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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Por que usar e criar dicionários ajuda na Alfabetização

Aproveite a curiosidade das crianças e use essa ferramenta antes mesmo do que determina a BNCC

POR:
Mara Mansani
A professora alfabetizadora e articulista da Nova Escola, Mara Mansani, segura um exemplar do dicionário Aurélio em mãos, tendo à frente uma mesa com livros, em uma sala de aula
Foto: Mariana Pekin

Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o uso dos dicionários está previsto, de forma sistematizada, no 3º ano do Ensino Fundamental 1, na prática de linguagem, no chamado processo de ortografização. Mas isso não quer dizer que não possa ser usado logo nos primeiros anos da alfabetização, mas não diretamente nas questões que envolvem a ortografia, afinal as crianças nessa etapa ainda estão construindo suas hipóteses em relação a escrita alfabética. 

Os dicionários exercem fascínio nas crianças pelas possibilidades de descobertas, pela curiosidade que desperta entre outras coisas. Quem, quando criança, não procurou uma “palavra proibida” no dicionário, não é mesmo?

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Em sala de aula, o uso dos dicionários pode render boas práticas e muita aprendizagem aos nossos alunos. Essas práticas podem explorar a pesquisa e leitura de verbetes, para descobrir o significado e ou curiosidades sobre as palavras,  o uso dos dicionários como apoio e referencial no entendimento de textos, principalmente os informativos científicos, e também, de forma inovadora na produção autoral das crianças quando a proposta é que eles criem e escrevam seus próprios verbetes. 

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Veja algumas sugestões de práticas de uso dos dicionários na alfabetização:

  • Leitura e ordem alfabética: ler uma lista de palavras do mesmo campo semântico (ex. nomes de brinquedos), organizá-la em ordem alfabética, procurar os verbetes correspondentes no dicionário, seguindo essa ordem, montar um pequeno painel com os verbetes, com a mesma organização, para exposição em sala de aula. Oriente seus alunos no manuseio dos dicionários. 
  • Leitura de texto: ler um texto ou trecho dele, fábulas por exemplo, preencher suas lacunas com palavras a partir de um banco de verbetes, que correspondam e deem sentido a leitura.
  • Fazer a leitura compartilhada de texto informativo, coletivamente destacando as palavras que a turma ainda não conhece o significado: em duplas procurar no dicionário o significado das palavras destacadas. Socializar as descobertas com a turma. Reler o texto, também de forma compartilhada. 
  • Brincadeira de perguntas e respostas: sim ou não. Por exemplo: Você é pessoa autóctone? Sim ou não? Depois da resposta, as crianças devem procurar o significado da palavra no dicionário. Além de aprenderem o que significa a palavra, a atividade proporciona boas risadas. Faça uma boa seleção de palavras desconhecidas pelas crianças para criar as perguntas. Tome cuidado para não criar situações vexatórias, que possam criar algum constrangimento para os pequenos, do tipo “e você, ainda não sabe o que é autóctone?”. 
  • Monte com a turma um banco de palavras: ele pode ficar exposto em um painel em sala de aula, com as novas palavras descobertas pela turma, na leitura de texto com o uso do dicionário. 
  • Crianças que já escrevam alfabeticamente, podem usar o dicionário para validar a escrita de suas palavras, não necessariamente na questão ortográfica, mas para que já entendam que há uma convenção estabelecida na língua escrita, no nosso caso a Língua Portuguesa. 
  • Se a escola tiver acesso a dicionários de Etimologia, que tragam a origem das palavras, você pode propor atividades de escrita e leitura com apoio do dicionário, envolvendo as palavras que fazem parte da nossa Língua Portuguesa, mas que são oriundas de outros países e ou culturas. 
  • Produção escrita de verbetes: Você pode propor aos alunos um projeto de produção de um dicionário com verbetes criados pela própria turma. Pode ser um dicionário com temas de interesse das crianças, ou a partir da necessidade de explorar um tema de estudo, por exemplo. O professor da Colômbia, Javier Naranjo, criou com seus alunos o dicionário, “Casa das Estrelas – o Universo Contado Pelas Crianças”, com mais de 130 palavras e seus diferentes verbetes. O dicionário expõe a visão das crianças, suas ideias e percepções sobre o Mundo, falando de objetos, sentimentos etc. Os verbetes são realmente surpreendentes. Javier levou anos compilando esses verbetes em diferentes turmas de alunos e, em 1999, lançou o dicionário que já teve outras edições. Veja a beleza de um dos verbetes elaborado pelas crianças, para a palavra pai: “PAI – é uma pessoa muito especial porque tinha a gente no coração quando a gente estava na barriga"

Imagine você produzir com seus alunos um dicionário assim! Dá para desenvolver várias habilidades de escrita e leitura do processo de alfabetização, fazendo as intervenções para que avancem na aprendizagem, sem contar que podemos entender melhor o que pensam nossos alunos, exercitar a empatia e muito mais. Eles podem produzir um dicionário sobre animais, alimentos, sentimentos etc. Não há limites para a criatividade e aprendizagem da leitura e escrita.

Até mesmo José Pacheco, fundador da inovadora Escola da Ponte, em Portugal, se aventurou na produção de um dicionário. Mas o dicionário criado por ele é voltado para todos que se interessam e trabalham com Educação. Ele criou, em 2012, o “Dicionário de Valores”, que traz conceitos sobre a Educação, o processo de ensino e aprendizagem.

Acesse aqui o Dicionário Valores, edição da editora SM, disponibilizado pelo Porvir.

Espero que vocês, queridos alfabetizadores, aproveitem e se apropriem dessas práticas. Até o final do ano há tempo suficiente para desenvolver o projeto de um dicionário autoral. Se vocês já fazem, contem aqui nos comentários, se vão fazer contem aqui também como será a sua proposta e, quando terminarem, compartilhem aqui no Blog a experiência para que outros professores aprendam com você.

Um grande abraço,

Mara Mansani

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