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BNCC na prática: como garantir o direito de brincar na Educação Infantil

Esse direito pode fazer com que as crianças cresçam seguras e autoconfiantes em suas capacidades

POR:
Camila Cecílio
Criança negra sentada em uma sala de aula brinca com blocos coloridos
Foto: Getty Images

O reconhecimento da Educação Infantil como uma etapa essencial para a construção da identidade e da subjetividade da criança na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um salto histórico. O documento, que está em fase de implementação, garante, dentre diversos pontos, seis direitos de aprendizagem: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se, que, juntos, asseguram as condições para que as crianças aprendam em situações nas quais possam desempenhar um papel ativo.

Para colocar a criança no centro do processo, conhecendo suas maneiras de ser e estar no mundo, é preciso planejar o dia a dia na Educação Infantil tendo em mente os direitos de aprendizagem. NOVA ESCOLA traz uma série sobre cada um desses direitos com opiniões de especialistas e casos de professores e escolas que já trabalham para garantir, na prática, o cumprimento do que prevê a BNCC. Após falar sobre o direito de Conviver, é hora de explorar o Brincar.

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“Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais”. Definição na BNCC - MEC

Fernanda Flores, diretora da Escola da Vila, em São Paulo, avalia que, à medida em que as crianças crescem em um ambiente escolar no qual o brincar é fio condutor em diversos momentos, onde os profissionais educadores são brincantes, a infância ganha e as crianças crescem seguras e autoconfiantes em suas capacidades de relacionamento e aprendizagem. Cabe, portanto, à equipe escolar conceber propostas que considerem os tempos, espaços e materiais necessários para que as crianças possam conviver umas com as outras, explorando seu entorno físico, natural e social. “Assim, por meio da exploração decorrente das várias propostas, elas podem se expressar nos mais diferentes contextos, linguagens e interlocutores e, ao mesmo tempo, se conhecerem e se reconhecerem em suas preferências e maneiras de estar no mundo”, pontua.

Na hora de pensar contextos significativos de aprendizagem é preciso, sobretudo, ter clareza do papel do professor e do lugar que a criança ocupa como centro do processo ensino-aprendizagem, segundo Shirlei de Paula Perez Tirone e Andreia Cristina de Oliveira, coordenadoras de Ensino de Educação Infantil da Secretaria de Educação de São José dos Campos, interior de São Paulo. Para elas, toda e qualquer ação desenvolvida no contexto escolar deve ser envolta de intencionalidade educativa, o que requer reflexão, preparo e planejamento.

As coordenadoras concordam que, ao pensar o papel dos direitos de aprendizagem, mais especificamente o de brincar, é necessário partir do princípio de que brincar é um verbo que denota uma ação que já nasce com a criança. “A criança adquire conhecimento de mundo a partir do ato de brincar, interagir e experimentar”, avalia Shirlei.

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Grupo de crianças pequenas brincam com bolhas de sabão ao ar livre
Foto: Getty Images

Como o professor participa da brincadeira?

Desse modo, o brincar também deve ser considerado com intencionalidade pelo professor, que, por sua vez, acaba desempenhando o papel de curador e não apenas mediador entre o objeto de conhecimento e as propostas significativas de aprendizagem, de acordo com Shirlei. “O professor deve planejar experiências que tenham como objetivo a garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento, o protagonismo da criança e do professor, práticas cotidianas, a cultura da infância, do contexto de onde essas elas estão inseridas”, afirma. “A escuta do professor e a observação atenta devem fazer parte do cotidiano, o que amplia significativamente as possibilidades de trabalho focado nos direitos de aprendizagem”, complementa Andreia.

Fernanda Flores reforça que os educadores devem ter intencionalidade em seus planejamentos. Isso implica em refletir sobre o que se propõe e acompanhar as aprendizagens e o desenvolvimentos de seus alunos, o que alimenta o planejamento e garante mais conexão ao educador à sua turma. Para ela, a promoção dos direitos de aprendizagem na prática cotidiana das escolas deve ser tema de estudos e debates desde a direção até os profissionais de apoio no contexto real de cada escola e creche.

A especialista, mestre em Educação, diz que a conversa e o pensar constante sobre a prática por meio de perguntas deve nortear os momentos de planejamento dos professores em geral. Fernanda sugere perguntas como: Em minha prática, como tenho buscado garantir o brincar a minhas alunas e alunos? Quais brincadeiras vejo como as preferidas da minha turma, mas como posso expandir o repertório deles para que possam ampliar suas brincadeiras? Entendo como brincam de formas diferentes se participo das brincadeiras ou se monto ambientes e os observo a brincar, em que isso promove relações diferentes? 

E na prática, como é?

