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Faltam para  

Como escolher livros do Infantil ao Fundamental 2?

A diversidade de experiências e a forma de apresentar aos alunos são destaques entre os critérios de escolha

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

As férias podem ser uma oportunidade para relaxar e colocar a leitura em dia. Para unir o útil ao agradável, que tal aproveitar para conhecer novas obras e repensar o repertório literário que você pode levar para seus alunos? 

Na hora de escolher, é essencial pensar na diversidade do repertório apresentado aos alunos, ou seja, variar entre grandes nomes da literatura e autores contemporâneos, gêneros literários, tamanho e estilo do livro.

Para permitir essa variedade é preciso rever o espaço que a literatura tem no planejamento. “A escola precisa posicionar a leitura como algo importante e criar uma proposta de ensino“, aponta Elizabeth Cardoso, professora do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. Segundo ela, ao diminuir o tempo da leitura, o professor acaba priorizando o clássico, “mas se é dado o tempo que ela merece, dá para diversificar. São pequenos gestos que aumentam esse contato da criança com o livro. Dar mais tempo à leitura e um acesso à biblioteca são algumas ações possíveis”. 

Os livros escolhidos devem trazer uma diversidade de ideias e promover a reflexão do leitor a respeito do assunto trabalhado sem se restringir a única conclusão. “Os bons textos trazem o ensinamento de uma forma mais aberta para que o aluno complete a história com a sua própria vivência”, afirma Marcelo Ganzela, coordenador do curso de Letras do Instituto Singularidades e professor de Didática da Literatura Infantojuvenil. 

A literatura, porém, deve “brilhar” por si só. Utilizar a leitura como meio para trabalhar um determinado assunto enfraquece a experiência literária, na opinião de Maria José Nóbrega, professora de Pós-graduação no Instituto Vera Cruz. “A literatura é arte em primeiro lugar”, defende. Ao empurrar livros para os alunos como parte apenas de um trabalho escolar, sem pensar em como tornar a leitura uma experiência, faz com que esse conteúdo se transforme em obrigação.

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Antes de propor as obras, é importante refletir sobre o perfil da turma e treinar o olhar para os livros. Vale lembrar que é sempre uma aposta e a escolha pode não ser acertada, o que não quer dizer que seja um desperdício. “O mediador [professor] tem que ter em mente que o aluno pode não gostar e está tudo bem”, explica Elizabeth Cardoso. “Não é tempo perdido porque podem surgir diálogos divergentes de por que gostou e por que não. É a oportunidade de criar um repertório de um leitor experiente que sabe escolher suas obras e tem uma opinião literária”, explica Elizabeth. 

Para te ajudar a treinar o olhar, veja algumas orientações do que ter em mente para escolher livros para turmas da Educação Infantil, Fundamental 1 e 2:

EDUCAÇÃO INFANTIL

O QUE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO NA HORA DE ESCOLHER?

Ao pensar em livros para a Educação Infantil imaginamos aqueles grandes livros ilustrados. No entanto, não é qualquer um que vale ser trabalhado. É preciso ser criterioso ao escolher. 

Um primeiro ponto de atenção é a ilustração. A imagem não é apenas um suporte ou “apenas para ficar bonito”, precisa acrescentar à história.  Outro ponto é a linguagem. Apesar dos alunos ainda não serem alfabetizados e da importância da ilustração, narrativas envolventes e um vocabulário rico são essenciais. 

Pensando nas histórias, é interessante que os temas temas incentivem a imaginação e tratem sobre as emoções. Elizabeth Cardoso defende que livro não precisa ter uma mensagem, mas precisa ter uma postura ética e trazer diversidade.

Nessa etapa também é importante levar em consideração a resistência dos livros para permitir que as crianças manuseiem livremente, mas sem se restringir ao formato do livro-brinquedo – obras interativas que permitem uma experiência visual e sensorial –, mas oferecer obras com diversas características físicas. 

Os livros-álbum – proposta em que a relação entre a imagem e o texto produzem a narrativa – são apostas interessantes, pois permitem uma rica experiência literária. Outra possibilidade são os contos cumulativos, nos quais a história tem uma frase que se repete e os elementos são acrescentados seguindo a mesma ordem. 

À medida que as crianças vão crescendo, o repertório deve ser ampliado, mas os critérios de escolha são parecidos.

COMO TRABALHAR COM ESSES LIVROS?

Crédito: Getty Images

É importante refletir sobre o percurso da proposta. Antes da leitura, o professor deve ler atentamente, conhecer a fundo a obra, antecipar os possíveis comentários dos alunos e pensar como vai apresentar o livro aos alunos. “É muito importante planejar o espaço, como vai acolher as crianças, se vai ser uma roda [de leitura], como será organizado aquele momento para que seja prazeroso, se vai ser participativo e se as crianças poderão manusear o livro”, explica Nilcileni Brambilla, mentora dos planos de aula da NOVA ESCOLA e professora de Educação Infantil na rede municipal de Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo.

