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Quando um suicídio acontece na escola

Uma tragédia como o suicídio pode acontecer com um aluno ou aluna e impactar toda a comunidade escolar. Saiba mais sobre os efeitos e possíveis ações que podem ser tomadas

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
A forma como a escola age imediatamente após a ocorrência de um suicídio pode minimizar os efeitos negativos dessa perda   Crédito: Shutterstock

O suicídio de uma pessoa costuma deixar muito mais perguntas do que respostas. Por mais que haja sinais de alerta e fatores de risco, morrer dessa maneira é impactante e sentida como uma tragédia por toda a comunidade escolar. A forma como a escola age imediatamente após a ocorrência de um suicídio pode minimizar os efeitos negativos dessa perda e reforçar a ideia de que aquele espaço é, também, uma comunidade de apoio.

Por mais que gestores, professores e demais funcionários também sejam impactados emocionalmente pela ocorrência de um suicídio e não saibam ao certo como agir, é comum que alunos e seus familiares recorram à escola para buscar ajuda e indicações sobre quais caminhos seguir. Por isso, é importante que a escola tenha informações confiáveis sobre como agir em casos de suicídio e tenha planejado ações de posvenção, o termo utilizado para designar atividades, suporte e intervenções para todos aqueles abalados por um suicídio. Tais ações são reconhecidas mundialmente como importantes aliadas nos cuidados com a saúde mental. 

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Quando a escola receber a notícia do suicídio de um aluno, deve primeiramente verificar a veracidade da informação. Em tempos de mídias sociais e comunicação por mensagens, um boato pode rapidamente se espalhar e prejudicar muita gente. Ao confirmar que de fato a morte aconteceu, a escola deve implementar algumas ações para auxiliar toda a comunidade escolar, detalhadas a seguir. 

Ao receber a notícia da morte

Antes de dar a notícia aos alunos, ofereça condolências à família e pergunte o que a escola pode fazer para ajudar nesse momento tão difícil. É importante que a escola permita que a família participe da decisão de como a notícia será dada aos colegas e aos pais e que tenha também informações sobre o funeral. Diretores e coordenadores devem acionar os professores e rapidamente definir como irão agir, alinhando inclusive a fala para minimizar boatos e desconstruir informações falsas, respeitando a memória daquele indivíduo e a sua família. O diretor deve ser o único responsável por se comunicar com a mídia, para evitar os mesmos riscos. Designe um responsável por monitorar como a notícia está repercutindo nas mídias sociais, para que assim ações possam ser tomadas. 

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Auxiliar os alunos a lidar com os seus sentimentos

O ideal é que os alunos sejam organizados em pequenos grupos fora da sala de aula para receber a notícia via direção, coordenação ou professores que se sintam mais à vontade para falar sobre o assunto e lidar com os sentimentos que podem surgir. Caso a escola tenha profissionais de saúde na equipe ou parceria com instituições, deve acionar esse apoio. Nesse momento, vale identificar quem eram os amigos mais próximos e que podem precisar de maior atenção e auxílio emocional. 

Promova rodas de conversa que encorajem a livre expressão dos sentimentos de luto, possibilitando que cada um, à sua maneira, fale sobre o assunto. Há diferentes formas de manifestar emoções, portanto esteja aberto aos que verbalizam tudo o que estão sentindo, aos que não conseguem colocar em palavras e até mesmo aos que usam o humor. Os adultos responsáveis podem ajudar a ampliar as emoções para além de "triste" ou "bravo", pontuando inclusive a existência de sintomas físicos que acompanham as nossas emoções mais difíceis, como insônia, irritabilidade e cansaço.

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Além da livre expressão de sentimentos, podem ser discutidas diferentes estratégias para lidar com a perda e com a tristeza, para que assim, pouco a pouco cada um possa retomar a rotina e elaborar o luto. Encoraje os alunos a pensarem em estratégias de autocuidado que eles podem adotar quando emoções intensas, tais como preocupação ou tristeza, começarem a ser sentidas. Por exemplo: fazer exercícios simples de relaxamento, praticar um hobby, conversar com um amigo, avaliar como lidaram com dificuldades no passado, fazer uma lista com os nomes das pessoas a quem eles podem recorrer em caso de necessidade, conversar com os pais etc…

Rodas de conversa permitem também que os adultos identifiquem aqueles que precisam de mais apoio e que estão mais fragilizados. Alunos que já apresentaram comportamento suicida, têm histórico de depressão, trauma, ou passaram por perda recente também devem estar sob olhar atento dos responsáveis, para que as famílias possam ser acionadas e que eles possam ser encaminhados para acompanhamento com profissionais de saúde, como psicólogos e psiquiatras.  

Minimizar os riscos de contágio

O suicídio também pode ter efeito de contágio, por isso é importante que a morte de qualquer aluno seja tratada da mesma forma e com a mesma sensibilidade, independentemente da causa. O suicídio não deve ser romantizado, simplificado ou glamurizado.

Esclareça que o suicídio não tem uma única causa. Em muitos casos, a pessoa está passando por um transtorno mental e outros acontecimentos em sua vida, levando a um estado de desesperança e sofrimento físico e mental intenso. Passar por um transtorno mental não deve ser motivo de vergonha e há diversas formas de obter ajuda. É importante reforçar que falar sobre suicídio não aumenta as chances de ocorrência. Pelo contrário, é um fator preventivo e que favorece a expressão e a significação de sentimentos. 

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Segundo o Centro de Referências para Prevenção do Suicídio, caso as dificuldades pelas quais a pessoa que cometeu suicídio estava passando venham à tona em uma conversa individual com um amigo, não tenha medo de conversar sobre elas. Isso evita que o suicídio seja visto como uma forma efetiva de cuidar da dor emocional e amplia o sentido individual que teve para aquela pessoa. 

Providenciar formas para auxiliar a elaboração do luto

A escola pode ceder espaço e ferramentas para que os alunos elaborem o luto de diferentes formas. Os alunos podem, por exemplo, relembrar as memórias favoritas que compartilharam com aquele aluno, escrever mensagens em um cartaz localizado em uma área da escola que posteriormente pode ser enviado à família. Permita que alunos e funcionários pensem em formas de manifestar os seus sentimentos, mantendo um olhar atento para o conteúdo e se consultando com profissionais de saúde para avaliar se tais manifestações são seguras para a comunidade escolar. Os alunos podem comparecer ao funeral caso se sintam à vontade. É recomendado que sejam acompanhados pelos pais, para que estejam próximos dos filhos nesse momento delicado. 

De fato, não é fácil falar sobre suicídio. É ainda mais delicado abordar esse assunto após a ocorrência de um caso na escola. Entretanto, falar sobre suicídio é falar sobre sentimentos como dor, saudades, insegurança, medo e, em última instância, unir-se para enfrentar tudo isso e criar a oportunidade de encontrar outras formas de transformar aquilo que está em nós. 

 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha com projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

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