Idade: crianças de 0 a 2 anos

No CMEI Petrópolis, em Belo Horizonte, brincar é coisa séria. A escola municipal de Educação Infantil, que atende mais de 450 crianças de 1 a 5 anos, desenvolve projetos que colocam as brincadeiras no centro de vivências multiculturais. Com as menores (até 2 anos) o intuito é brincar explorando, principalmente, corpo, sons, cores e texturas. O aspecto da oralidade é o que norteia as vivências dos pequenos, segundo a coordenadora pedagógica Tânia das Graças Chaves. 

Objetivos de aprendizagem trabalhados 

  • Oralidade;
  • Movimento;
  • Interação;
  • Sociabilidade;
  • Vivências coletivas;

Aprendizados

  • Interagir com o outro;
  • Adaptar-se ao ambiente;
  • Sensação de pertencimento;
  • Sociabilidade;
  • Construção da identidade;
  • Construção da linguística

 

Idade: crianças de 3 a 5 anos

Já com as crianças maiores (de 3 a 5 anos), o CMEI Petrópolis desenvolve o projeto Mapa do Brincar, que acontece a partir de experimentações diversificadas. “O foco principal é o brincar, a vivência e experiências que a criança, muitas vezes, não tem em casa por não ter nem mesmo um quintal e o espaço da escola é a oportunidade para isso”, explica a coordenadora pedagógica.

O trabalho consiste em apresentar aos pequenos brincadeiras de outras culturas e reproduzi-las em sala. “Passamos um curta-metragem que mostrava crianças indígenas brincando com uma peteca que elas mesmas confeccionaram e, então, propomos aos nossos alunos fazer o mesmo”, conta. Além disso, o projeto resgata junto às famílias as brincadeiras de “antigamente”. “Pedimos a eles para perguntar aos pais ou responsáveis do que eles brincavam quando criança e eles trazem isso para a sala”, explica a coordenadora.

Objetivos de aprendizagem trabalhados

  • As potencialidades do brincar; 
  • Ação corporal;
  • Contextualização da rotina;
  • Oralidade;
  • Desenvolvimento integral.
  • Autonomia;
  • Diversidade no brincar.

Aprendizados 

  • Estímulo de todas as formas de linguagem;
  • Conhecimento de mundo;
  • Linguagem.

Confira outras dicas da psicóloga e mestre em Educação, Fernanda Flores:

1 – Conheça os materiais de sua escola

Veja o que pode conseguir com doações de materiais (sucatas, objetos fora de uso), e com coleta em parques de elementos da natureza (folhas, sementes, gravetos). Com esse conhecimento é possível explorar a montagem de espaços para brincadeira, observando como as crianças usam os mesmos, como brincam e a partir da observação, pensar como podem melhorar com a ajuda das crianças esses contextos que convidam ao brincar. “Por exemplo, fazendo juntos mobília para uma casinha, ou para brincarem de venda, de padaria, ou do que seja um contexto que faça sentido explorar da vida cotidiana das crianças e seus interesses, fazer um circo, montar uma casinha de lobo mau e porquinhos, enfim, a imaginação deve fluir entre educador e crianças”, sugere Fernanda Flores. 

2 – Proponha brincadeiras com contexto

Outra dica é propor brincadeiras com contexto narrativo conhecido das crianças por meio das histórias lidas para turma, por exemplo, se brincar com a história da Chapeuzinho Vermelho, ou dos Três Porquinhos, crie ambientes nos quais podem entrar nesse enredo e brincar usando os elementos que tanto gostaram e identificam nessas narrativas.

3 – Observe as brincadeiras

Observe as brincadeiras, o que falam as crianças, o que escolhem para se fantasiar e brincar, quais objetos usam e, a partir dessa coleta de observações voltem ao planejamento e pensem como podem ampliar esses contextos, o que podem propor para a turma participar dessa ampliação, o que podem construir juntos para a brincadeira seguir mais interessante. Ou seja, atue com a turma, conversando sobre o que estão gostando de brincar e o que podem inventar a mais para esses contextos.

4 – Olhe para o repertório da turma

Para além das brincadeiras de faz de conta, é importante olhar para o repertório da turma, o que conhecem de jogos e brincadeiras de regras, de tradição cultural que compete a geração mais crescida transmitir às novas gerações. Pega-pega, esconde-esconde, cirandas, brincadeiras com as mãos, entre outras tão ricas e interessantes, assim, destaque tempo no seu planejamento e converse com a equipe sobre quais dessas brincadeiras vão ensinar para as crianças como patrimônio imaterial que levarão para suas vidas, poderão ensinar a amigos e amigas de suas ruas, e futuramente a seus filhos ou filhas.

 

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