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“Desafios estão em todos os lugares, é melhor enfrentá-los”, diz ganhador do “Nobel da Educação”

O queniano Peter Tabichi contou à NOVA ESCOLA como consegue se manter motivado e gerenciar seu tempo para atender os alunos fora de aula

POR:
Flavia Nogueira
Peter Tabichi visitou São Paulo na quinta-feira
Foto: @MarianaPekin

O professor queniano Peter Tabichi, vencedor do Global Teacher Prize 2019, conhecido como o “Nobel da Educação”, chega à entrevista depois de um dia movimentado em São Paulo. Ele participou de um bate-papo ao vivo nesta quinta-feira, no Facebook da Fundação Lemann junto com a professora Débora Garofalo, da rede pública de São Paulo, a primeira mulher brasileira a chegar no top 10 do prêmio. Eles conversaram sobre formas de despertar o potencial de cada um dos alunos e o prazer de aprender.

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Entre um copo de água e um café, em entrevista à NOVA ESCOLA antes do evento, Peter falou sobre o que o motiva e recomendou que os professores brasileiros que estejam enfrentando desafios não desanimem.

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“Como professor, quando você enfrenta desafios, você não deve se decepcionar. Você deve continuar trabalhando duro, ajudando seus estudantes, sendo um mentor para eles. Desafios são como oportunidades. Eu passei por vários desafios, ir para a escola em uma moto, às vezes debaixo de chuva, a escola não tinha boas instalações. Mas, através desses desafios, percebi que poderia fazer mais pelos estudantes", disse.

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Para Peter os professores precisam perceber que o desafio não é um beco sem saída.

“Se você enxergar o desafio como o fim, você acaba fugindo. E desafios estão em todos os lugares, não apenas para os professores. O melhor é enfrentá-los, procurar uma solução, ser criativo e ter um comprometimento apaixonado com o trabalho.”

Peter dá aulas em uma escola do Ensino Médio no Vale do Rift, no Quênia, onde estudantes de diversas culturas e religiões enfrentam dificuldades como fome, drogas, gravidez na adolescência e abandono da escola.

Ao se deparar com este cenário, o professor fundou um grupo de formação de talentos e expandiu o Clube de Ciências. O resultado é que 60% dos estudantes são qualificados para competições nacionais. Os alunos da escola já ganharam vários prêmios, entre eles o da Royal Society of Chemistry, após aproveitar as plantas locais para gerar eletricidade.

O professor conta que o segredo é envolver os estudantes em várias atividades, não apenas relativas a Ciências.

“Uma delas é o Clube da Paz, com o objetivo de unir os alunos. Os estudantes vêm de tribos diferentes, origens, religiões. Então o Clube da Paz os uniu, trouxe paz entre eles e também para as famílias deles. Eles plantam árvores, realizam debates, fazem esportes, como corrida e futebol. Eles fazem estas atividades diferentes e envolvem a comunidade”, explica.

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Outro aspecto que Peter destaca é que ele trabalha para aumentar a autoestima dos estudantes, os motiva a se enxergarem como pessoas especiais. Além da autoestima, no Clube de Ciências, do qual Peter é o patrono, o foco é também fazer os alunos se sentirem “criativos e inovadores”.

“Com o Clube de Ciências eles foram tão bem nacionalmente e até internacionalmente. (O Clube) Permite que eles consigam habilidades como trabalho em equipe, colaboração."

No Clube de Ciências os alunos agora criam projetos de pesquisa de alta qualidade, tanto que 60% desses projetos conseguem se qualificar para competições nacionais. Peter foi o mentor de seus alunos em um projeto da Feira de Ciência e Engenharia do Quênia, em 2018, no qual os estudantes mostraram um dispositivo criado por eles que permite que pessoas com deficiência visual consigam medir objetos. A equipe de Ciências Matemáticas também se classificou para participar da INTEL - Feira Internacional de Ciências e Engenharia, na edição de 2019, no Arizona, Estados Unidos.

Desde que começou com estas atividades, o professor notou uma melhora não apenas no rendimento acadêmico e na autoestima dos alunos. As matrículas na escola dobraram em um período de três anos e os casos de indisciplina caíram de 30 registros por semana para apenas três. Em 2017, apenas 16 de 59 estudantes foram para o Ensino Superior. Em 2018, 26 estudantes conseguiram.

