Inclusão: “A teoria nem sempre dá conta”

Monaliza Haddad, pedagoga e professora de Educação especial, compartilha um panorama dos desafios da inclusão a partir de entrevistas com pais e professores

POR:
Laís Semis
Três alunas, uma de inclusão ao centro, se abraçam e olham para a câmera sorrindo em uma sala de aula
Foto: Getty Images

Quando a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) foi criada, na década de 1960, o entendimento era de que os estudantes com deficiência deveriam frequentar escolas especiais. Ao longo das décadas, esse conceito foi mudando até que com o decreto nº 3.298, de 1999, ficou determinado que a escolarização desses estudantes deveria ser feita em escolas regulares. 

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A mudança na legislação garantiu o acesso à Educação Básica. Hoje, no Brasil, mais de 827 mil crianças com deficiência estão matriculadas na escola, de acordo com dados do Censo Escolar. Mas o acesso é só o começo do desafio da inclusão. “Muitos [dos entrevistados para o livro] falam da falta de recursos, da falta do professor de apoio e salas superlotadas”, conta Monaliza Haddad, autora do recém-publicado “Inclusão Escolar – Desafios e Superações". O livro surgiu após seus estudos no doutorado da Universidade de Évora, em Portugal, pesquisando sobre a Síndrome do X Frágil. “Depois da minha pesquisa, muitas famílias começaram a me procurar para fazer perguntas sobre inclusão. Achei que poderia contribuir sobre o tema para além da Síndrome”. 

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A pedagoga e professora de Educação especial em Araucária (PR) se debruçou sobre as experiências de Portugal e do Brasil para explorar o atual cenário da inclusão escolar. O livro é baseado em entrevistas feitas com 20 pais e 20 professores – 10 de cada um dos países. Confira abaixo a entrevista que a autora concedeu à NOVA ESCOLA:

NOVA ESCOLA Como você avalia a inclusão nas escolas públicas brasileiras?

MONALIZA HADDAD O nosso país é muito amplo. Por isso, muitas vezes, o que se tem em um estado, não se tem em outro em relação à inclusão, embora a legislação seja única. Mas eu acho que é uma discussão que não para de avançar. Estamos sempre buscando cada vez mais entender as questões relacionadas ao tema e aprimorar o trabalho com inclusão.

Qual é o maior desafio hoje para quem é aluno com deficiência no Brasil? 

O recurso. A falta de recurso envolve diversas situações, desde os recursos físicos, como materiais e ambientes adaptados até recursos humanos, aquele profissional de apoio que precisa estar na sala de aula com o professor regente, mas não chegou ainda, ou mesmo terapias de apoio, que muitas vezes não são oferecidas gratuitamente e os pais precisam pagar para ter acesso. 

Você conversou com pais e professores para construir seu livro. Como os pais e responsáveis se sentem em relação ao trabalho que é feito de inclusão nas escolas?

Desafios e superações aparecem de forma dialética. Para alguns pais, o que aparece como um desafio, aparece como superação para outros. Mas muitos pais apontam como pontos fracos justamente essa falta de recursos, falta de terapias e professores de apoio para auxiliar no desenvolvimento pedagógico, a necessidade de um olhar diferenciado no trabalho do professor, e sentem muito as salas superlotadas como um desafio. Mas eles também destacam pontos fortes como a questão da socialização, dos filhos serem aceitos e integrados em grupos. Uma fala que me chamou muita atenção foi de uma mãe que, quando questionada sobre qual o critério que ela tinha usado para escolher uma escola para o filho, ela respondeu de peito aberto: “qualquer escola que estiver aberta a trabalhar a inclusão do meu filho sabendo que ele é uma criança com necessidades educativas especiais”. Quando a escola está aberta a aceitar a inclusão e existe um envolvimento de todos na escola, as práticas são muito mais significativas. 

E para quem é educador em uma turma com alunos de inclusão?

Conhecer bem o aluno, conseguir enxergar suas potencialidades e traçar um plano de trabalho. Quando eles conseguem potencializar o que as crianças já sabem para, a partir deles, desenvolver novos conhecimentos, há um ganho. Os professores também apontaram nas entrevistas que os recursos e a falta de conhecimento sobre inclusão são questões que eles enfrentam no dia a dia. Se eles não tiverem acesso à uma formação continuada, não tem como trabalhar de forma diferenciada com esse aluno da inclusão. 

Para algumas crianças a aquisição da leitura e da escrita, da linguagem verbal, pode ser mais difícil. Entra aí também a questão do diagnóstico, que muitas crianças não possuem. Não é que a escola não vá trabalhar com a criança enquanto ela não tiver um diagnóstico, mas tendo o diagnóstico, já se tem um caminho mais definido a ser seguido.

Quando olhamos para os dois grupos – pais e professores – o maior desafio que é sentido é a questão comportamental. Porque, muitas vezes, essa alteração de comportamento da criança incluída gera instabilidade até para outros alunos quando o comportamento não é de acordo para aquele momento. Mas tê-las na turma leva à humanização. Na sala em que há uma criança incluída, os outros alunos são muito mais afetivos, muito mais humanos. Eles estão sempre se preocupando muito com a criança incluída e sabem que ela precisa dessa ajuda em relação ao cotidiano escolar. 

Como você avalia a formação dos professores hoje para trabalhar com inclusão? 

Eles têm um pouco sobre o tema na formação inicial, mas essa formação é superficial. Como alguns trabalham com isso, investem na formação continuada. Porém, os casos de inclusão são quase tão individuais, mesmo entre crianças que possuem o mesmo diagnóstico, que os comportamentos e conhecimentos são diferentes, bem como as devidas intervenções têm características diferentes. Devido a essa abrangência do que o professor vivencia na sala de aula, a teoria nem sempre dá conta. Por isso, os professores, embora tenham formação continuada, ainda sentem que a formação que eles têm sobre inclusão não é suficiente. Acaba ficando essa busca de sempre buscar um pouquinho mais de formação. Daí a importância de conhecer o seu aluno e valorizar o que essa criança já sabe para, a partir de então, começar um trabalho para que ela possa avançar mais. 

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