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01 de Março de 2014 Imprimir
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Do muro para a classe e de volta para as ruas

Todos criaram camisetas com chapas de radiografia, spray e a técnica de estêncil

Por: André Bernardo

A classe se inspirou em site e assistindo a vídeos de artistas que usam essa linguagem. (Crédito: PhotoAlto/ Sandro Di Carlo Darsa/ Getty Images e Arquivo Pessoal/ Liana Virgínia Machado)

 

"Queria que a arte produzida pela classe ultrapassasse os limites da escola e fosse vista, reconhecida e admirada por toda a comunidade", lembra Liana Virgínia Machado, professora do 9º ano da EM Nereu Ramos, em Lindolfo Collor, a 60 quilômetros de Porto Alegre. Ela resolveu abordar uma linguagem presente tanto nas ruas como nas galerias e apresentou a turma ao estêncil, técnica que consiste em reproduzir um desenho aplicando tinta aerossol através de uma superfície vazada.

Liana iniciou perguntando quem já tinha ouvido falar da arte com estêncil. Diante do silêncio, ela diversificou as questões: "Com que material ela é feita?", "Que tintas são usadas?", "Já viram em algum lugar?". Nada de respostas. Então, a docente levou todos para a sala de informática e lá eles navegaram por sites e blogs como bit.ly/estencil1 e bit.ly/estencil2. Ela mostrou trabalhos de artistas como os brasileiros Celso Gitahy e Bete Nobrega, o inglês Banksy e o etíope Alex Vallauri (1949-1987), e apresentou diversos vídeos sobre o processo de criação deles (como os disponíveis em bit.ly/estencil3, bit.ly/estencil4 e bit.ly/estencil5).

"A arte do estêncil é de fácil aprendizado. Infelizmente, ela ainda sofre preconceito de poucas pessoas que só aceitam a pintura à mão livre como manifestação artística", analisa Bete Nobrega. A artista lembra que essa técnica surgiu na China, por volta de 105 d.C., como recurso de estamparia e decoração. A produção envolve as etapas de criação, desenho, corte e pintura. Quando é aplicada em muros e outros espaços urbanos, é conhecida como stencil graffiti. Mas também pode ser usada para aplicações em tela, papel, tecido e outros materiais.

A turma de Liana analisou o estilo dos quatro artistas pesquisados e ficou preocupada. Os alunos acharam os desenhos muito difíceis e ficaram cheios de perguntas. "Como eles conseguiram fazer isso?", "Parecem desenhos feitos na parede. Tem certeza que teve um estêncil usado nesse trabalho?" e "O que Banksy quis dizer com isso?" foram algumas delas. Liana, então, explicou que cada artista tem um estilo, contou que a obra de Banksy é uma crítica à autoridade e convidou todos a experimentar.

E, assim, na segunda aula, a teoria e o estranhamento deram lugar à prática. Os materiais utilizados foram tinta spray, estilete, lápis HB e 6B, borracha, folhas A3 e A4, papelão e fita adesiva. Como matriz para os desenhos, foram usadas as chapas de raio X coletadas com familiares. A escola doou latas de tinta e luvas descartáveis.

 



Os alunos desenharam e, depois, recortaram as chapas de radiografia para criar os moldes. (Crédito: Arquivo Pessoal/ Liana Virgínia Machado) 

 

Liana sugeriu que os adolescentes fizessem os desenhos a lápis. Assim, caso fosse necessário, seria fácil apagar. Mas todos sabiam muito bem o que queriam e ninguém quis alterar a produção. Uns fizeram naipes de cartas. Outros arriscaram formas geométricas. E houve, ainda, quem preferisse personagens de videogames. Quando terminaram essa fase, passaram a recortar as gravuras. As sobras das radiografias foram entregues a uma empresa de reciclagem e o professor de Ciências abordou em suas aulas a importância do descarte correto desse material.

Formadora do Instituto Avisa Lá, Helô Pacheco considera importante valorizar a arte e o grafite brasileiros nas referências apresentadas aos alunos, mas ressalta que a criatividade e a diversidade de imagens podem ser ainda mais abordadas. Para isso, ela indica a leitura de Já Era Jacaré - Rolê pelo Graffiti de Alex Vallauri, de Renata Sant’Anna (40 págs., Ed. Olhares, tel. 11/2924-1744, 39 reais), e Graffiti Brasil, de Tristan Manco e Caleb Neelon (128 págs., Thames & Hudson Publishers, 9,95 libras). Autora da dissertação Grafite/Pichação: Circuitos e Territórios na Arte de Rua, Rosane Cantanhede sugere uma pesquisa mais apurada no entorno da escola para localizar e observar obras com estêncil. "Podem-se analisar diferentes aspectos, como temas e estilos", destaca.

 

A artista Bete Nobrega fala sobre estêncil, grafite e pichação:

 

Marcas no papel e na roupa

Num primeiro momento, os jovens usaram a tinta spray para pintar o que haviam moldado em folhas A3 e A4. Mas, como o estêncil é uma técnica típica das ruas, o desejo inicial da professora foi resgatado quando a turma deu a ideia de aplicar as ilustrações em camisetas. A produção foi feita no pátio e eles colocaram um pedaço de papelão dentro da peça de roupa, entre os tecidos, para a tinta não vazar. "A parte mais difícil foi usar o spray. Se você não mantiver a lata a uma distância mínima de 30 centímetros, borra tudo", alerta Guilherme Behne, 14 anos. Francieli Riener, da mesma idade, gostou de ver a turma se ajudando. "Enquanto uns sabiam manejar o estilete, outros preferiam usar o spray."

 



Gravadas em camisetas, as criações puderam ser exibidas nas ruas de Lindolfo Collor. (Crédito: Arquivo Pessoal/ Liana Virgínia Machado)

 

Orgulhosos, os alunos vestiram as camisetas e saíram pela cidade. Eles também produziram sacolas de algodão cru e presentearam as famílias. "É comum os estudantes dessa faixa etária terem vergonha ou serem críticos sobre o que produzem. Essa proposta conseguiu despertar o instinto criador e o prazer da descoberta na classe", elogia Soraia Cristina Cardoso Lelis, do Núcleo de Pesquisa em Ensino de Arte, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Durante dias, não se falou em outra coisa no município. "Todo mundo queria saber quem tinha feito a camiseta. Quando dizia que tinha sido eu, ninguém acreditava", gaba-se Francieli. O alvoroço foi tanto que jornais da região agendaram entrevistas com a professora e os alunos. "Nunca vi a turma tão realizada. Não imaginava que um trabalho simples pudesse fazer tanto sucesso dentro e fora da escola", admite a docente.

 

1 Inspiração que vem dos muros Organize uma pesquisa na internet sobre a arte em estêncil e indique sites e vídeos para os alunos conhecerem obras de artistas como Alex Vallauri e Bete Nobrega.

2 Radiografia reciclada Peça que os adolescentes tragam chapas de raio X de casa e explique que nelas serão feitos os moldes de estêncil. Eles devem desenhar com lápis e depois recortar com estilete.

3 Produção a jato Com latas de tinta spray, oriente cada aluno a registrar o molde que desenhou em folhas A3 ou camisetas.

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