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Autismo: como estabelecer uma boa relação entre escola e famílias de alunos

É normal que os pais se sintam inseguros, mas com algumas medidas a escola pode criar laços de confiança e colaboração

POR:
Nairim Bernardo
É comum que pais e responsáveis fiquem inseguros na hora de entregar a criança com autismo aos cuidados de uma creche ou escola, mas com diálogo entre famílias e educadores, é possível criar um ambiente positivo para o desenvolvimento    Crédito: Getty Images

O Transtorno do Espectro Autista, é um Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) que se reflete na pessoa através de dificuldades comportamentais, na comunicação e em interações sociais. O Brasil possui aproximadamente 200 milhões de habitantes e, segundo estimativas do CDC (Centers for Disease Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, cerca de 2 milhões são autistas. O Censo Escolar 2018, divulgado em janeiro deste ano, revela um crescimento no número de matrículas de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e/ou altas habilidades/superdotação em classes comuns (incluídos) ou em classes especiais exclusivas, que alcançou 1,2 milhão em 2018, um aumento de 33,2% em relação a 2014. Quando uma criança com autismo chega a sua escola e se torna seu aluno, como promover um ambiente acolhedor não só para a criança ou adolescente, mas também para sua família?

É comum que os responsáveis por qualquer criança fiquem inseguros na hora de entregá-la aos cuidados de uma creche ou escola. No caso de pais de crianças no espectro, ou com outras necessidades especiais, isso é ainda mais comum, uma vez que os modos como elas se relacionam e aprendem variam caso a caso. Em grupos no Facebook para mães de crianças com autismo, que chegam a 25 mil membros, é comum encontrar muitas publicações que dizem respeito ao relacionamento com a escola. Infelizmente, a maioria delas são desabafos que narram a tristeza e a revolta de situações escolares em que seus filhos não foram incluídos ou chegaram a sofrer preconceito.  

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Segundo a Lei nº 12.764, que institui a "Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista", a pessoa com autismo tem direito a estudar em escolas regulares, tanto na Educação Básica quanto no Ensino Profissionalizante, e solicitar um acompanhante especializado quando preciso. Sendo assim, o gestor escolar (inclusive de escola particular) não pode negar a matrícula desses alunos, sob pena de processo e perda do cargo. Mas mais do que realizar a matrícula e trabalhar com essa criança ou adolescente no dia a dia, é preciso estabelecer uma relação sólida com seus responsáveis. O trabalho entre escola e famílias de alunos com deficiência tem algumas especificidades, mas com o empenho de ambas as partes é possível alcançar benefícios para todos, principalmente para o educando. Confira algumas dicas:

Pesquise sobre o assunto e peça informações para a família

Infelizmente, nem todos os cursos de formação docente possuem disciplinas específicas ou um olhar atento para a inclusão escolar, o que faz com que muitos professores tenham pouco conhecimento sobre autismo e outras deficiências. Por mais que o professor não seja culpado por não receber essa formação, é preciso que ele busque formações continuadas a respeito ou materiais confiáveis que tratem sobre o tema, principalmente quando se torna professor de um aluno com necessidades especiais.

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Cabe ressaltar, porém, que tendo o profissional pouco ou muito conhecimento sobre o tema, é imprescindível uma conversa inicial com os responsáveis pela criança, uma vez que o Transtorno do Espectro Autista pode se apresentar em diferentes graus e com muitas especificidades. “Autistas têm uma sensibilidade sensorial muito diferente, em relação à luz, barulho, cheiro, toque… O mínimo que o professor precisa perguntar é o que mais estressa a criança. Sabendo o que a deixa nervosa, ele pode preparar o caminho e ajudá-la a não entrar em crise”, explica Thais Dias Boselli, psicóloga infantil e especialista em Transtorno do Espectro Autista. Ainda que esse trabalho seja bem feito, é preciso estar preparado para lidar com situações adversas. “Invariavelmente, essa criança irá entrar em crise em algum momento”, alerta Thais. “Por isso, o professor tem que saber também o que a acalma: ir no balanço, ficar em um ambiente aberto olhando para o céu, estar junto de um objeto de apego, receber um abraço leve ou apertado”.      

Realize uma reunião com os outros pais

Elaine Mazzarelli é professora, bibliotecária e mãe de Nicholas, que tem dois anos e sete meses e diagnóstico de autismo. Quando perguntada sobre o que mais sente falta na inclusão escolar, enquanto educadora e mãe, ela respondeu: “Uma conversa com outras famílias, que às vezes acabam excluindo não por preconceito, mas por falta de conhecimento. A gente espera que o Brasil cresça na inclusão, que seja obrigatória a formação de profissionais, mas é preciso que todas as pessoas também entendam e respeitem as necessidades dessas crianças”, pede Elaine. 

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Muitos pais ainda resistem em expor o diagnóstico, inclusive para a escola. Cabe aos professores e à gestão conversar com eles em uma reunião com a presença dos responsáveis pelos colegas de sala de seu filho. “A escola tem que explicar o que é autismo e qual a situação específica daquela criança”, afirma Thais Boselli. Ela diz que o comportamento da criança pode “gerar raiva” em outros pais, por causa da impressão de que ela irá atrapalhar os estudos do seu filho. “Mas no momento em que tomam conhecimento que aquele comportamento é consequência de um transtorno, que exige cuidados e respeito e que os educadores têm meios de lidar com isso, eles devem ver a situação de outra maneira”. 

