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Maria Inês Fini: os jovens já disseram que não querem o Enem digital

Em entrevista exclusiva, a ex-presidente do Inep opina sobre o Enem e os rumos da Educação no Brasil

POR:
Paula Salas, Paula Peres
Crédito: Mariana Pekin

“Na minha família, não tinha o que discutir. As mulheres tinham que ser professoras”, conta Maria Inês Fini, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Apesar da imposição, ela se encontrou na profissão. Já durante o segundo ano da graduação de Pedagogia, envolveu-se em um projeto que atendia jovens em áreas carentes e que determinou sua inclinação por trabalhar com adolescentes. 

Dona de uma longa trajetória na área de avaliação e currículo, Maria Inês ocupou a presidência do Inep de 2016 a janeiro de 2019, quando foi exonerada do cargo pelo presidente Jair Bolsonaro. Antes disso, entre 1996 e 2002, ela  foi responsável por idealizar e implementar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). 

Dezoito anos depois da primeira edição, em 2016, o órgão fez uma pesquisa com os estudantes brasileiros para checar se deveriam aplicar o Enem em dois domingos e se um modelo de prova digital seria bem aceito. Resultado: ela diz em 74%, mas a apresentação divulgada pelo Inep à época indicava que 70% dos jovens recusaram o Enem digital. A partir de 2017, a prova passou a ser feita em dois finais de semana diferentes.

No ano passado, a educadora foi envolvida em polêmica a respeito de uma questão da prova de linguagens do Enem que trazia o Pajubá, dialeto falado pela comunidade LGBTQ+, e que tinha como objetivo abordar o conceito de dialeto. A pergunta foi alvo de críticas por parte do então candidato à presidência Jair Bolsonaro, que acusou a prova de incluir ideologia e “politicagem” na avaliação. Na época, ele afirmou ainda que em 2019 veria as questões antes da prova (

o que acabou não acontecendo). 

Maria Inês, que se posicionou contrária à interferência do governo, era um nome forte para assumir o Ministério da Educação (MEC), mas o escolhido foi o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez. Ela vê a polêmica do ano passado como um pretexto, mas não o único motivo por trás da escolha. Atualmente, a professora não ocupa cargo público, mas não se afastou da Educação.

Ela mora em um bairro de classe média “cheio de gente com nome de rua”, como costuma dizer, no centro de Campinas, em São Paulo. Ao receber a reportagem numa tarde ensolarada em meio às suas coleções de quadros, conchas e orquídeas, ela explicou que as pinturas, organizadas por temas em cada parede, eram de sua artista plástica favorita: Elisa, sua mãe. Mostrou fotos das netas, “uma princesa e uma terrorista”, das filhas e os prêmios que ganhou somente em 2018. Os demais estão guardados.

Atualmente, trabalha em uma empresa de consultoria e tem se dedicado a uma plataforma digital de avaliação que “fez com dois amigos” há 10 anos. “Eu nunca vou vender avaliação, a plataforma ensina a fazer avaliação”.

Crédito: Mariana Pekin

Durante quase uma hora de conversa com NOVA ESCOLA, Maria Inês Fini relembrou sua carreira, falou sobre o Enem e o futuro do exame, o Novo Ensino Médio e fez uma avaliação sobre a atuação do MEC. Confira a entrevista:

NOVA ESCOLA  Você tem uma longa trajetória na Educação, começou a graduação em Pedagogia em 1968 na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Por que escolheu essa área?

MARIA INÊS FINI  Eu sou professora normalista por imposição da minha família. Na minha família, não tinha o que discutir: as mulheres tinham que ser professoras. E foi durante o Curso Normal que eu descobri que queria ser professora. Eu tive uma professora de Psicologia, Maria Angélica Barreto Pyles, que me inspirou muito. Eu gostava muito da maneira como ela abordava Teoria do Desenvolvimento, especialmente adolescentes, e eu me inspirei muito nela. Ela criou os Patrulheiros de Campinas, e eu fui convidada para ser a coordenadora da “Guardinha”, que era o paralelo dos Patrulheiros. Ali eu abracei a causa da adolescência, já saía da faculdade e ia direto pra Guardinha, uma questão apaixonante e envolvente, porque é um menor carente, muitos abandonados pela família.

