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Blog de Alfabetização

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Alfabetização Brasil afora: o que pensam os professores do Centro-Oeste

Entre as professoras ouvidas os pontos em comum foram o número reduzido de alunos em suas salas e a importância dada à leitura

POR:
Mara Mansani
Crédito: Needpix

Há algumas semanas, fizemos viagens para conhecer o que pensam os alfabetizadores Brasil afora. Desta vez, é chegada a hora da região Centro-Oeste.

Para pensarmos políticas públicas para a Alfabetização, precisamos estudar os dados da região, mas também ouvir os professores que estão no dia a dia da sala de aula. Conversei com algumas alfabetizadoras do Centro-Oeste para saber o que está indo bem na Alfabetização, quais são seus anseios e necessidades e o que elas pensam sobre essa fase tão importante na formação dos nossos alunos.

A professora Cristiane Maria de Brito trabalha na Escola Municipal Coronel Virgílio José de Barros, em Itapuranga (GO). Ela tem 23 alunos em uma turma de 1º ano. Formada em Pedagogia com duas especializações (Psicopedagogia Clínica e Neuropedagogia), ela destoa da média dos professores de Goiás: 83% dos docentes da Educação Básica têm Ensino Superior completo, número inferior aos outros estados da região, que têm mais de 90%.

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Em relação ao Brasil como um todo, Goiás está entre os dez melhores resultados na formação superior de seus professores, o que mostra como estamos desiguais quando o assunto é formação de professores.

Elaine da Silva Castro Charmo é professora da Escola Municipal Augusto Mário Vieira, em Cuiabá (MT). Tem uma turma de 2º ano, com 21 alunos. É pedagoga, especialista em Psicopedagogia Clínica (também) e Institucional e Educação Especial.

As duas professoras têm como prática fazer uma sondagem diagnóstica inicial para orientar os caminhos na Alfabetização dos alunos. Como explica a professora Elaine: “Primeiramente, aplico uma avaliação fazendo um diagnóstico da psicogênese, para identificar o nível de alfabetização que o aluno se encontra. A partir daí, entram as intervenções de acordo com a necessidade de cada um. Trabalho o mesmo conteúdo, porém, de uma maneira diferenciada para aprimorar quem já está no nível mais elevado e melhorar aquele que ainda se encontra no nível abaixo da sua faixa etária ou série.”

Falei também com a professora Luciana de Araújo Oliveira, alfabetizadora há 23 anos, que trabalha na Escola Classe Vila do Boa, na cidade de São Sebastião, no Distrito Federal. Luciana tem 23 alunos em uma turma do 3º ano. A turma é reduzida por conta de alunos com deficiência. Ela é formada em Pedagogia com duas especializações: Administração da Educação e também Gênero, Diversidade Cultural e Etnia. Essa segunda especialização me chamou a atenção em tempos de intolerâncias. Acredito que esse tema deveria fazer parte da formação de todos os professores, em todos os segmentos.

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De Mato Grosso do Sul, pude conhecer um pouco da realidade de trabalho da professora Marilza Carminati Farto, do município de Itaquiraí. Ela é formada no Normal Superior. Tem uma turma de 1º ano com 26 alunos.

Ela e Luciana destacam a importância das boas relações entre professor e aluno e de um estudo que seja significativo, que mostre a eles para que exatamente serve aquilo que estão aprendendo. Luciana disse: “Procuro conhecer os estudantes em todas as suas dimensões quanto possíveis, e criar vínculos afetivos com eles. Por quê? Porque acredito que dessa forma, construímos vínculos afetivos, relações de "pertencimento", que possibilitam a troca de saberes e a liberdade de expressão. O conhecimento produzido marca vidas! Há uma troca verdadeira e espontânea! Onde há afetividade, existe mais possibilidades de criar condições de aprendizagem para todos e todas, mais autonomia e coletividade”.

O primeiro ponto positivo que podemos observar é o número reduzido de alunos em sala. Nós professores alfabetizadores sabemos como o processo de aprendizagem pode ser prejudicado quando as salas são cheias, às vezes com mais de 30 alunos.

Na escola de Marilza, os projetos de leitura são o carro chefe. As demais alfabetizadoras com quem conversei também mencionam a leitura e sua importância no processo de alfabetização dos alunos. Mas ainda há muito o que avançar, não só na região, mas no país inteiro. O Distrito Federal, com apenas 55,5% dos alunos com nível suficiente de leitura na Alfabetização, está entre os oito melhores resultados do país. Na escrita, os resultados da Região são melhores, 70,5% estão no nível suficiente.

Em termos de leitura, o melhor resultado de alunos do 3º ano no país é de Minas Gerais, com 62,4%, seguido por Santa Catarina, com 60,8%. Então, vamos lá todos nós, alfabetizadores, professores de todos os segmentos, desenvolver a leitura em sala de aula. 

