Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Olhe Além | Aprendizagem criativa


Por: Pedro Annunciato

Leo Burd: “Sem criatividade não vamos sair da crise”

O fundador da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa acredita que a escola tem hoje uma oportunidade privilegiada de mudar para ser melhor e mais significativa para os alunos

Crédito: Tuane Fernandes/NOVA ESCOLA

A carreira do brasileiro Leo Burd, 48 anos, percorreu caminhos nada óbvios. Formado em Ciência da Computação pela Unicamp, Burd trabalhou em telecomunicações, mas não estava feliz: foi a Educação que preencheu esse vazio. Há 20 anos, ele vive nos Estados Unidos mergulhado no desenvolvimento da aprendizagem criativa, que busca maneiras de tornar a escola mais significativa. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dirige o Programa Lemann de Aprendizagem Criativa, ligado à Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA, e participou da criação de iniciativas de alcance carreira do brasileiro Leo Burd, 48 anos, percorreu caminhos nada óbvios. Formado em Ciência da Computação pela Unicamp, Burd trabalhou em telecomunicações, mas não estava feliz: foi a Educação que preencheu esse vazio. Há 20 anos, ele vive nos Estados Unidos mergulhado no desenvolvimento da aprendizagem criativa, que busca maneiras de tornar a escola mais significativa. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dirige o Programa Lemann de Aprendizagem Criativa, ligado à Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA, e participou da criação de iniciativas de alcance 

NOVA ESCOLA Ao fundar a Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa, em 2006, você disse que havia no Brasil diversas iniciativas interessantes, porém isoladas. Esse quadro mudou? 
LEO BURD Acho que essa hipótese foi comprovada. Partimos da ideia de que no Brasil já havia coisas interessantes de aprendizagem criativa, mas que não eram reconhecidas. A rede começou a identificar essas iniciativas, reuni- -las e, juntamente com esse pessoal todo, estamos encontrando soluções mais orgânicas que partem da realidade brasileira, e isso tem ajudado a rede a crescer. 

NE No que a aprendizagem criativa se difere da tradicional? 
LB A definição é aberta, mas costumo dizer que ela consiste em metodologias ou abordagens educacionais que incentivam a participação, a criatividade, a colaboração, o trabalho mão na massa e a exploração livre. No MIT, o conceito gira ao redor do que chamamos de “os 4 Ps da aprendizagem criativa”. O primeiro “P” é de “Projetos”: as pessoas aprendem mais quando se envolvem na criação de um produto compartilhável, que pode ser um poema ou um carrinho de madeira. Por outro lado, esses produtos precisam ser pessoalmente significativos, e é daí que vem o segundo “P”, de “Paixão”. O terceiro “P” é o de “Pares”: para que os alunos se sintam livres e capazes, é fundamental criar um ambiente de respeito que incentive a colaboração. E, por fim, o quarto “P” é de “Play”, ou de “pensar brincando”: os alunos devem explorar os materiais e as ideias de maneira mais livre, sem “certo” e “errado”. 

NE Comparando com os EUA, o Brasil está aquém no uso da tecnologia em sala de aula? 
LB Os Estados Unidos também são um país diverso, onde o sul é bem mais carente do que o norte, o nordeste e a região da costa oeste, onde as escolas públicas parecem as particulares do Brasil. No entanto, elas ainda têm um ensino tradicional. Vemos muita infraestrutura, mas as metodologias e os problemas são parecidos com os nossos: falta de engajamento dos alunos, desconexão com o mundo, questões de gênero, religião. A maior diferença é que o Brasil, além dessas questões, tem A indústria já percebeu que os profissionais não estão adequados às necessidades atuais, que exige pessoas criativas, capazes de colaborar, expressar ideias e ter empatia. A sociedade percebeu que temos um cenário com menos participação cidadã nas decisões. Além disso, agora há uma base curricular nacional que abre uma nova oportunidade de repensar o que vem sendo feito. Agora, se vamos conseguir aproveitar essas oportunidades é outra história

NE A aprendizagem criativa ainda é muito associada à Ciência. Como ela pode ajudar em outras disciplinas? 
LB A proposta da aprendizagem criativa é integrar tudo, das habilidades socioemocionais aos conteúdos específicos de cada disciplina. Não é algo confinado na aula de arte ou no espaço maker. Criatividade é uma forma de ver o mundo. Na aprendizagem criativa, parte-se da curiosidade dos alunos, levantando uma série de perguntas para as quais se buscarão respostas. A questão é como criar ambientes que permitam às crianças explorarem aspectos das suas vidas de uma maneira inquisitiva e curiosa. 