Depois, uma coisa natural era buscar uma pós-graduação. E foram essas duas experiências: tanto o fato de eu estar inscrita no mestrado, que em 1972 era uma coisa inédita, quanto essa experiência com a juventude, que acabaram resolvendo a minha vaga na Faculdade de Educação [da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)]. Por que o que tinha vagado, dos cinco primeiros fundadores, era exatamente Psicologia da Adolescência. Minha irmã já era professora do Instituto de Matemática e Estatística, e ficou sabendo dessa circunstância, e depois eu soube que o que fez decidir o desempate pela minha pessoa foram exatamente essas duas questões.

Eu vim para a Unicamp para ser professora de Psicologia do Desenvolvimento da Adolescência, e como era a única de Campinas, fui guindada a uma série de tarefas, por exemplo, estruturar as cinco licenciaturas primeiras, e aí criamos o curso de Pedagogia. Eu fiz toda a minha carreira na Unicamp. Toda. E me aposentei em 96.

A sra. mantém algum vínculo até hoje com a Faculdade de Educação da Unicamp?

Não, vínculo formal não. Contatos, muitos. Amigos daquela época são queridos demais. Trilhamos juntos muitas conquistas, muitas batalhas. Quando a Unicamp foi implantada, os cinco institutos só tinham medalhões. Só gente muito qualificada. Estrelas na Física, na Química, na própria Biologia, que depois sustentou a Faculdade de Medicina, no Instituto de Ciências Humanas, e eles olhavam com muitas restrições a Faculdade de Educação. Achavam que nós íamos estragar a Unicamp, que nós éramos a turma da “perfumaria”. Então havia um desafio muito grande de vincular a Educação como uma área estruturada, técnica, com bases científicas, e isso é ao sabor da minha personalidade: eu gosto muito desse tipo de desafio, de demonstrar. Essa coisa de achar, não é comigo. Eu gosto é de explicar, demonstrar. Foi para isso que eu fui treinada.

Eu tive que enfrentar muitos desafios com gente muito qualificada para colocar a Educação onde ela devia estar. Hoje a Faculdade de Educação mudou muito. Eu digo que não me reconheço mais nela. Mas tenho muitos amigos queridos, os pioneiros na Faculdade de Educação, que eu quero muito bem.

Por que a sra. diz que não se reconhece mais nela?

A faculdade mudou muito. Mudou o perfil do curso de Pedagogia, ficou muito generalista. Eu fui a pioneira de dar aula no curso de Pedagogia noturna, porque eu era chefe de departamento, e briguei para que a Unicamp tivesse curso à noite, e depois eu “mereci” o castigo de dar aula: “Então, já que você brigou tanto, vai você”.

Foi uma experiência magnífica para mim, porque eu aprendi a olhar para um outro aluno que eu não via. Eu precisava cumprir exatamente o horário do intervalo, que eram duas aulas minhas e duas aulas de outro professor. No intervalo da minha aula, os alunos iam jantar, que eram alunos trabalhadores. O horário era organizado de tal forma que, num dia da semana, minhas aulas eram as duas primeiras, e no outro dia, eram as duas últimas.

E eu me surpreendi muito, porque eu sou tida como uma exímia professora, todo mundo se envolve muito. Pela primeira vez, um aluno, no dia em que a minha jornada era depois [do intervalo], ele abaixou a cabeça e adormeceu. Aquilo, para mim, foi uma coisa absurda. Porque eu costumava ter a classe na mão, atentos, acompanhando, eu me movimento muito, escrevo na lousa, rabisco, volto, pergunto, faço falar, e eu nunca tinha visto isso. E eu fiquei chocada num primeiro momento, mas fui levada a respeitar o aluno do noturno.

Quando [as minhas aulas] eram as primeiras, eu tinha que ter a tolerância do ônibus que atrasava. Para mim, isso era um absurdo, eu não conseguia entender. Como dava aula sempre no período da manhã, eu combinava com os alunos: vocês querem chegar no horário do intervalo, ou querem chegar atrasados, eu como o intervalo e dou as duas aulas seguidas? E o que eu combinava com a turma estava feito. Mas [dar aula] à noite, para mim, foi um aprendizado.

Eu achei maravilhoso, você aprender com o aluno, respeitar a condição, e em compensação, como eram todos alunos trabalhadores na área de Educação, as discussões eram riquíssimas. Mesmo a quantidade de coisas que eu queria que eles lessem fora da sala de aula, eu aprendi a dosar mais, porque era outro aluno completamente diferente. Então aquilo que aparentemente para os meus colegas era um castigo, para mim foi um grande aprendizado. Terminei a minha carreira na Unicamp em 96, já não queria mais ficar. Acho que havia uma discussão ideológica radical.

