O pensamento abstrato na adolescência

A conquista do pensamento abstrato muda a maneira de ver o mundo. Rebeldia e desejo de transformar e projetar o futuro são as novidades

POR:
Anderson Moço
Ilustração: Daniella Domingues
FERNANDO Por que não pode?
Minha mãe me proíbe de sair para os lugares e de ter piercing. Tb diz que na escola não pode beijar. Pq não pode??? Fico bravo com isso, brigo, falo um monte! Q coisa loka!

É PROIBIDO PROIBIR Rejeitar argumentos dos pais indica que o jovem começa a pensar com autonomia
Ilustrações: Daniella Domingues

Adolescentes são rebeldes. Se alguém diz algo de que não gostam ou impõe proibições com as quais não concordam, eles rebatem, contestam e até gritam para defender suas opiniões. Também gostam de inovar. Querem mudar o mundo, mesmo não sabendo direito como fazer isso. E quando o assunto é sonho, então... Pensam no futuro e se imaginam fazendo milhões de coisas diferentes, da engenharia aeronáutica ao estrelato do rock. Não é difícil encontrar essas atitudes na maioria dos jovens - aliás, será que você não encaixou nas descrições acima alguns de seus alunos?

A explicação para esse jeito de agir é uma importante mudança cognitiva da moçada: a conquista do pensamento abstrato. Em linhas gerais, é a capacidade de pensar sobre coisas que ainda não conhecem ou que não são concretas (como o amor, o futuro e as regras morais) e de estabelecer hipóteses sobre fatos imaginários, o que lhes permite avaliar e escolher alternativas. "O novo pensar torna possível desafiar o mundo, redefinir conceitos fundamentais para a formação da identidade e ampliar o aprendizado de conteúdos escolares", explica Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Foi a partir da segunda metade do século 20 que se iniciaram as pesquisas sobre como a criança e o adolescente pensam. Até hoje, o suíço Jean Piaget (1896-1980) é uma das maiores referências no tema. Dos quatro estágios de desenvolvimento cognitivo propostos por ele, o chamado operatório abstrato (que ele também denomina de hipotético-dedutivo) é o último. Inicia-se por volta dos 12 anos e se caracteriza pela habilidade de pensar nas relações entre acontecimentos ou entre coisas sem precisar experimentá-las de fato.

Um pequeno problema lógico ajuda a entender melhor essa mudança na forma de pensar: galinhas brancas produzem ovos brancos, e galinhas vermelhas, ovos vermelhos: Qual a cor dos ovos das galinhas azuis? A criança certamente dirá que não existem ovos e galinhas azuis ou irá fantasiar uma história. Já o jovem seguirá o raciocínio lógico da fala e responderá: "Azuis". "As crianças também são capazes de formular hipóteses e efetivamente fazem isso, mas ainda precisam de um referencial concreto para pensar. Os jovens, não: eles podem criar hipóteses sobre aquilo que não conhecem ou não existe concretamente", explica Luciano de Lemos Meira, docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Novo raciocínio influencia o juízo moral e a obediência a regras

Ilustração: Daniella Domingues
BRUNA A luta continua
Qdo eu posso fazer alguma coisa para salvar o mundo eu faço... Participo de várias campanhas. Na de lixo, nós saímos em grupo para falar da importância de não jogar na rua. Na de água e energia, colamos cartazes com alertas sobre gastar o mínimo possível.

ENGAJAMENTO SOCIAL Ao refletir sobre a vida, os jovens se revoltam com os problemas e lutam para resolvê-los

Para Piaget, essa conquista não está relacionada simplesmente à maturação biológica e à idade cronológica, mas também aos estímulos que o indivíduo recebe. E é aí que entra o papel da escola. "Situações-problema, desafios e oportunidades diárias para as crianças e os jovens pensarem são fundamentais. Algumas pessoas passam a vida toda sem conseguir sair do estágio concreto, anterior ao abstrato. Para elas, é muito difícil entender conteúdos científicos e até mesmo nuances dos relacionamentos sociais e emocionais", ressalta Luciene.

Por meio do pensamento abstrato, muda a forma de encarar normas sociais e regras de conduta. "A diferença básica é que, diferentemente dos tempos de criança, a regra não é mais seguida às cegas - sua validade começa a ser discutida. As implicacões passam a depender de um contexto", explica Antonio Carlos Amador Pereira, professor da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A fala de Fernando*, 14 anos (leia no destaque da primeira página), dá contornos mais nítidos a essa noção. E outra situação-problema ajuda a ilustrar a diferença entre o pensamento infantil e o juvenil. Pergunte a um jovem e a uma criança o que seria justo fazer com criminosos que foram capturados. "Colocá-los na cadeia" seria a provável resposta de um pequeno. Trata-se de um pensamento tipicamente concreto, sem grande ref lexão sobre as circunstâncias do ocorrido. Por outro lado, um adolescente que já domine o pensamento abstrato poderia dizer: "Primeiro, é preciso tentar saber os motivos que levaram ao roubo. A punição pode ser diferente se os ladrões estavam uma semana sem comer ou se apenas tinham preguiça de encontrar trabalho".