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Infelizmente na Matemática, nossos resultados também não são bons. Em nosso país, apenas 45,5% dos alunos estão no nível considerado suficiente em Matemática no 3º ano, segundo dados da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA)/2016. Na Região Centro-Oeste, apenas 48,1% dos alunos estão no nível suficiente na disciplina, com destaque ao Distrito Federal com 56,7%.

Todos os dados citados são do Anuário Brasileiro da Educação Básica, 2019, do Todos Pela Educação e Editora Moderna.

Veja abaixo, os resultados da Região Centro-Oeste, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica- IDEB, em 2017.

 ANOS INICIAIS

 ANOS FINAIS

 ENSINO MÉDIO

MATO GROSSO 

DO SUL       -

         5,7

       4,8

       3,8

MATO

GROSSO   -

         5,9

        4,9

       3,5

GOIÁS       -

         6,1

        5,3

       4,3

DF             -

         6,3

        4,9

       4,1

 

Valorização profissional

No que diz respeito à valorização profissional, a maioria das nossas colegas alfabetizadoras não está muito otimista. No entanto, tenho que destacar a professora Elaine, que se sente valorizada.

“Penso que o valor deve partir de mim, da profissional que sou…” Precisamos cobrar a devida valorização do professor, dos alfabetizadores, dos profissionais da Educação de maneira geral, mas concordo com a Elaine: a valorização deve começar por nós mesmos. Sei que nem sempre isso é fácil, em tempos de tantos obstáculos e dificuldades na Educação, mas um trabalho comprometido, estudo constante, compartilhamento de práticas de qualidade e engajamento coletivo por melhores condições de trabalho e valorização da nossa profissão podem ser o caminho para isso.

E, falando em obstáculos e dificuldades na alfabetização, nossas colegas citaram como exemplos a falta de comprometimento da família, a falta de apoio especializado para auxiliar na alfabetização de alunos que apresentam dificuldades, a descontinuidade dos pares, a interpretação equivocada das avaliações e a falta de alunos. E você, se identifica com algum deles? Como podemos observar, esses são elementos comuns à realidade de muitos professores.

Outro assunto abordado em nossa conversa foi a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e seus possíveis impactos na alfabetização. Para Cristiane Maria de Brito, as aulas "vão ficar ainda mais dinâmicas, com uso de diferentets gêneros textuais e de recursos tecnológicos. Vou dar mais ênfase na leitura e escrita, de forma contextualizada, onde a criança seja capaz de diferenciar grafemas e fonemas, transformando tudo em uma aprendizagem significativa".

Elaine da Silva Castro Charmo e Luciana de Araújo Oliveira também enxergam a BNCC com uma opinião positiva.

“Acredito que, com a implementação da BNCC, os conteúdos dos novos currículos estão vindo para atender a toda clientela educacional. São habilidades que desenvolverão o pensamento crítico, as emoções e também a  criatividade na habilidade digital.  Estamos vivendo em uma era que se faz necessário  ensinar de acordo com a realidade que nos cerca”, explica Elaine. 

Para Luciana de Araújo Oliveira, a BNCC deve resultar em "maior oportunidade e igualdade de condições para todos os estudantes, independentemente de seu estado. Terá um impacto mais igualitário, dando vez  aos estudantes mais defasados socialmente, culturalmente e economicamente.”

No entanto, para Marilza Carminati Farto, a mudança não causará impacto. "A política educacional parece não avançar na prática. Enquanto as gerações avançam, nós professores temos pouco tempo para acompanhar as mudanças, somos barrados com burocracia.”

Como já disse em outros posts, acredito que a BNCC impactará e transformará a Educação em nosso país pois pode promover a equidade, levando a qualidade para todos. Mas para isso precisamos do engajamento de todos: poder público, profissionais da Educação, famílias, ou seja toda a nossa sociedade. Não me canso de repetir, que a Educação precisa ser prioridade em nosso país!

E, para dar uma nota de otimismo, finalizo com as mensagens de nossas colegas para todos nós, alfabetizadores brasileiros.

Finalizo com as mensagens das nossas colegas, para todos nós alfabetizadores brasileiros:

Cristiane: “Alfabetizar é dar asas, participar da construção de sonhos e assistir aos mais belos voos.”   

Marilza: “Amor, leveza, felicidade, audácia, beleza, esperança. Tudo isso zumbindo a alma, o coração, levará a ótimos resultados.”

Elaine: "Precisamos refletir mais sobre como e quais competências estamos desenvolvendo no processo de ensino e aprendizagem dos nossos alunos. A escola pública pode sim ter uma Educação de qualidade!" 

E vocês queridos professores, se identificam com a realidade das colegas alfabetizadoras da Região Centro-Oeste? Como está alfabetização em sua cidade? O que anda dando certo, quais são suas dificuldades em sala de aula? Conte aqui nos comentários!

Um grande abraço a todos e até semana que vem!

Mara Mansani

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