Eu tive que enfrentar uma batalha muito grande, porque fiz a Unicamp fazer um convênio com o Ministério do Exército, nós reformulamos o ensino da Escola Preparatória de Cadetes. Era um mestrado dentro da Escola de Cadetes para preparar os professores militares. Chamava-se “Informática aplicada à Educação Construtivista”. É lógico que houve muita controvérsia na Faculdade de Educação, porque não queriam que eu dedicasse o meu tempo ao Exército, queriam que eu fosse para a rede pública, mas o Exército é uma rede pública, e se eles abrem as portas, é lá que nós vamos. Eu fui com 14 alunas de Orientação Vocacional, e o curso era tão revolucionário, feito com o núcleo de Ensino à Distância da Unicamp, que até o Seymour Papert, do MIT [Massachusetts Institute of Technology], veio visitar. Foi maravilhoso. Mas isso acabou, eu fiquei muito desgastada na negociação desse projeto, e o desgaste sempre é pessoal, porque profissionalmente você ganha todas, né. Quando você tem razão e demonstra, ganha. Então, eu acabei antecipando minha saída da Unicamp, completei os meus 25 anos e saí. Aí eu fiquei 3 dias aposentada (risos). O ministro Paulo Renato me chamou a Brasília.

Crédito: Mariana Pekin

Foi quando você assumiu o Inep pela primeira vez?

Eu fui como consultora do Inep para fazer a matriz do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica]. O que eles queriam: que o Ministério da Educação determinasse o que ia ser avaliado. Nós não tínhamos uma Base Nacional Comum Curricular, mas ele não queria deixar para as empresas de avaliação decidirem o que ia ser avaliado. Ele disse que era para eu organizar essas bases.

Fiz uma consulta com todos os estados brasileiros sobre o currículo que era praticado, e o que me devolviam era uma lista de conteúdos. Lembre-se que eu sou professora de Psicologia do Desenvolvimento, com uma formação cognitivista muito forte. E aí nós decidimos naquela ocasião já associar aos conteúdos também os processos cognitivos, que são as competências e as habilidades. Desde 96, a primeira base do Saeb, que até hoje tem pouca modificação, é a base que nós construímos. E aí eu fui juntando pessoas, professores de diferentes universidades públicas do Brasil. e começamos a produzir esta referência de avaliação.

Participei de algumas discussões sobre Enem. O ministro Paulo Renato queria um exame parecidíssimo com o que existe hoje, moderno, e que fosse o acesso ao Ensino Superior. Ele tinha sido técnico no Banco Mundial, e os filhos dele fizeram um vestibular mais ameno, fizeram o SIT, e ele vinha bastante impressionado, queria algo parecido no Brasil. Naquela ocasião, os meninos viviam viajando para fazer Fuvest e outras universidades federais, e ele queria então criar uma referência para o final da Educação Básica.

O ministro chamou três equipes diferentes para elaborar esse modelo. Ele chamava as equipes que faziam vestibulares, quem sabia fazer avaliação. Em uma das reuniões, eu estava presente e ouvindo um comentário, falei: "Não é isso que o ministro quer". Ele (o próprio ministro) era meu amigo, tinha sido meu reitor, e perguntou “O que que o ministro quer?” e tinha um flipchart no fundo da sala, eu fui lá e desenhei o Enem para ele. Eu era consultora, hein? Aí, quando terminou a reunião, ele me chamou de lado e falou assim “Menina, você sabe fazer aquilo que você desenhou?” E eu falei, “Sei.” “Sabe?” “Sei.” “Dá para o ano que vem?” Falei: “Dá!” “Antes da eleição presidencial?” “Dá.” “Então tá bom. Então acabou a boa vida, vou criar um cargo pra você”. Ele criou a Diretoria de Avaliação para Certificação de Competências, o Inep. E aí, aquele meu pessoal que já estava movimentado [para o Saeb], nós então nos mobilizamos, e foi um desafio muito maior, porque além de fazer a matriz, nós tínhamos que fazer os itens interdisciplinares, contextualizados, com resolução de problemas, era uma coisa muito nova para quem quer que fizesse avaliação. São os melhores elaboradores de itens que o Brasil tem até hoje.

Crédito: Mariana Pekin

Quando vocês elaboraram o Enem, você imaginou que ele iria tomar a proporção que tem hoje, de ter milhões de inscritos todo ano?

Tinha certeza absoluta.

Esse era o projeto desde o início?

