. Esse me parece o melhor caminho para entrar nesse mundo, se sentir seguro e à vontade. Então vai descobrir como contagiar os outros com seu entusiasmo. Acredito muito na criatividade individual de um professor leitor.

A Base Nacional Comum Curricular é o documento mais importante, hoje, que aponta o que as escolas precisam ensinar. Ela fala sobre o trabalho com as competências socioemocionais, que não estão exatamente nos currículos das disciplinas. Há especialistas que dizem que as emoções podem ser trabalhadas com a Literatura. Você concorda com essa visão? Como isso pode ser feito?

Concordo inteiramente. Estou convencida de que a arte em geral – e a Literatura, arte da palavra, em particular – é um dos caminhos mais poderosos para o ser humano, de qualquer idade, explorar suas possibilidades emocionais. Isso pode ser aproveitado em sala de aula de infinitas maneiras, e o bom professor saberá encontrar a sua, se for leitor.

Que conselhos você dá aos professores que vão escolher os livros para lerem com suas turmas?

Procure ler o livro antes, comparar com outros, estar consciente dos critérios de sua escolha. Leia mais de um livro para escolher, selecione aquele ou aqueles de que mais gosta, reflita para tentar entender a razão dessa preferência. Confie na sua intuição e sua experiência. Quanto mais livros você ler, mais essa experiência se consolida, mais seguro você fica.

E procure se informar antes sobre o autor, a coleção, a editora. Um livro que já foi premiado traz o sinal de que especialistas que conhecem o assunto já o destacaram entre vários outros, deve haver uma razão para isso. A internet ajuda muito. Por exemplo, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) existe há mais de 50 anos e tem especialistas de todo o Brasil premiando e selecionando anualmente os melhores livros, que então recomenda. É uma garantia de qualidade. Veja se o livro que você está considerando está entre eles. Ou se há outro do mesmo autor, ou ilustrador.  Aos poucos, se sentirá mais seguro para defender sua própria escolha com mais firmeza e consciência do que está fazendo.

 

 

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