Estabeleça um diálogo constante

O filho de Marcela Pinheiros* foi diagnosticado com autismo aos 7 anos de idade. “Desde muito pequeno, a professora já percebia alguns comportamentos diferentes nele, mas não me falava. Só depois que ele mudou para outra escola e a professora me contou o que estava acontecendo, é que eu o levei a uma psicopedagoga, é que me contaram que na outra escola já desconfiavam porque ‘a gente via que ele era diferente’. Mas se suspeitavam, por que não me contaram?”, questiona ela. 

Atualmente, o filho de Marcela estuda em uma classe multisseriada em uma escola que adota a pedagogia montessoriana. Segundo ela, agora o menino tem vontade de fazer as atividades, ama ir para a escola e é muito incentivado. Mas, infelizmente, as circunstâncias que o levaram a essa terceira e atual escola não foram boas. Um dia, quando ainda frequentava a escola anterior, uma professora o chamou de “lento e burro”. Entre lágrimas, Marcela conta sobre o impacto dessa fala em seu filho. “Ele chegou em casa revoltado, a autoestima dele caiu, ficou agressivo e só depois eu descobri o que aconteceu”. A mãe diz que nas duas escolas em que estudou antes, os professores e gestores omitiam fatos e só citavam os “momentos ruins”. “As outras mães me ligavam porque os filhos contavam o que tinha acontecido na sala”, diz. Hoje, um dos maiores elogios que faz à escola atual é a facilidade e sinceridade na comunicação.

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É essencial que os professores escrevam relatórios e comuniquem os pais quando acontecer uma situação difícil e também um avanço positivo em relação à criança. Por isso, tenha salvo o máximo de contatos possíveis (celular, telefone fixo, do trabalho, de algum outro familiar) e estabeleça qual é o melhor modo de se comunicar com os responsáveis. E lembre-se: ligar para a família não pode servir como “ameaça” para fazer com que a criança mude de comportamento. É preciso, sim, comunicar os responsáveis quando necessário, mas também buscar soluções para que isso não seja sempre preciso.   

Crie laços de confiança

“A insegurança surge em qualquer ambiente quando se é pai ou mãe de uma criança autista e é muito difícil achar uma escola preparada para lidar com essas diferenças”, diz Thaís Boselli. No caso de crianças que necessitam de inclusão, os profissionais precisam estar preparados, aceitar e propor um contato muito maior com as famílias do que aquele que acontece com os responsáveis por alunos neurotípicos (que não estão no espectro do autismo). “Para pessoas com autismo, é mais difícil pedir ajuda e isso já deixa a família insegura. Se o pai ou mãe estão inseguros em relação a uma atividade ou a um local, isso passa para os filhos”, explica a psicóloga. “A criança autista tem mais dificuldade em regular as emoções, até quando fica feliz. Ela precisa muito de alguém para ajudá-la nisso e se a família está insegura não vai conseguir, o que acarretará em problemas para essa criança”. 

Fernanda Veloso* é mãe de um adolescente de 17 anos que, entre outros problemas psicológicos, está passando por investigações psiquiátricas sobre um possível diagnóstico de autismo. Segundo ela, os professores são bem empenhados em ajudar o garoto. “Ele faz as avaliações iguais à turma, mas realiza outros trabalhos para melhorar o desempenho”, diz. Além disso, a escola também buscou outros modos de integrar o jovem. “Ele gosta muito de desenhar e o incentivaram nesse ponto, pedindo que ele fizesse os desenhos e enfeites de Festa Junina da escola”. 

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A mãe conta ainda que quase diariamente vai à escola para conversar com os professores. Nos períodos em que o filho não consegue ir às aulas, ela vai e repassa os conteúdos para que ele não perca nada. Além disso, como já estão avisados, coordenadoras, serventes e vigias também têm um olhar atento para o comportamento do jovem. 

Converse e alinhe as expectativas

O pequeno Nicholas, filho da educadora Elaine Mazzarelli, já frequenta uma creche pública, só que ao contrário do que prevê a lei, ainda não conta com um profissional de apoio. O pedido já foi feito há alguns meses, mas como não houve resposta, ela pretende entrar em contato com o Ministério Público. A situação descrita é semelhante à encontrada em muitas escolas do país. “A creche tem excelentes profissionais, a diretora sempre fala comigo, a professora é muito atenciosa, mas sei que é muito trabalho para ela. Ele fica mais por fora das atividades, pois não há ninguém para fazer a ponte entre ele e a professora”, lamenta a mãe. “Não só pela dificuldade psicológica, mas pela falta de apoio pedagógico especializado, ele vai ficando para trás”.

A situação é triste e desconfortável não só para as crianças, adolescentes e seus responsáveis, mas também para os educadores. Uma das maiores dificuldades do professor é a questão do conteúdo, pois esse é seu objetivo profissional: fazer com que os alunos aprendam. Mas as crianças com autismo têm mais dificuldade ou, em alguns casos, não conseguem absorver determinados conteúdos. Eles nem sempre conseguem seguir o currículo, que precisa ser adaptado. Algumas famílias e escolas ainda resistem em fazer isso. “O ideal é ter um profissional capacitado em inclusão para acompanhar a criança na escola e ajudar na aprendizagem”, explica a psicóloga Thais Boselli. Esse profissional deve ser oferecido pelo poder público gratuitamente. “Quando isso não acontece e a família não tem dinheiro para pagar, alguém da própria família acaba desempenhando a função, o que não é o recomendável”. 

Portanto, a escola deve pedir junto à Prefeitura ou ao Estado profissionais capacitados para acompanhar seus alunos de inclusão. É preciso também estabelecer uma aliança forte entre escola, família e terapeutas para que juntos todos possam ajudar a criança ou adolescente a desenvolver suas capacidades, conhecer seus limites e dificuldades e também lidar com eles da melhor forma possível. 

 

*Alguns nomes foram alterados a pedido das fontes

 

 

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