“Eles vão bem em outras áreas, o número de alunos que abandonam a escola caiu. Quando comecei há alguns anos era alto. Gravidez na adolescência também caiu. Tínhamos cinco casos por ano, e agora não temos mais. E isso significa que eles sabem o que eles precisam fazer nesta vida, eles estão focados”, conta. 

Motivação

O professor explica que boa parte da motivação para trabalhar depende do quanto você acredita nos alunos.

“Eu sempre fui otimista, eu acreditava que podia mudar a vida deles, revelar o potencial deles. Eu me motivava sozinho, ninguém me motivava. Posso até dizer que as pessoas faziam piada comigo. Mas eu acreditava nos estudantes, pensava no que eu queria alcançar e eu acreditava que eles poderiam alcançar. Quando eles sabem que você acredita neles, eles alcançam os objetivos que você quer que eles alcancem.”

O professor conta que precisava se manter motivado, pois muitos de seus colegas não acreditavam que ele conseguiria implantar seus projetos entre os estudantes. 

“Na verdade as pessoas me falavam que eu fazia tudo isso porque era novo naquele ambiente. E eles falavam: depois de um tempinho ele vai ser como nós. Mas eu continuo a mesma pessoa. Acho que é preciso se motivar sozinho, sabendo que o que você está fazendo como professor é ótimo. O seu papel para as crianças, é como se você estivesse com o futuro delas em suas mãos. Se todo professor percebesse isso...”

Peter afirma que os professores precisam saber que podem contribuir e não apenas esperar que o diretor da escola ou o governo façam algo. Mas, o professor também lembra que é importante trabalhar em equipe, com outros professores. “Você precisa do apoio deles.”

“Tento conversar com os professores, uma conversa amigável sobre as questões da profissão, sobre o que os motiva, o que eles podem fazer. Eles sabem o quanto conseguimos fazer em nossa escola. Uso isso para os encorajar a trabalhar duro. Os encorajo a amar o trabalho deles com um comprometimento apaixonado, é o que faço e os ajudo a fazer isso”, afirma.

Gerenciamento de tempo

Peter e os outros professores da Escola de Ensino Médio Keriko, no vilarejo de Pwani, costumam dar aulas de reforço de Matemática e Ciências para estudantes que estão com dificuldades, fora do horário de aulas e até durante os finais de semana.

Quando perguntado quando consegue dormir e se consegue chegar a dormir oito horas, o professor ri.

“Sim, eu consigo dormir muito bem! Mas eu consigo isso gerenciando meu tempo. Eu planejo meu tempo: quando volto para casa eu tenho tempo para rezar, eu tenho tempo para jantar com as pessoas, nós conversamos. Depois disso, eles sabem que preciso planejar minha aula ou me preparar.  O truque é que você precisa se planejar e seguir este plano. Por exemplo: às sete eu vou jantar, nesta hora vou tomar banho... Siga a agenda.”

No entanto, ele reconhece que é preciso se sacrificar.

“Como professor você não apenas dá aula e vai embora, volta para casa, senta e espera o salário vir no fim do mês. Para conseguir algum resultado bom, você precisa se sacrificar, eu tenho que ir além. E é isso que faço, em casa, durante o fim de semana, feriados. Na semana passada, visitei algumas casas de estudantes. Com isso, você se encontra com os pais e eles compartilham com você os desafios que os estudantes estão enfrentando. O relacionamento entre pais, professores e estudantes é mais forte (com essas visitas)”, conta.

Peter doa 80% de seu salário para ajudar seus alunos com uniformes e material escolar na Escola de Ensino Médio Keriko e contou que pretende manter essas doações.

“Sou um franciscano, este é o nosso modo de vida, simplicidade e doação. Acredito no poder da doação, quando você doa, você recebe bênçãos. Esta é a minha fé, o que me motiva. Quando eu ajudo meus irmãos, eu também estou sendo ajudado. É preciso chegar até os outros, se preocupar com os outros, compartilhar, respeitar, doar, amar o próximo. Sou guiado por isso. Você precisa amar e demonstrar amor”, explicou.