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Transtornos alimentares e a busca pelo corpo ideal: como abordar esse tema na escola?

A grande maioria dos transtornos alimentares é diagnosticada em mulheres. Saiba como esses transtornos podem afetar a saúde física e emocional de meninas e mulheres e como trabalhar a imagem corporal na escola

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Transtornos alimentares e a busca pelo corpo ideal: como abordar esse tema na escola? A grande maioria dos transtornos alimentares é diagnosticada em mulheres. Saiba como esses transtornos podem afetar a saúde física e emocional de meninas e mulheres e como trabalhar a imagem corporal na escola
Foto: Getty Images

Pesquisas indicam que as mulheres são as mais afetadas pelos chamados transtornos alimentares não somente no Brasil, como também no mundo. No caso da anorexia, por exemplo, Bordo (2013) aponta que 90% dos casos são diagnosticados em adolescentes e mulheres jovens. Tais dados levam a questionar as razões de um percentual tão alto entre esse grupo e quais são os componentes sociológicos, biológicos e psicológicos que contribuem para o surgimento desses transtornos muitas vezes já em idade escolar.   

Transtornos alimentares

Os transtornos alimentares são multifatoriais, compostos por fatores biológicos, socioculturais e psicológicos, sendo os dois tipos principais a anorexia e a bulimia nervosa. De acordo com o DSM-5, a principal característica dos transtornos alimentares é o distúrbio na percepção da imagem corporal.

Os principais critérios para o diagnóstico de anorexia nervosa são: 

  • O medo extremo de engordar, tornar-se obeso ou apresentar um padrão de comportamento contínuo que impede o ganho de peso;
  • Ausência de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos;
  • Recusar-se a manter o peso corporal em um nível mínimo considerado normal para idade e altura;
  • Distúrbios na percepção da própria aparência independente de como o corpo se apresenta. 

Já a bulimia nervosa caracteriza-se principalmente por: 

  • Episódios frequentes de compulsão alimentar, o que significa consumir alimentos em um período de tempo curto e em uma quantidade que é certamente maior do que a maioria das pessoas seria capaz de consumir em circunstâncias semelhantes;
  • Sensação de falta de controle sobre o consumo de alimentos que geralmente é seguida por um comportamento compensatório, como vômitos, uso de laxantes, diuréticos, jejum, prática de exercícios intensos e uso de outros medicamentos para evitar ganho de peso;
  • Uma pessoa que sofre de bulimia nervosa avalia-se constantemente de acordo com o seu peso e forma corporal (American Psychiatric Association, 2013).

Características psicológicas individuais como baixa autoestima, falta de afeto, depressão e perfeccionismo também estão associadas aos transtornos alimentares, assim como histórico de abuso sexual e/ou bullying. A pesquisadora Nádia Pinheiro destaca que os primeiros indícios de alterações na conduta alimentar e sinais de alerta relacionados a esse tema podem ocorrer já na primeira infância. Ela aponta que a prevalência de casos de transtornos alimentares tem aumentado e a idade de início da manifestação dos sintomas vem diminuindo. 

Transtornos alimentares e o papel das diferentes mídias

Muito se discute sobre o papel das diferentes mídias na construção do que é considerado o ideal para o corpo de uma mulher. O tema foi alvo de diversas pesquisas ao longo dos últimos anos, o que aponta para um olhar atento sobre as possíveis construções que são feitas (e que podem ser desfeitas) sobre padrões de beleza e ideais de perfeição femininos.

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As imagens transmitidas pela mídia desempenham um papel importante na construção da realidade, auxiliando no desenvolvimento de significados sobre questões políticas, sociais e de saúde. Esse processo por vezes parece tão linear e natural que a própria construção dessas imagens aparenta ser invisível. Por isso, a escola pode ser um espaço que joga luz e promove reflexão sobre o tema.