O professor precisa permitir que a criança se aproxime do livro, que ela se envolva e participe do momento, não seja apenas ouvinte. É interessante permitir que manuseiem o livro para enriquecer a experiência proporcionada pela leitura, por isso, livros mais resistentes e com capas duras são adequados para a etapa.

Depois da leitura surge a oportunidade de criar uma relação de sentido com a história que as crianças conheceram com sua própria vivência. Para isso, Elizabeth dá algumas sugestões: “Promover um diálogo respeitoso com a criança sem impor conclusões; ouvir o que a criança tem a dizer e encaminhar essas opiniões; e respeitar o tempo de cada um”.

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ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

O QUE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO NA HORA DE ESCOLHER?

Crédito: Getty Images

A diversidade é essencial. A literatura permite que os alunos entrem em contato com diferentes gêneros literários e temáticas. “É importante oferecer uma experiência artística e literária, não apenas de conteúdo”, explica Elizabeth.

Ao pensar nos anos iniciais do Fundamental, dois tipos de livros vêm à mente: aqueles ligados à tradição oral como, por exemplo, livros que trazem cantigas e trava-línguas; e os que exploram a prosa, com contos de fadas e fábulas.

As obras que trabalham a tradição oral estão relacionadas com uma leitura mais poética, o destaque da oralidade e elementos da brincadeira. Na hora de fazer a escolha, é necessário avaliar os recursos linguísticos que o livro apresenta para a criança. “São recursos que serão explorados na escrita e aparecem nesse gênero como o ritmo, rimas, repetição de sons, metáfora e polissemia”, explica Maria José Nóbrega.

Dentro da prosa há diversos gêneros a serem explorados, mas é preciso estar atento à estrutura da narrativa, personagens, construção da trama e desfecho. “As crianças começam a ter contato com a estrutura narrativa que depois estará presente nos textos autorais”, afirma a especialista.

Apesar do texto ganhar força nesta etapa, não significa que a ilustração fique em segundo plano. A imagem não é um detalhe, mas um complemento do texto. “Tem que pensar que a ilustração não é só para facilitar, ela é uma linguagem que precisa ser interpretada e tem propostas sofisticas e exigentes. É importante educar para uma leitura para além da palavra”, afirma Maria José.

Os livros-álbum e os contos cumulativos – apresentados na Educação Infantil – podem ser instrumentos interessantes para os primeiros anos do Fundamental 1. “Se o texto tem uma repetição, ela favorece a criança que está em processo de Alfabetização porque a estrutura se repete”, diz Maria José. “Na segunda vez que aparece, o aluno apenas precisa decifrar o novo elemento. É como se meia tarefa estivesse pronta”. É uma forma de melhorar a autoestima do aluno, pois ele se sente capaz e instigado a enfrentar novos desafios no processo de Alfabetização.

Mesmo que não consiga ler, a criança consegue fazer a leitura da imagem e entender a história. “É uma oportunidade de dar autonomia à criança, mesmo sem que ela saiba ler fluentemente”, afirma. Além de manter contato com a cultura escrita, nesse momento o aluno está desenvolvendo habilidades de leitura como a melhor posição para segurar o livro, como passar as páginas e a ordem de leitura.

Apenas repassando, o tema não pode ser a única coisa a se levar em conta na escolha do livro. Boas narrativas que dialoguem com os sentimentos ou conflitos que as crianças venham a lidar em seu dia a dia podem ser uma escolha interessante. Nessa linha, Maria José Nóbrega aponta que as narrativas de aventura ganham força nessa etapa e as histórias com protagonistas animais favorecem a reflexão. “Permite lidar com os sentimentos das crianças como o medo de dormir ou a mudança. Para eles, é mais fácil ver isso em um personagem que é um animal do que um personagem humano”, explica.

COMO TRABALHAR COM ESSES LIVROS?

Não é possível deixar de pensar que no começo da etapa as crianças estão em processo de Alfabetização, mas isso não quer dizer que a leitura não faz sentido. A leitura mediada pelo professor permite que a criança não alfabetizada crie curiosidade pela palavra escrita e se desafie. “O aluno pode não ler ainda com autonomia, mas não quer dizer que não consegue compreender textos que não consegue ler”, explica Maria José.