Justamente por começarem a se ver capazes de analisar as coisas de maneira ampla, os adolescentes têm um senso de justiça muito forte. Num cenário em que surgem em cena a contestação e até as brigas em nome dessa convicção, o professor deve entender que não se trata de mera provocação. O jovem está saindo de uma moral tipicamente heterônoma, na qual segue as regras por medo da repreensão, e começa a operar uma moral autônoma, na qual a regra é seguida por se respeitar um valor próprio, uma moral introjetada e que gera prazer e recompensa em seguir. "O jovem já consegue situar a lei fora da autoridade. Por essa razão, ele precisa de muito mais justificativas para acatar qualquer norma. Nessa fase, não costuma aceitar nada imposto", explica Luciene.

A mudança de comportamento também traz grandes implicações para a formação da identidade. É verdade que a forma como cada um se vê e enxerga o mundo é um processo que dura desde o momento em que nascemos até a morte. Na adolescência, entretanto, ele é ainda mais agudo e latente, pois a entrada no mundo adulto está ligada à necessidade de definir valores pessoais, morais, políticos e religiosos. Ao buscar novas referências, o adolescente concebe um universo que, em geral, não bate com a realidade que o rodeia. "Perceber que a vida não é perfeita os choca", afirma Meira. Daí nasce o desejo de transformar a realidade, que se manifesta no engajamento em campanhas sociais e políticas, como sugere a fala de Bruna, 14 anos (leia o destaque acima).

Com a experiência da abstração, mudam os modos de aprender

Ilustração: Daniella Domingues
CAIO Vai, Corinthians!
Quero fazer faculdade de engenharia e ser executivo. Meu tio fez isso e se deu mó bem. Quero seguir os passos dele. Qdo eu for velho, vou ficar em casa sem fazer nada. Vou ser um velhinho corinthiano gordo.

ESTE SOU EU AMANHÃ O pensamento abstrato permite imaginar situações no futuro e fazer escolhas

A forma como se aprende também sofre alterações importantes: já se torna possível a compreensão de conteúdos, procedimentos que exigem ligação entre diferentes conhecimentos. Isso é fundamental, por exemplo, para aprender História: como entender, sem simplificar, o que significa democracia? Isso só é possível com a compreensão de tudo que rodeia esse conceito: voto direto, liberdade de imprensa, multipartidarismo, equidade etc. - todas noções abstratas, fundamentais para entender o conceito em questão. "Com o tempo, as abstrações vão se tornando mais independentes de uma imagem visual. O resultado é uma compreensão mais ampla da natureza e das relações humanas", conta Luciene.

A Matemática também nos fornece exemplos interessantes. Enquanto um aluno das séries iniciais precisa de referenciais concretos (frutas, figuras, brinquedos etc.) e dados numéricos para resolver problemas, um jovem já consegue lidar com desafios mais sofisticados, como as equações e suas incógnitas. Para uma criança pequena, é praticamente inconcebível que X seja um número desconhecido qualquer - afinal, é uma letra e não um número. "Para trabalhar com dois sistemas com significados diferentes (é letra e é número), é preciso um alto grau de abstração", ressalta Pereira. Não à toa, o ensino de álgebra só ganha força por volta do 6º ano, quando os alunos têm em média 12 anos de idade.

Não se pode deixar de ressaltar a inf luência que o pensamento abstrato exerce na noção de futuro que os jovens constroem. Falas como a de Caio, 14 anos (leia o destaque acima), indicam a capacidade de vivenciar as possibilidades por meio da imaginação - não mais apenas como sonho distante, como na época de criança, mas levando em conta as reais condições de vida.

De certa forma, a juventude é o momento em que quase tudo parece possível. Na vida adulta, quando a maioria das coisas já é realidade e não projeto, o ímpeto de transformação parece se acomodar. Mas, toda vez que o pensamento abstrato é convocado, readquirimos, mesmo por um breve momento, uma capacidade que nunca deveríamos ter perdido: a possibilidade de mudar nossa vida e nosso mundo.

* Os destaques desta reportagem trazem depoimentos por um programa de troca de mensagens instantâneas pela internet de alunos do 9º ano da EMEF Victor Civita, em São Paulo. Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Quer saber mais?

CONTATOS
Antonio Carlos Amador Pereira
Luciano de Lemos Meira
Luciene Tognetta

BIBLIOGRAFIA
A Formação da Personalidade Ética
, Luciene Tognetta, 184 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 48 reais
O Adolescente em Desenvolvimento, Antonio Carlos Amador Pereira, 160 págs., Ed. Harbra, tel. (11) 5084-2482, 42,90 reais

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