Byerly e Ross (2008) sustentam que as mulheres das nações ocidentais têm sido estereotipadas nos meios de comunicação de massa, com prioridade à sexualização do corpo feminino e na busca por enquadrar (em todos os sentidos da palavra) mulheres dentro de um repertório restrito de tipos corporais e estilos de vida que têm pouca ou nenhuma relação com a maneira como a maior parte das mulheres vive suas vidas e habita seus corpos. Os autores indicam também que os padrões predominantes de atratividade comumente encontrados na mídia, retratam as mulheres como mais magras que os homens e esse padrão se tornou ainda mais drástico em comparação a anos anteriores. Além disso, autores como Anschutz, Engels, Becker e van Strien (2008) que investigam amplamente o tema, defendem que diferentes mídias enfatizam que a magreza está ligada à felicidade e à saúde e chamam a atenção para o impacto persuasivo que a mídia tem para o desenvolvimento e manutenção de distúrbios da imagem corporal e patologias alimentares, além de outros riscos ligados ao descontentamento e desconforto com a própria aparência física. Por fim, Fredrickson e Roberts (1997) afirmam que os homens geralmente são caracterizados na mídia e na arte com ênfase no rosto, enquanto as mulheres tendem a ser retratadas com maior ênfase no corpo. Esses dados lançam luz para avaliar o peso que a sociedade e a mídia dão ao corpo da mulher.

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O corpo e a saúde emocional

Conforme afirmou Chris Shilling (1993), o corpo é de alguma forma moldado, limitado e até inventado pela sociedade. A autora defende que os regimes e movimentos de autocuidado não são simplesmente voltados para a prevenção de doenças, e sim simbolizam o desejo de estarmos satisfeitas com a forma como nossos corpos são vistos de maneira expandida, tanto para nós mesmos como para os outros. Na mesma linha, Monro (2006) define a objetificação do corpo da mulher como o termo usado para se referir ao modo como muitas mulheres se vêem, e especialmente seus corpos, como um objeto a ser valorizado pela aparência externa em vez de qualidades internas, como a personalidade e a inteligência.

Barbara Fredrickson, uma das maiores estudiosas sobre o tema, defende que os transtornos alimentares são, talvez, os riscos mais evidentes para o bem-estar de meninas e mulheres em uma cultura que objetifica a aparência feminina, pois tais problemas são literalmente representados no corpo. Para ela, a aparência física das mulheres é certamente o maior preditivo para a baixa autoestima e há estudos conclusivos que apontam que os riscos de transtorno alimentar aumentam no início da adolescência. 

Falando sobre transtornos alimentares na escola

A busca por padrões corporais irreais não apresenta correlação com fatores genéticos, neurológicos ou hormonais, portanto, o contexto sociocultural no qual as mulheres se desenvolvem é que deve ser alvo de discussão e de mudança.

À primeira vista, modificar os valores construídos sobre a imagem corporal ideal enraizada nas mulheres pode parecer um grande desafio, entretanto há diferentes possibilidades para esse convite. O incentivo e a prioridade à prática de esportes na escola favorecem o desenvolvimento de uma relação mais saudável com o próprio corpo e certamente contribuem também para a saúde emocional e o desenvolvimento de outras inúmeras habilidades. A escola pode planejar atividades voltadas para a análise crítica do que é exposto nas mídias sociais sobre o corpo feminino, para assim construir o debate sobre os possíveis efeitos psicológicos dessa interação contínua. Além disso, pode promover projetos interdisciplinares que envolvam informações biológicas sobre os transtornos alimentares, que tragam personagens históricos femininos que se destacam por suas trajetórias e contribuições científicas, mostrando que a mulher pode sim ser quem ela quiser.

Nova Escola publicou em março desse ano um artigo sobre projeto interdisciplinar propondo formas de abordar a história das mulheres durante todo o ano letivo, mostrando que diferentes personalidades femininas também foram escribas, administradoras, guerreiras e cientistas. 

A professora Gina Vieira Pontes, de Ceilândia (DF), desenvolveu um projeto para que suas alunas percebessem que em qualquer tempo, fossem quem elas fossem, poderiam construir uma história da qual poderiam se orgulhar. Gina propôs a leitura de seis obras de autoria feminina e da biografia de dez grandes mulheres da história. Quando percebeu que seu grupo havia compreendido o conceito de mulheres inspiradoras, ela propôs que todas pensassem sobre suas próprias vidas e respondessem a seguinte pergunta: “Qual é a mulher inspiradora da sua vida?”. A professora se emociona ao lembrar que suas alunas chegavam com os olhos brilhando e cheias de orgulho dizendo que ao conhecer melhor a história de suas mães, haviam descoberto que elas eram muito mais inspiradoras do que pensavam. Para ela, o mais bonito foi ouvir de muitas mães que após reavaliarem suas trajetórias com o projeto, perceberam que sim, eram mulheres inspiradoras. Esse projeto já foi reproduzido em várias escolas brasileiras e conquistou o primeiro lugar no I Prêmio Ibero-Americano.

