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A Finlândia e a Base Nacional não servem para nada, diz José Pacheco

Para o educador, as turmas precisam acabar o quanto antes e a Educação precisa se voltar para as relações aliadas à tecnologia digital

POR:
Paula Peres
O educador José Pacheco durante palestra na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro
Foto:   Divulgação Bienal do Rio / Felipe Panfili

“Uma menina chega, e eu pergunto ‘o que queres fazer?’ ‘Nada.’ ‘O que queres saber?’ ‘Nada. Você não é meu pai, não pode me obrigar, deixe-me ir embora’. ‘O que queres ser?’ Não é quando for grande, o que queres ser agora. Perguntar quando for grande é um insulto para uma criança. Ela é, não vai ser. E ela disse ‘Eu quero ser rapper’. Fiz um projeto de vida com ela. Um currículo de subjetividade onde ela aprendeu tudo o que está na Base. E aos 13 anos foi abrir os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro ao lado da Karol Conká: Mc Soffia”.

O breve relato foi dado por José Pacheco no Fórum da Educação, programação integrante da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, entre os dias 2 e 3 de setembro. As histórias de Mc Soffia e José Pacheco se cruzaram no Projeto Âncora, escola onde a adolescente estudou, e onde José Pacheco trabalhou e considera, atualmente, a melhor escola do Brasil.

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O educador costuma dizer que “há muitas Finlândias no Brasil”. Ou seja, escolas, comunidades de aprendizagem de excelência, que colocam o aluno no centro do processo de ensino e aprendizagem. Mas até isso, segundo ele, está ultrapassado. “A Finlândia não serve para nada. Fez coisas ótimas, deu autonomia às escolas, acabou com provas, exames, acabou com avaliação externa, mas continua a haver aula, turmas, séries”.

O Projeto Âncora não tem turmas, séries nem aulas planejadas. Quem conduz o ritmo de aprendizagem e os projetos a serem desenvolvidos são os alunos, facilitados por seus tutores (os professores). Tudo o que José Pacheco acredita. 

Novas possibilidades

O educador que ajudou a criar a Escola da Ponte, referência de Educação construtivista em Portugal e no mundo, acredita que inovar em Educação é estar constantemente aberto a novas possibilidades, sem a chance de cristalizar. “Me perguntaram se eu estava aposentado, e o que eu estava a fazer. Eu respondi que estava a ajudar brasileiros a fixar novas construções sociais de aprendizagem. E me perguntaram ‘E quando você conseguir fazer esse projeto, vai deixar de fazer projetos?’, eu respondi ‘Não. Já dizia Paulo Freire: nós estamos incompletos. Então eu vou fazer outro projeto depois’. ‘E que projeto será esse?’ Eu respondi ‘Certamente será um projeto para acabar com as comunidades de aprendizagem, que deve vir outra coisa melhor depois’.

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Em 2019, José Pacheco acredita que, enquanto ainda há “escolas do século 19”, com turmas, séries e o professor no centro da aula, as pessoas estão batalhando para implementar a “Educação do século 20”, que coloca o aluno no centro da aprendizagem, mas o novo paradigma da Educação não é nenhum desses dois. “Nós estamos no paradigma da Comunicação, o centro é a relação, é o vínculo, a aprendizagem significativa”, provoca.

Segundo ele, o que vemos em sala de aula hoje são paliativos que usam a palavra “inovação” para inserir a tecnologia no modelo tradicional de aula, quando isso deveria ser rompido. “O problema é exatamente colocar computadores, ou lousa digital, por exemplo, em uma sala de aula. Não serve para nada. Saiu há pouco um estudo na Inglaterra que mostrou que 20 anos de lousa digital não mudou nada. PowerPoint, a mesma coisa. Saiu agora outro estudo, não serve para nada. Por que nós estamos a fazer paliativos do mesmo modelo?”

Então, como mudar o modelo na prática? “As tecnologias digitais da informação e da comunicação fazem sentido na Educação 4.0, 5.0. É na relação, é na comunicação, não é centrado no professor em sala de aula, nem no aluno. O protagonismo juvenil tem que ser desenvolvido, mas com os outros. Eu existo porque tu existes”. 

BNCC

Sobrou até para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “A Base Nacional que está aí é ilegal, não serve para nada. Tem uma introdução que é maravilhosa, fala de competências do século 21, desenvolvimento socioemocional, fala de habilidades, fala de Educação integral. Mas é só a introdução, porque a prática, a base, é o contrário da introdução”, disse José Pacheco.

Para ele, o problema está na imposição dos conteúdos que devem ser ensinados e no modelo tradicional de organização dessa aprendizagem. “Se eu quiser saber o que é raiz quadrada, eu coloco no Google, em 5 minutos ele me ensina. Porque eu quero saber, é significativo, faz sentido, eu preciso. Toda aprendizagem parte da necessidade, do problema, e não do professor, nem de uma Base Curricular que é currículo imposto e prescrito”.

O educador dá um exemplo: “Uma menina fica preocupada ao ler um artigo de uma revista norte-americana, uma menina de 9 anos que dominava perfeitamente o inglês. Estou a falar do Projeto Âncora, no Brasil. Ela interessa-se pelo artigo e pede para a tutora ajudá-la a fazer um projeto para ver se é possível vida humana em outros planetas. Porque é isso que a NASA está a fazer. A procurar planetas onde seja possível o ser humano viver quando a Terra já não tiver solução para a nossa existência. Então a criança de 9 anos fez um trabalho duplo. Primeiro, perceber se é possível evitar a catástrofe. O buraco de ozônio está a aumentar, a Amazônia está a ser destruída, a água do mar está subindo. Ela fez esse estudo de sustentabilidade da vida humana na Terra, mas simultaneamente a essa dimensão do currículo, ela foi estudar a possibilidade de vida em outros planetas. Essa menina fez 13 anos, e há 6 meses, foi convidada pela NASA e foi para Washington com o seu projeto, e neste momento está numa nave espacial norte-americana à volta da Terra. Isso é o paradigma da Comunicação, a Educação 5.0, um currículo significativo”.

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