Não. O projeto desde o início era fazer uma política pública que pudesse mapear, ao final da escolaridade básica, o que de fato os alunos dominavam como estrutura de pensamento. Nós nunca pensamos num vestibular único como ele é hoje, essa transformação foi feita na gestão do Fernando Haddad, e quebra um pouco esse modelo teórico do Enem original, e apesar de ser muito bem feito, é conservador, conteudista e tradicional. Ele é o modelo antigo de vestibular. Tem inúmeras funções de democratizar o acesso, de expandir oportunidade, mas ele de fato quebra um pouco a visão do Enem original. Por quê? No Enem original, a preocupação era qualificar o perfil de saída do aluno, não era quantificar o que ele saberia para um critério de exclusão. Para este processo, o Enem original não servia.

Ainda assim, 35 universidades, inclusive algumas federais, já usavam o Enem como processo de entrada. Ao todo, um pouquinho mais de 500, quando eu deixei o Enem, em 2002. O mérito maior do Enem original foi a provocação que ele fez nas comissões de vestibulares. Nós fizemos uns 20 seminários em universidades federais. Quando a gente ia falar, nós não éramos governo, nós éramos professores de universidades, e os colegas nos ouviam.

Ele era um excelente exame de primeira fase. Um exame de formação geral. Não sei se vocês encontram eco em alguma coisa do dia de hoje… Olhem para a reforma do Ensino Médio e vejam o que ela quer: ela quer um exame de formação geral. Você não tem como fazer o exame dos itinerários no futuro do Enem.

O Inep passou por muitas reviravoltas esse ano. Foram três presidentes em cinco, seis meses. Muitas vezes, a continuidade do processo do Enem foi questionada, e o governo dizia que estava tudo sob controle. A sra. acha que corre-se o risco do Enem ter algum problema esse ano ou o exame já ficou maior do que qualquer inconstância do MEC?

Não. Eu não acho que o exame é maior do que qualquer inconstância, de maneira nenhuma. Preocupa-me profundamente a gestão do Enem deste ano, porque foram afastadas as pessoas que realmente dominam o assunto por prerrogativas absurdas. Eu nem vou nem dizer que são prerrogativas ideológicas, porque são absurdas. E também nós temos uma gráfica nova imprimindo pela primeira vez. Então, calor dos dois lados, eu acho temerário. Mas tenho certeza de que há uma metodologia estabelecida, um consórcio aplicador competente, e eu torço para que nada possa acontecer com o exame. Eu acho que é uma preocupação de todos os brasileiros, mas acredito que vai dar certo. Não é possível que dê errado.

Recentemente, o MEC anunciou o projeto de começar a aplicar uma prova digital no Enem, já começando em 2020 em caráter experimental. O que a sra. acha dessa ideia?

Eu acho que as pessoas que chegam deveriam conhecer a história do órgão. Em 2017, para começar 2018, nós fizemos uma pesquisa com 600 mil pessoas, 74% dos jovens disseram que não querem a prova no computador [A apuração da reportagem verificou que a referida pesquisa aconteceu em 2016, não 2017, e o índice divulgado pelo Inep é de cerca de 70%]. Para quem é a prova? Acho que o futuro é esse mesmo, mas agora eu pergunto: onde vai ter computador para todo mundo fazer a prova? Não precisa de rede, nem de conectividade. Hoje nós temos tecnologia suficiente para bloquear um tablet e fazer só a prova no tablet, falar que falta conectividade é bobagem. Falta conectividade para o ensino, para pesquisa, para tornar a escola mais atraente, isso sim. Para fazer o Enem, não. Agora: onde é que estão os equipamentos? A logística vai ser igualmente trabalhosa: como é que você vai transportar? Você vai regionalizar? Quem vai habilitar os equipamentos todos de uma única vez? Você vai trocar uma grande logística experimentada por uma nova que os jovens brasileiros já disseram que não querem. Foi quando nós fizemos aquela pesquisa dos dois domingos, vocês se lembram? Nós fizemos junto.

Crédito: Mariana Pekin

O presidente Jair Bolsonaro criticou em 2018 as questões do Enem. Neste ano, foi criada uma comissão que avalia as questões que entrarão na prova...

Censura.

Como a sra. enxerga essa medida?

Um absurdo. Veja, o Enem é elaborado por professores de todas as universidades federais. Nunca houve filtro ideológico ou uma censura sobre temas, eu acho que isso é absolutamente desnecessário, como eu acho indevida a análise crítica que foi feita do Enem 2018.

