Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

  

Ser professor é para quem tem pior desempenho no Ensino Médio: sim ou não?

Relatório afirma que “baixo nível cognitivo e de conhecimentos dos professores” é “ponto nevrálgico” do setor

POR:
Flavia Nogueira
Lápis laranja quebrado com números e equações escritos ao fundo
Foto: Getty Images

“O ponto nevrálgico da Educação brasileira situa-se no baixo nível cognitivo e de conhecimentos dos professores a respeito dos conteúdos que ensinam.”

Essa foi uma das muitas constatações do relatório “Para Desatar os Nós da Educação – uma nova agenda”, produzido por João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto.

O relatório, lançado nesta terça-feira (10/09) pelo Insper e o instituto, faz uma proposta de diagnóstico da Educação Brasileira e apresenta perspectivas para o setor. E, entre as várias questões abordadas, o relatório afirma que o nível cognitivo das pessoas que são atraídas para o magistério é “o fator mais importante”.

“Este é o desafio maior da Educação brasileira. (...) Até que o Brasil se debruce de maneira adequada sobre como atrair e reter pessoas de alto nível no magistério dificilmente outras medidas – inclusive de certificação de professores - poderão contribuir para melhorar a Educação de maneira significativa.”

LEIA MAIS  Os professores do amanhã

João Batista Oliveira reiterou que a questão da qualificação dos professores é “a mais séria de todas” e destacou em seu relatório que “a nota média do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando do ingresso às universidades, dos professores formados em 2017 nas áreas de Pedagogia e licenciatura foi de 480 e 530 pontos, respectivamente”.

Gráfico elaborado pelo Instituto Alfa e Beto mostra a pontuação de professores formados em 2017 no Enem

O autor do documento afirma que essa nota baixa no Enem é para “sentar na calçada e chorar”.

“O que significam 500 pontos no Enem? Significa que sabe muito pouco. A média do Enem é 500 e poucos (pontos), ele (o que entrou em Pedagogia e licenciatura) está perto da média. Os melhorzinhos chegam perto da média de quem vai fazer economia, que não é o grupo mais brilhante do país. Não é ruim, mas não é brilhante. Ninguém entra em uma USP ou em uma federal boa com menos de 700 pontos no Enem”, explica.

O presidente do Instituto Alfa e Beto afirma que esta é uma situação que ocorre há muitos anos, “décadas, não é culpa de nenhum ministro, é o país”.

“O país criou uma cultura de aceleração muito rápida da expansão das matrículas com o recurso relativamente reduzido que tinha, e isso acabou sinalizando equivocadamente que a profissão do magistério é para quem tem o pior desempenho acadêmico no Ensino Médio”, diz.

“Se nós não resolvermos isso, não mudarmos esse perfil, não trouxermos gente que realmente tem talento, tem esforço, tem estudo, foi bom aluno e gosta de estudar, a escola não vai mudar. Essa é a grande inquietação, o grande desafio. Nós atacamos vários outros problemas, mas não atacamos o principal.”

O relatório foi lançado em São Paulo com um debate no qual participaram, entre outros, Eduardo Mufarej, empresário e fundador do RenovaBR.

“A realidade é que hoje nós temos um professor cada vez mais mal formado, que precisa de apoio em sala de aula. Se não trouxermos essas condições de apoio mínimo para esse professor em sala de aula, a experiência do aluno vai ser cada vez pior. E o que temos que privilegiar é a experiência do aluno”, afirmou.

LEIA MAIS  Base Nacional Docente: veja o que muda na formação e carreira

Em dezembro do ano passado NOVA ESCOLA abordou o assunto das propostas de revisão das diretrizes de formação dos cursos de Pedagogia e licenciaturas, a Base Nacional Comum de Formação Docente. Entre as diretrizes que o documento trazia para professores, estava a adequação de normas, currículos de cursos de graduação e outros programas de formação docente inicial e continuada para atender às novas demandas trazidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 

Nota mínima

Além de Mufarej, também participou do debate o ex-ministro da Educação e professor de ciências políticas Fernando Haddad, que lembrou de uma proposta de mudança na Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional (LDB), quando ainda era ministro e que, segundo ele, foi aprovada quando já não estava mais no cargo.

“Ela fixava uma nota mínima do Enem para ingresso nos cursos de Licenciatura, incluindo Pedagogia. E ninguém tira do papel esse negócio. Qual era o medo das pessoas? ‘Se eu fixar nota mínima no Enem, eu não vou ter professor’. Você não vai ter professor se não tomar outras providências”, diz.

Ao analisar o relatório, Haddad afirmou que o economista (tomado como exemplo de comparação no gráfico relativo à nota no Enem) “não é mais inteligente que o professor. É que você está fazendo a seleção errada. Tem todo um conjunto de mudanças que precisam ser feitas”.

Para o ex-ministro, é preciso também fazer uma mudança no ingresso na carreira de docente, pois em sua opinião, “não se muda os cursos de licenciatura no país se o ingresso na carreira continuar sendo feito por esses concursos que, perdoem a palavra, são muito mal feitos”.

“O que se cobra nos concursos para ingresso na carreira docente é toda essa parafernália de leis que temos, a legislação do município... O que interessa se o professor sabe isso ou não? Eu quero saber se o professor sabe ensinar História! Ele sabe a LDB de cor... mas não sabe dar uma aula de Matemática, ensinar uma fração.”

 

Tags

Guias

Tags

Guias