Conforme os avanços, é importante ter cuidado para não concentrar a leitura no professor e dar espaço para que o aluno leia sozinho. “Tem uma diferença entre o que o aluno é capaz de entender lendo sozinho e com a mediação”, afirma a especialista. Mesmo que a criança já seja alfabetizada, é preciso ter em mente que ler exige mais do que decifrar signos gráficos. “É um erro achar que a criança alfabetizada pode ler qualquer livro totalmente sozinha. A complexidade da obra não é apenas pela questão linguística, mas pelas referências culturais que compõem aqueles significados”, explica Maria José. Por isso, equilíbrio entre autonomia e mediação é essencial.

O professor deve avaliar o grau de mediação necessário para cada criança e entender o que o aluno precisa saber para compreender aquela história. Uma possibilidade é trabalhar essas referências antes da leitura dos alunos.

No caso de narrativas mais longas divididas em capítulos ou dos clássicos da literatura, Maria José Nóbrega afirma que o começo é a parte mais delicada e a leitura compartilhada pode ser um convite para que o aluno continue sozinho. “Se a leitura dos primeiros capítulos for compartilhada pode ser bom para chamar a atenção dos alunos, que criam esse desejo de ler a história”, diz.

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ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL 

O QUE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO NA HORA DE ESCOLHER?

A partir dessa idade, os alunos já têm uma opinião mais formada de seus gostos e interesses pessoais. O professor, portanto, precisa ter um olhar atento e mapear o perfil dos alunos, saber sobre o que eles falam, o que assistem e o que consomem. “O aluno que já é um leitor pode ser provocado fora de suas preferências, mas para um leitor resistente é necessário estar dentro de suas preferências”, explica Elizabeth Cardoso. “Não cabe querer forçar livros que nós achamos interessantes. Para não afastar os alunos, é importante ouvir o que eles têm a dizer”.

A primeira dica é fazer uma curadoria de livros adequados a adolescentes, ou seja, que não sejam nem muito infantis, nem muito adultos. “Esse adolescente não quer ser visto como uma criança, ele quer se afastar desse universo”, afirma Marcelo Ganzela.

Uma característica comum é que os livros infantojuvenis sejam protagonizados por jovens e não crianças ou adultos. A representatividade é muito importante nessa etapa por ser um momento de muito conflitos, então se enxergar nesses livros que tratam sobre esse momento da vida pode auxiliar na vivência do aluno.

Encontrar esse meio-termo entre o infantil e o adulto também vale para a linguagem. Então, que seja uma escrita desafiadora sem ser muito adulta.

E os best-sellers infanto-juvenis? Eles podem entrar na sala de aula? Marcelo Ganzela diz que é possível abraçar essas obras e fazer disso um exercício de leitura. “A leitura crítica não é apenas dos clássicos, mas pode ser feita com qualquer texto”, afirma. No entanto, o professor não deve se restringir a esses livros por serem algo que os jovens podem gostar mais, mas sim intercalar obras entre escolhas do professor e do aluno. Ou seja, permitir que o aluno tenha contato com referências variadas desde os contemporâneos até os clássicos, passando por gêneros variados como, por exemplo, histórias em quadrinhos.

COMO TRABALHAR COM ESSES LIVROS?

Crédito: Getty Images

O papel do professor é de mediar a leitura. Ele apresenta os textos, ouve atentamente e questiona os alunos para ajudar a iluminar detalhes do texto. Durante a leitura, o professor pode chamar a atenção do aluno para a estrutura da narrativa, as dimensões dos personagens, os temas trabalhados pela obra e refletir com ele sobre a linguagem utilizada. “Esse diálogo permite aprofundar as camadas da leitura”, afirma Marcelo.

Ter em mente que uma obra pode ter diversas interpretações é essencial e pode ser usado em favor da aprendizagem ao promover discussões em sala de aula. “É preciso dar legitimidade às leituras que o aluno faz, por isso é importante estimular o aluno a procurar elementos do texto que fundamentem sua interpretação”, diz Rafael Palomino, professor de Língua Portuguesa no Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

Nessa apresentação, o coordenador de Letras do Instituto Singularidades sugere que o professor pense em trilhas para convidar os alunos a conhecer a obra. Partindo desse ponto, o professor pode pensar em atividades lúdicas relacionadas com o livro ou até decorar a sala como parte da experiência da leitura. “Sair de uma postura seca, para que o primeiro contato com cada livro seja um evento diferente”, aponta.

A partir da ideia de fazer com que o aluno entenda o que está consumindo, se existir na turma um aluno ou um grupo que está lendo um livro ou que conversa muito sobre um gênero como, por exemplo, mangás ou HQs, uma estratégia interessante é permitir que eles apresentem essa leitura para a sala e convidem os colegas para conhecer mais sobre o que gostam de ler. “É uma oportunidade de permitir maior protagonismo e que os alunos assumam uma co-mediação da leitura. Além de leitores, são pessoas que incentivam a leitura”, explica Marcelo Ganzela.

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