Acho que o item tão polêmico do Pajubá jamais conduziria o jovem brasileiro a qualquer tipo de opção sexual. Isso é um verdadeiro descalabro, é falta de respeito com o jovem brasileiro imaginar que [isso aconteceria] ao responder um item em que ele deveria identificar as características de um dialeto, que é uma linguagem própria de um grupo minoritário, e que ele tinha que identificá-lo através do pajubá, que é o dialeto do LGBT.

Sinceramente, eu achei um exagero, lamento profundamente tudo o que eu sofri pessoalmente de abuso de autoridade, de agressão a mim, à minha família, lamento profundamente o episódio, porque não havia motivo para isso, como eu acredito que não há motivo para qualquer tipo de censura em nenhuma das provas que o Inep faz. Confio na equipe técnica como sempre confiei, e com ela, nesses 3 anos em que estive lá, fazia a escolha dos itens e o tema da redação.

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Até que ponto, durante sua gestão como presidente do Inep, o ministro da Educação ou o presidente opinavam sobre as questões da prova? Quem avaliava essas questões?

A minha [interferência era] direta, porque eu sou da área. Eles quase tinham que me segurar, porque a minha vontade era ficar com eles o tempo inteiro no ambiente seguro. Eu me sinto muito honrada das equipes técnicas me quererem nesse trabalho. Eu acho que para mim foi magnífico, mas ninguém, nunca, nem o ministro Mendonça Filho quis ver tema de prova, nada. Ele só me perguntava se estava tudo ok. E até o momento de saber o tema da redação, todos eles ficavam esperando com grande expectativa. Além da equipe técnica e dos assessores, a única pessoa que sabia era eu. Mas não porque eu era presidente, e sim porque eu sou da área.

A sra. chegou a ser cotada para assumir o MEC este ano. Acha que seu posicionamento contra a ideia de Bolsonaro ver as questões do Enem antecipadamente pode ter influenciado a troca da presidência do Inep ou até mesmo a possibilidade de assumir o ministério?

Acho que sim. Seria muita ingenuidade dizer que esse foi o único motivo. Tenho a impressão de que esse foi o pretexto definitivo, mas não acho que esse foi o motivo. Eu acho que isso já vinha sendo construído desde a primeira notinha em que eu apareci como candidata.

Durante um evento da Fundação FHC sobre a Reforma do Ensino Médio, a sra. questionou Maria Helena Guimarães sobre os itinerários formativos, em especial, o itinerário técnico-profissional. Qual a sua visão a respeito das mudanças que a reforma traz para o Ensino Médio? 

Temos que ter muita cautela na organização dos currículos para a gente não atropelar a Reforma do Ensino Médio. Eu acho que o melhor caminho para o Ensino Médio é uma forte formação geral nas 1200 horas e todos os itinerários serem profissionalizantes. Não necessariamente técnicos, mas todos com um pé bem forte no mundo do trabalho, porque é isso que a juventude brasileira precisa. Se vamos revitalizar a economia, precisamos de gente capacitada. 

Eu fico pensando o que seria um itinerário que aprofundasse a área de química. Ele não poderia estar dentro da química industrial? Não conseguiríamos dar um passo adiante e fazer uma qualificação para o trabalho? É necessário fazer uma parceria com o mundo empresarial e a área de serviços para que de fato tivéssemos uma qualificação profissional junto com a formação geral. 

Mas e a infraestrutura?

Lamentavelmente, nossos institutos federais, que eram os antigos CEFET, viraram universidades. Eles eram nossa melhor opção. O Brasil tem que encarar isso de maneira muito séria. Junto com a mudança na concepção de universidade, nós vamos ter que pensar seriamente nessa profissionalização antecipada de jovens ao final do Ensino Médio.

Durante as discussões do Novo Ensino Médio, a sra. e sua equipe já haviam começado a pensar sobre como as mudanças trazidas pela Base do Ensino Médio e os itinerários formativos apareceriam no Enem?

O caminho do Enem é o mais claro de todos. Ele só vai avaliar a formação geral. O máximo que podemos ter são quatro grandes competências em cada uma das áreas [dos itinerários], mas como vão se desdobrar não sabemos. Um caminho prudente é que o Ministério da Educação faça um exame de formação geral e cada universidade faça o seu específico.

Crédito: Mariana Pekin

A sra. chegou a ver a carta de compromisso pela Educação Básica do MEC? 

