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O que o autoconhecimento tem a ver com a solidão?

Conhecer melhor nosso íntimo pode favorecer relacionamentos mais saudáveis, contribuindo para o bem-estar

POR:
Laís Barros Martins
Crédito: Getty Images

São cada vez mais comuns os relatos de professores que têm se sentido sozinhos, sem espaços para troca e diálogo no ambiente profissional, o que pode afetar sua saúde emocional, minar a capacidade criativa para desenvolver aulas e projetos, e ampliar as possibilidades de Burnout e depressão.

Saber identificar padrões de pensamento e de comportamento envolve a capacidade de se posicionar diante de questões do dia a dia e tomar decisões mais acertadas, mas também pode ajudar a reduzir a sensação de isolamento, combatendo a solidão e nutrindo a saúde mental. O autoconhecimento tem sido encarado como uma etapa da evolução individual e humana ao simplificar esses processos e trazer clareza sobre os nosso hábitos mais enraizados.

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Para entender quais são os principais influenciadores do pensamento e da ação, é necessário observar atentamente o fluxo interno das emoções e das reações mais comuns que elas provocam. O que isso significa? Significa estar sempre consciente do que um acontecimento causa em você. Tristeza, raiva, felicidade? A partir desse sentimento, quais são as reações em seu comportamento e em seu psicológico? Sessões de terapia, meditação e até exercícios físicos são importantes aliados para obter essas respostas.

À medida em que nos tornamos capazes de identificar nossos sentimentos e nossas ações, passamos a olhar de maneira mais generosa para nós mesmos, aumentando progressivamente as chances de gostarmos de quem nós somos. Ao promover essa investigação profunda sobre nós mesmos, vamos aprendendo a ouvir a própria voz e a respeitar o que vem à tona, valorizando as conquistas mas também aceitando os aspectos menos louváveis do nosso ser.

Com o tempo, vamos nos acostumando com a nossa própria companhia, e encontrar-se sozinho deixa de assustar tanto. Pessoas com dificuldade de se admirar, reconhecer as próprias qualidades, perceber seu valor e, sobretudo, se respeitar tendem a ter menos recursos para lidar com a solidão, e a simples ameaça de ficar sozinho já traz sofrimento.

 

Você não está sozinho

Embora centrado no indivíduo, o processo do autoconhecimento tem também um lado social. Isso porque, ao entendermos melhor nosso funcionamento particular, podemos direcionar algumas das nossas características para construir relações mais equilibradas, inclusive no trabalho.

O livro Pílulas de bem-estar, Daniel Martins de Barros, reúne dicas simples, baseadas em evidências científicas, para melhorar nossa qualidade de vida. Entre outros assuntos, o psiquiatra destaca como estimular atitudes mentais e comportamentos para ter relacionamentos mais significativos, já que a interação com o outro seria um dos pilares para viver melhor, e também propõe o exercício de anotar pequenas percepções de coisas boas que acontecem ao longo do dia, para avaliar a evolução do nosso bem-estar. “O melhor é ajudar as pessoas a mudar o foco, fazendo-as ver um pouco mais o lado bom das coisas”, escreve Daniel sobre a técnica do “diário da gratidão”.

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Manter o foco em forças e virtudes para buscar o melhor de si é o que propõe a Psicologia Positiva. O pesquisador Martin Seligman destaca que a capacidade de adaptação, ou seja, reparar alguns aspectos negativos e torná-los características positivas, pode trazer transformações pessoais e sociais importantes.

Na mesma linha, a teoria de Aaron Beck sobre distorções cognitivas evidencia a habilidade de ressignificar a memória que estrutura as emoções que vivemos, pois trechos ou capítulos inteiros dessa história estão sujeitos a reedições ao longo do tempo, podendo não corresponder mais ao roteiro original.

Veja, abaixo, quais são os tipos de pensamentos mais recorrentes aos quais todos estamos sujeitos, de acordo com a teoria de distorções cognitivas (eles podem estar ocupando a sua mente de maneira excessiva e desnecessária neste momento, inclusive):

Catastrofização
Pensar que o pior de uma situação irá acontecer, sem levar em consideração a possibilidade de outros desfechos.
Se eu não conseguir controlar essa turma significa que sou a pior professora do mundo e certamente serei demitida no final do ano.

Raciocínio emocional (emocionalização)
Presumir que sentimentos são fatos. Presumir que algo é verdadeiro porque tem uma emoção (na verdade, um pensamento) forte a respeito.
Sinto que meus alunos não gostam de mim, então isso é um fato.

Polarização (tudo ou nada)
Ver a situação em apenas duas categorias ou termos absolutos. 
Deu tudo errado na minha aula hoje.

Abstração seletiva (visão de túnel)
Um aspecto de uma situação complexa é o foco de atenção, enquanto outros aspectos relevantes da situação são ignorados.
Os alunos não estão tirando mais que 4,5 nas minhas provas.

Leitura mental
Presumir, sem evidências, que sabe o que os outros estão pensando, desconsiderando outras hipóteses possíveis.
Os outros professores e os pais dos alunos acham que eu não sei dar aula.

Rotulação
Colocar um rótulo global e rígido em si mesmo, em uma pessoa ou em uma situação ao invés de rotular a situação ou comportamento específico. 
A minha coordenadora é ausente.

Minimização ou maximização
Características e experiências positivas em si mesmo, no outro ou nas situações são minimizadas, enquanto o negativo é magnificado.
Eu consegui esse emprego, mas era fácil.

Imperativos ("deveria" e "tenho que")
Interpretar eventos em termos de como as coisas deveriam ser, ao invés de focar em como as coisas são. Demandas feitas a si mesmo, aos outros e ao mundo.
Sou formada há 3 anos e já deveria saber fazer isso.

Aonde queremos chegar com essa conversa?

Ao propor uma reconexão consigo mesmo e com a comunidade à sua volta, você terá instrumentos para elaborar os problemas que te afligem - usando o “diário da gratidão”, por exemplo - e, junto dos colegas do corpo docente e demais profissionais da escola, enfrentar os desafios do dia a dia, encontrando soluções mais eficientes, além de sentir que há espaço para compartilhar angústias e dificuldades.

Depois de identificar seus pensamentos mais comuns e entender que é possível alterar esses padrões, você pode anotá-los para seu controle individual e compartilhar essa experiência em sua escola, se encontrar espaço. Isso pode contribuir com a saúde mental de cada um, aumentar o senso de comunidade e reduzir o isolamento. Você verá que não é o único que tem esses pensamentos.

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