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O Brasil está mais ansioso. E você, professor?

O Brasil possui o maior número de pessoas ansiosas do mundo. Como será que esse transtorno pode afetar estudantes e profissionais da Educação?

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Crédito: Getty Images

Quando o assunto é ansiedade, o Brasil é líder no continente latino-americano. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a ansiedade atinge 18,6 milhões de brasileiros, o equivalente a 9,3% da população. As mulheres sofrem mais ansiedade que os homens: 7,7% delas são ansiosas, enquanto que, entre o público masculino, a porcentagem cai para 3,6%. Frente a tais dados, cabe refletir como esse transtorno pode afetar a vida de professores e estudantes. 

Transtornos de Ansiedade

Ser professor no Brasil implica muitas vezes em trabalhar em mais de uma escola, gerenciar o comportamento em sala de aula, equilibrar o excesso de tarefas, atuar por longas horas, lidar com o desrespeito e atentar-se às necessidades acadêmicas e emocionais de cada aluno, fatores que podem causar ou intensificar a ansiedade. Nos alunos, a ansiedade pode se manifestar por insegurança extrema diante de avaliações, excesso de perguntas, perfeccionismo e sensibilidade em relação ao comportamento ou aos comentários de outros alunos.

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Para Cristiano Nabuco, psicólogo do Instituto de Psiquiatria da USP, a depressão é um excesso de passado, enquanto que a ansiedade é um excesso de futuro. A ansiedade natural é temporária, pois desaparece quando a situação de perigo real acaba e podemos dizer que ela é saudável, pois nos auxilia a agir com cuidado perante acontecimento do dia-a-dia que requerem cautela. Já quando sintomas como preocupação excessiva e persistente, pensamentos de cunho negativo, formigamento e respiração acelerada, sintomas físicos como palpitação e a presença de comportamentos que afetam a rotina do indivíduo se tornam frequentes e com maior duração, trazendo sofrimento e comprometendo a vida da pessoa, é preciso investigar se há algum transtorno de ansiedade.

Os principais transtornos de ansiedade são:

Transtorno de ansiedade generalizada (TAG): caracteriza-se pela preocupação excessiva, persistente e incontrolável sobre acontecimentos negativos que têm chances muito pequenas de ocorrer;

Fobia social: um dos transtornos mais comuns da infância cujos sintomas mais comuns são o incômodo excessivo em situações nas quais há proximidade com outros indivíduos e o medo de comportar-se de forma humilhante nesses momentos. Os principais sintomas físicos são sudorese, tremedeira, boca seca, falta de ar e a vontade de urinar com maior frequência;

Fobias específicas: é um termo mais amplo para diversos tipos de inquietação que surgem a partir da presença e antecipação de um medo irracional relacionado à exposição de situações ou objetos específicos;

Transtorno de pânico: ocorrência repentina, súbita e inexplicável de crises de ansiedade agudas somadas a medo excessivo, desespero e sintomas emocionais aterrorizantes, levando a pessoa a achar que pode morrer, que enlouqueceu ou que perdeu o controle sobre si mesma;

Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC): a principal característica do TOC é a presença de crises frequentes de pensamentos obsessivos, repetitivos e, em alguns casos, comportamentos compulsivos e repetitivos; 

Transtorno de estresse pós-traumático: conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais em decorrência de o portador ter sido vítima ou testemunha de atos violentos ou de situações traumáticas que, em geral, representaram ameaça à sua vida ou à vida de terceiros.

De acordo com o livro Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber, a ansiedade é um termo extenso que engloba um estado de preparação para enfrentar situações de perigo. A maneira como esse estado se manifesta depende do processamento de informações consideradas ameaçadoras que interagem no nosso sistema via um sutil equilíbrio de substâncias químicas denominadas neurotransmissores. As substâncias químicas mais importantes nesse processo são a serotonina (responsável pela sensação de bem-estar) e a dopamina (principalmente associada ao mecanismo de recompensa no cérebro). O cérebro, ao entender que estamos em uma situação que representa perigo, libera altas doses do hormônio cortisol (substância vinculada na reação ao estresse) e de outros neurotransmissores. 

Como lidar com a ansiedade?

Segundo Jill Euberg, pesquisas indicam que a ansiedade entre professores costuma ser mais alta que em profissionais de outras áreas. Segundo os resultados, 61% dos professores reportaram que sua carreira é “sempre” ou “quase sempre” estressante, o dobro da taxa de outras profissões. Para a pesquisadora, há algumas estratégias interessantes que os professores podem adotar para reduzir a ansiedade. A primeira delas é a prática de exercícios de respiração e de mindfulness (que inclui meditação), já que a ansiedade costuma ser causada pela preocupação excessiva com o futuro e tal prática auxilia trazer o foco para o presente e tem impactos positivos para o cérebro que são cientificamente comprovados. A segunda estratégia é buscar um núcleo de apoio entre professores, já que a maioria desses profissionais não costuma compartilhar seus sentimentos relacionados à ansiedade. Se conectar, compartilhar e falar sobre os sentimentos pode trazer grande alívio para os desconfortos diários. A terceira estratégia é identificar quais são as coisas que te fazem bem – como exercícios físicos e atividades de lazer, por exemplo – e delimitar um tempo específico na agenda para incluí-las.

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A psicoterapia, em suas diversas modalidades, é uma ótima alternativa para que o indivíduo manifeste os sentimentos que trazem angústia, discuta suas crenças negativas e atribua o peso e a dimensão adequados aos seus desafios. Quando a ansiedade se torna crônica e o indivíduo sente que perdeu o controle das suas emoções, pode ser necessário o uso de medicações, tais como ansiolíticos e antidepressivos, que devem sempre ser receitados e acompanhados por um médico psiquiatra.

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Atualmente, há uma grande discussão sobre o impacto das distorções cognitivas na formulação dos nossos pensamentos, o que pode intensificar quadros de ansiedade. A teoria proposta pelo psiquiatra norte-americano Aaron Beck defende que pensamentos exagerados ou irracionais podem ser identificados pelo indivíduo, para que ele possa fazer o exercício de reconhecer e desafiar tais pensamentos. Por exemplo, Tirar conclusões precipitadas, uma dessas distorções, implica em chegar a conclusões (normalmente negativas) a partir de pouca ou nenhuma evidência. Já a Personalização, significa atribuir somente a si a culpa por fatos negativos. Estudos nessa área mostram que a eliminação dessas distorções cognitivas – a reformulação desses pensamentos – aumenta a sensação de bem-estar e ajuda a prevenir doenças como depressão e ansiedade crônica.

 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha como consultora de projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

 

Referências Bibliográficas

 

Bagnell, A.L. Anxiety and separation disorders. Pediatr Rev, v.32, n.10, p.440-445, 2011.

Brasil vive surtos de depressão e ansiedade  

Como controlar a ansiedade? De onde ela vem?

Definição de transtorno de estresse pós-traumático

Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber. Gustavo Estanislau, Rodrigo Affonseca Bressan (Organizadores).  Porto Alegre: Artmed, 2014.

Six strategies to relieve teacher anxiety (Jill Eulberg)

Vencendo a ansiedade e a preocupação com a Terapia cognitivo-comportamental: Tratamentos que funcionam - Manual do Paciente. Aaron T. Beck , David Clark e outros. Porto Alegre: Artmed, 2012.

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