Balbúrdia e ideologia de gênero: ex-ministro critica políticas de Educação de Bolsonaro

O general Santos Cruz afirmou que “teria de baixar muito o nível” para comentar as falas de Olavo de Carvalho e que “faria diferente” do presidente em várias questões

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Camila Cecílio
O general Santos Cruz conversa com jornalistas durante o Congresso da Abraji   Crédito: Augusto Godoy/Oboré

Demitido do cargo de ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República há pouco mais de dez dias, o general Santos Cruz criticou nesta quinta-feira (27/06) as políticas educacionais do atual governo. Questionado se a preocupação do Ministério da Educação em balbúrdia e ideologia de gênero estaria contribuindo para a solução dos problemas educacionais no país, o ex-ministro afirmou que “faria diferente”, embora tenha garantido não ter conhecimento algum sobre a área. 

Santos Cruz foi o entrevistado do primeiro dia do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo. Dentre vários assuntos discutidos, o general defendeu que o governo precisa estancar a corrupção, reduzir a "imoralidade salarial" que, segundo ele, existe na gestão pública e investir no que chamou de “uma Educação séria”. “O que tem que ser reforçado? O respeito, a honestidade, o patriotismo, que as crianças têm que respeitar e ajudar o pai e a mãe, que tem que ser trabalhadoras, não ficar preocupadas com gênero e não sei o quê”, afirmou. 

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Para ele, ideologia de gênero não é algo científico, mas sim “uma teoria que foi proposta e absorvida pela sociedade” e que o termo, por si só, “já é problemático”. “Não tem nada a ver com o respeito que você tem que ter com a ‘opção sexual’ de cada um depois de adulto. Ideologia é uma coisa, respeito a opção sexual é outra”, reforçou.  

Demissão, Reginaldo Rossi e “os Bolsonaro”

O general Santos Cruz foi demitido no último dia 13, mas disse não saber o motivo de sua saída e ironizou a situação ao citar um trecho da música “Garçom”, do cantor e compositor Reginaldo Rossi: “meu caso é mais um, é banal”. A demissão teria sido motivada por desentendimentos entre os grupos dos militares e o dos seguidores do ideólogo Olavo de Carvalho, que tem influência sobre o presidente Jair Bolsonaro.  

O militar foi enfático ao dizer que teria que “baixar muito o nível” para fazer comentários sobre Carvalho e a influência do vereador Carlos Bolsonaro (PSC) sobre o pai. “Não vou discutir sobre essas personalidades públicas, porque, senão, eu teria que baixar muito o nível do meu palavreado”. No que diz respeito à atuação dos filhos do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais, Cruz se limitou a dizer que não iria comentar. “Vocês estão vendo”, respondeu à plateia que acompanhava a entrevista. 

O general Santos Cruz em reunião com o presidente Jair Bolsonaro: "faria diferente"   Crédito: Alan Santos/PR

Comunicação, fake news e redes sociais

Em uma posição diretamente ligada à comunicação do governo, o ex-ministro comentou sobre a relação de Bolsonaro com a imprensa. Ao ser questionado sobre a postura do presidente de enfrentamento à imprensa, Santos Cruz avaliou que é preciso “fazer distinção entre aquilo que é válido e o que não é”. “Se você generaliza acaba criando um tumulto de relacionamentos que resulta em uma insegurança na sociedade”, afirmou. 

Sobre fake news e informações sem procedência confiável que circularam nas redes sociais e aplicativos de troca de mensagens, o general reconheceu que existe “uma quantidade imensa de notícias falsas” em circulação e que é de responsabilidade da Polícia Federal investigá-las. “O jornalismo investigativo vai ter que ser investigativo ao quadrado porque está competindo com uma massa de gente irresponsável, que não tem limite na hora de inventar coisas. A investigação tem que ser mais profunda”, observou. 

De todo modo, para ele, a melhor forma de comunicação ainda é a que se faz pessoalmente, cara a cara, ao invés de usar a internet. “A tecnologia não pode substituir o contato pessoal”, pontuou, se referindo à atuação do presidente Jair Bolsonaro, criticado por “governar pelo Twitter”, tamanha a frequência com a qual faz anúncios oficiais do governo por meio de sua conta na rede social.   

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Fanatismo, teoria da conspiração e “vagabundismo”

Ainda sobre ideologia, o militar disse ser contrário a qualquer tipo de fanatismo, seja ele de “direita ou esquerda”. Sobre possíveis teorias conspiratórias e paranoias que pairam sobre o governo, Santos Cruz disse não compartilhar o mesmo pensamento que algumas figuras públicas. “Eu não tenho nenhuma [paranoia]. Acho que o fanatismo e comportamento ideológico tira a capacidade de análise do sujeito. Sujeito ideologizado perde a capacidade de analisar”, afirmou.   

Cruz disse que, por ter vivido tanto na Rússia quanto nos Estados Unidos, conhece as consequências de sistemas políticos e econômicos como o comunismo, o socialismo e o próprio capitalismo. “A gente desenvolveu muito o ‘vagabundismo’, então tem que tomar muito cuidado com essa parte ideológica. Para analisar as opções políticas você não pode estar ideologizado, senão você não enxerga nada. É preciso ter princípios”, defendeu. 

Apoio e saída

O general explicou, ainda, que apoiou o então candidato à presidência Jair Bolsonaro pela proposta e pelo momento. “O Brasil vinha traumatizado com tanto escândalo de corrupção. A sensação que tenho é a de que o Brasil foi assaltado, teve um arrastão como aqueles de Ipanema. Ele tinha uma proposta de estancar essa corrupção e de fazer uma virada na segurança pública, o que é mais complexo. E eu não tinha nenhuma afinidade com o outro candidato”.

Após sair do cargo, Santos Cruz publicou uma carta de agradecimento a colegas de governo na qual se limitou a desejar à família Bolsonaro “saúde, felicidade e sucesso”. “Mesmo saindo, eu estou torcendo pelo governo”, finalizou. 

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