Tanto essa quanto a Política Nacional de Alfabetização (PNA). Eu acho que cada governo que entra deveria olhar o que já foi feito. Pode até mudar o nome, mas nós não precisamos de um outro plano. Esse plano finge que não existe universidade. Desconhecer o papel da universidade brasileira é uma afronta. Pode ter controvérsias, mas a universidade brasileira é um valor enorme na nossa sociedade e a universidade tem que estar envolvida na formação de professores. Não pode só a Undime e o Consed dizer o que querem, eles têm que dizer qual é a demanda. Eu lamento e me sinto pessoalmente agredida, vindo de onde eu vim e com o compromisso que eu tenho com a rede pública.

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Passamos por um período de grande polarização. Pensando em um órgão técnico como o Inep, como se dava a convivência de diversos olhares políticos durante sua gestão (maio/2016- jan/2019)? 

Muito técnico. Nós tivemos muito apoio do ministro Mendonça Filho. Ele foi espetacular para o Inep porque ele nos apoiou em tudo. Tinha uma paciência infinita para me ouvir, compreender os argumentos, aceitá-los. Eles nos apoiou fortemente e isso ajudou a conquistar o pessoal do Inep. 

Sou uma pessoa muito alegre, trabalho muito, saio para tomar chope junto [com a equipe]. Esse entusiasmo, valorização, comprometimento e respeito profundo pelo Inep contamina a equipe. Eu deixei uma equipe maravilhosa tanto na Educação Básica quanto na Superior, mas essas pessoas foram afastadas por pertencer a outra ideologia.

Com base no Compromisso Nacional pela Educação Básica, qual visão de Educação a sra. enxerga que o MEC defende hoje e que pautará suas políticas nos próximos anos?

Não sou capaz de adivinhar, mas o documento tem uma porção de coisas do texto do Educação Já [iniciativa lançada pelo Todos pela Educação em setembro de 2018]. Eu acho que a salvação da Educação brasileira é a sociedade civil organizada, todas as ONGs e institutos. Se a sociedade se organizar, ela conseguirá apoiar a Educação brasileira. 

Como a senhora avalia as políticas públicas pautadas pelo MEC neste primeiro semestre? A atenção do MEC está voltada para o que realmente importa? 

Não vi nenhuma, mas acho a Política Nacional de Alfabetização absolutamente equivocada. Infelizmente compraram a tese [do método fônico], mas não acho que é o caminho para o país. A Base Nacional está aí. Para que cravar um método? Nós nunca fizemos isso no Brasil. Deixa a escola escolher. 

Se tivesse que investir em três áreas prioritárias na Educação Básica, quais seriam?

Não tem outra saída para o Brasil: currículo, avaliação e formação de professores. A escola precisa ser ajudada a fazer a transição da Base para o currículo. Na avaliação, temos que dar outro passo: sair da avaliação em larga escala e passar para a processual, mas ninguém sabe fazer. Na formação de professores é preciso parar com as grandes teses acadêmicas e ensinar ao professor o que ele tem que ensinar para o aluno. 

Crédito: Mariana Pekin

Como a sra. avalia a implementação da Base? Está preocupada? 

Eu acho que está muito bagunçado. Antes de dizer como vai ser o currículo, os professores têm que compreender a Língua Portuguesa, a Matemática, a Física, porque todos nós estamos reconhecendo que a formação foi falha. Então, os professores precisam de ajuda. Não é para fazer curso de final de semana e fazer a 3ª jornada, mas ter uma belíssima reforma administrativa dentro do Estado, como o Mozart [Neves] fez em Pernambuco, para dar minimamente 6 horas de jornada para o professor se capacitar dentro da escola. E a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) poderia fazer uma segunda licenciatura para todos.

De todas as iniciativas que a sra. Fez parte ou liderou, qual foi a que te deu mais orgulho?

Eu gosto muito do Inep. No dia do primeiro exame do Enem [em 1998], eu falei para o ministro Paulo Renato Souza: "O exame vai ser um sucesso". E foi. É uma emoção que eu nunca vi igual, foi maravilhoso. Até hoje sou reconhecida por ter feito o Enem, mas não adianta. A rede pública de São Paulo é a minha paixão. A experiência mais maravilhosa da minha carreira foi na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo quando fizemos a reformulação do currículo e da avaliação. Eu adoro essa rede, gosto dos professores. Foi maravilhoso porque você sai do plano nacional, que é outra responsabilidade, e vai para o dia a dia da escola. Acho que é o que eu mais gostei de fazer. 

Algum arrependimento?

Nenhum. Olha o privilégio que eu tive. Desde o 2º ano de faculdade tive a oportunidade de só fazer aquilo que eu acredito, aquilo que me dá prazer.

Crédito: Mariana Pekin

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