Uma outra  sugestão interessante é exibir o vídeo da campanha 50 people, 1 question (50 pessoas, 1 pergunta), produzido pelo Jubilee Project. Nessa campanha, primeiramente foi perguntado a diversos adultos o que mudariam em seus corpos. As respostas variaram entre ter uma testa menor, se livrar das estrias e até mesmo ter outra pele. Em seguida, a mesma pergunta foi feita a crianças. Dessa vez, as respostas variaram entre ter dentes de tubarão para comer mais, ter asas para voar, e ter uma cauda de sereia. O vídeo mostra a sensação de inadequação dos adultos a partir da percepção dos seus corpos e a vivência mais leve e positiva que as crianças trazem por serem quem elas são. Como pergunta disparadora, que tal questionar os motivos pelos quais quando somos crianças costumamos ter uma percepção positiva de nossos corpos em contraste com as exigências quase inatingíveis que muitos de nós adotamos a partir da adolescência? Será que há diferença entre o que é imposto às meninas desde cedo e o que é passado aos meninos?

Certamente, a relação entre fenômenos socioculturais relacionados à aparência física e os transtornos alimentares é extremamente complexa. Os transtornos alimentares podem ser analisados a partir de diferentes prismas, entretanto as mulheres recebem mensagens múltiplas e constantes que reforçam ideais corporais que não condizem com a realidade. Tais mensagens não vêm exclusivamente da mídia, porém devido à popularidade destes veículos de comunicação, é preciso refletir sobre a influência que exercem. Use a criatividade e não tenha receio de falar sobre o tema, afinal o corpo é a nossa principal forma de interação com o mundo e também é uma forma de aprendizado.

Como disse Simone de Beauvoir, não se nasce, mas se torna uma mulher. Essa afirmação clássica da escritora e filósofa sugere que não há uma circunstância psicológica ou biológica intrínseca que dite o que as mulheres representam. É a sociedade como um todo que produz e reproduz significados, portanto as mensagens devem ser reavaliadas, questionadas e modificadas. 

Professoras, gestoras e alunas: conforme ouvi certa vez, em uma sociedade que dita constantemente o que a mulher deve ser e como deve aparentar fisicamente, gostar do próprio corpo e não ser dominada por padrões estéticos é um ato político. 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha com projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

Referências Bibliográficas

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Arlington

Anschutz, D. J., Engels, R. C. M. E., Becker, E. S., & van Strien, T. (2008). The bold and the beautiful. Influence of body size of televised media models on body dissatisfaction and actual food intake. Appetite, 51(3), 530–537. 

de Beauvoir, S (1952) The second sex. (H.M. Parshley, Trans.). New York: Knopf

Bordo, S.  (2003).  Anorexia nervosa:  Psychopathology as the crystallization of culture. In Unbearable Weight:  Feminism, Western Culture, and the Body (10th Anniversary edition, pp. 139-164). Berkeley:  University of California Press. 

Byerly, C. M., & Ross, K. (2008). Women and Media: A Critical Introduction. Women and Media: A Critical Introduction.

Fredrickson, B. L., & Roberts, T.-A. (1997). Objectification theory: Toward understanding women's lived experiences and mental health risks. Psychology of  Women Quarterly, 21, 173-206.

Monro, F. J., & Huon, G. F. (2006). Media-portrayed idealized images, self-objectification, and eating behavior. Eating Behaviors, 7(4), 375–383.       

Shilling, C., (1993), The Body and Social Theory, Sage: London.

PINHEIRO, Nádia Prazeres. Classificação e Diagnóstico de Transtornos Alimentares na Infância: Nem DSM, nem CID-10. Psicol. pesq.,  Juiz de Fora ,  v. 5, n. 1, p. 61-67, ago.  2011 . Acessos em  17  jul.  2019.

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