Crédito: Tuane Fernandes/NOVA ESCOLA

NE Poucas escolas aplicam princípios como esse. Como a aprendizagem criativa pode ganhar escala? 
LB Não adianta falar “a partir de amanhã você vai trabalhar assim e ponto”. Procuramos criar oportunidades para que os professores tenham contato com a aprendizagem criativa, a experimentem e, caso eles se identifiquem com a proposta, damos apoio para que levem essas práticas aos seus alunos. Sempre falavam, logo no início da formação da rede, que a melhor forma de “convencer” o professor é mostrar o trabalho de outro professor. 

NE A formação docente tem acompanhado esse movimento? 
LB Ainda está muito distante. A universidade, principalmente, ainda está longe desse tipo de metodologia. Fala-se muito do assunto, mas existem poucas oportunidades para que os futuros professores pratiquem. A boa notícia é que há um interesse cada vez maior na academia pela aprendizagem criativa. 

NE Como se pode desenvolver aprendizagem criativa em escolas com pouca infraestrutura? 
LB Há exemplos na rede que mostram que é possível implementar essa abordagem nos ambientes mais diversos possíveis. Há projetos que usam computador, outros o teatro de rua, sem nada. Procuramos desmitificar a história de que a tecnologia ou a infraestrutura cara são necessárias. 

NE A dificuldade que as escolas têm para acessar a internet, por exemplo, não é um empecilho? 
LB A tecnologia pode contribuir, mas não se pode depender disso. Às vezes, fazer um trabalho com uma caixa de sapato é fantástico. Nem isso levamos para a escola - e não podemos falar que é por falta de recursos, porque eles existem e estão sendo jogados fora. 

NE Como os professores reagem quando entram em contato com a aprendizagem criativa? 
LB Quando eles participam das oficinas, há surpresa pelos materiais serem simples, e certo receio porque eles não sabem o que está se passando. Ao mesmo tempo, surgem um alívio e um encantamento em se reencontrar na sua profissão. Quando eles aplicam as metodologias com seus alunos e veem os olhos brilhando, isso reenergiza os professores. Hoje em dia, os alunos são infelizes porque a escola é chata e os professores vivem uma batalha porque terão de “enfrentar” esses estudantes. Ninguém sai satisfeito. Na aprendizagem criativa, reverte- -se essa situação. É o prazer de ensinar e o prazer de aprender no mesmo espaço. 

NE O Brasil vive uma crise econômica que impacta os investimentos em Educação. Em que medida isso pode prejudicar a implementação de novas políticas? 
LB Enfatizamos materiais de baixo custo porque são bons e porque propiciam modelos educacionais acessíveis. Mas, se queremos que as crianças criem e que os professores experimentem novas práticas, precisamos de recursos. A crise afeta demais a implementação de práticas de aprendizagem criativa. Sem investirmos na criatividade, não sairemos da crise. Os modelos tradicionais nos levaram a um beco sem saída. Para sair, precisamos de cabeças pensantes, que resolvam os problemas de formas inovadoras. Se acharmos que investir em criatividade é supérfluo, estaremos cavando um buraco cada vez mais fundo.

A REDE BRASILEIRA DE APRENDIZAGEM CRIATIVA 
Fundada em 2006 por Leo Burd e outros educadores, ela deve se tornar uma ONG nos próximos anos. 

Mais de 3 mil professores
Presença nos 26 estados e no Distrito Federal
Para saber mais e ingressar na rede, acesse: aprendizagemcriativa.org