Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Com quantas relações se constrói uma sala de aula?

Veja como favorecer a relação entre alunos e professor com pequenas atitudes positivas

POR:
Mara Mansani
Cinco crianças bagunçam na sala de aula ao redor da professora, de casaco azul e camisa branca. que está de cabelo preso, olhos fechados e mãos tapando os ouvidos
Crédito: Getty Images

Você já deixou de desenvolver atividades planejadas por causa de conflito entre alunos, ou por situações que fugiram ao seu controle? Muitos de nós já passamos por isso e nos sentimos frustrados e preocupados em "perder" esse tempo precioso de aula que deveria ser utilizado no processo de aprendizagem dos alunos.

Fazer a gestão de sala de aula não é uma tarefa fácil, afinal, são muitos pontos a se considerar e combinar com a turma para que tudo funcione bem, como o tempo, a organização dos espaços, a distribuição e as opções de atividades, as metodologias empregadas, as interações entre a turma, o papel e a participação de cada um (professor e alunos), a rotina, etc. 

Só nos damos conta de tudo isso na prática, em sala de aula, quando esses desafios estão impostos. Tanto faz se é um professor em início de carreira ou mais experiente, todos nós temos dificuldade nessa gestão. Talvez, a comunicação seja um dos pontos mais difíceis e importantes de se trabalhar. Muitas vezes reclamamos do barulho excessivo em sala de aula, das conversas fora de hora, da gritaria, mas nós, professores, também contribuímos para esse ambiente ser estressante quando, de maneira contraditória, gritamos tentando nos fazer ouvir ou quando não criamos em sala espaço e tempo de fala e escuta.

Um dia, em aula, me dei conta de como era agressivo quando as crianças não estavam fazendo as lições e eu falava "Acorda, menino!". Eu não falava mais alto nem gritava, mas não é porque a comunicação era doce que o que eu falava era adequado. Não é certo fazer o que eu fazia, e reconhecer e mudar esse tipo de atitude é difícil. Pedi para a turma me ajudar, e a cada vez que repetia o "Acorda, menino", eu ouvia de volta em uníssono: "Presta atenção, professora!". Não tinha percebido antes o quanto eu repetia isso. Mudei minha abordagem com os alunos e fiquei mais atenta.

Pode parecer pouca coisa, mas não é. Nossas falas podem contribuir positivamente ou negativamente até mesmo na visão que os alunos têm de si mesmos. Infelizmente, já ouvi tanto na época em que eu era aluna como quando comecei a lecionar coisas como “Você não faz nada direito, mesmo!”. As falas de minhas professoras, principalmente as negativas, marcam minha memória até hoje.

Há, ainda, outras ações que podem contribuir positivamente para uma boa comunicação e a construção de boas relações em sala de aula: as rodas de conversa, as assembleias e os combinados de fala com a turma. Nas minhas turmas de alfabetização, sempre combinamos que, se alguma criança atropela a fala do colega, exigindo minha atenção, digo com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo: "Agora não é a sua vez, estou falando com o seu colega. Respeite a fala dele e espere a sua vez".

E não basta ouvir e dar vez às falas dos alunos. Precisamos entender e respeitá-las. Não faz sentido prolongar discussões com os alunos, “bater boca”, esperar o entendimento de questões complexas para crianças compreenderem. E quantas vezes fazemos isso, não é mesmo?

O sentimento de pertencimento ao grupo também é outro fator preponderante. Quando os alunos se sentem parte do time, valorizam seu papel na turma, há um esforço coletivo para manter o bem estar. Quando a turma é desafiada a resolver um problema ou a colaborar em ações que podem transformar a escola ou a comunidade, é natural que fique mais engajada, propensa a dar o seu melhor. Propor e orientar esse tipo de  projeto coletivo é nosso papel!

Vi ações coletivas capazes de transformar escolas, diminuir a violência e a falta de disciplina com mutirões para construção de hortas, jardins e espaços de leitura. Se você não consegue ainda engajar toda a sua escola, comece essa transformação em sua sala de aula.

Cada turma tem uma realidade diferente e novas necessidades vão surgindo. Temos que buscar apoio em nossas escolas e aprender estratégias para melhor gerir nossa sala de aula. Venho repensando meu papel como gestora desse ambiente e fazendo pequenas mudanças onde consigo.

E vocês, professores, como fazem essa gestão de sala de aula? Como estão as relações com seus alunos e entre eles? Compartilhe suas experiências!

Um abraço e até semana que vem,

Mara Mansani

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