Pisa para Escolas: o que é e como vai funcionar no Brasil

A prova segue o modelo de avaliação do Pisa e permite às escolas comparar seu desempenho com a nota nacional de países como Finlândia, Japão e Canadá

POR:
Paula Salas
Crédito: Unplash

O Pisa para Escolas é uma prova derivada do Pisa e pensada para que instituições de ensino avaliem seu desempenho em uma escala internacional. A avaliação já foi aplicada em 10 países e agora chega ao Brasil. Um acordo firmado entre a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Fundação Cesgranrio, que terá o direito de aplicar a prova em território nacional até 2020.

A adesão é voluntária e são avaliados alunos de 15 anos do 1º ano do Ensino Médio. A prova segue os moldes do Pisa, avaliando Leitura, Matemática, Ciências e habilidades socioemocionais. Além de questões de múltipla escolha, há 44 questões dissertativas. Os alunos também respondem um questionário que investiga o clima escolar, o contexto socioeconômico, a relação entre professores e alunos, entre outros assuntos.

Neste ano, o Brasil terá sua primeira edição oficial da prova, mas o teste já havia sido aplicado anteriormente em 2017, durante o projeto-piloto financiado pela Fundação Lemann, mantenedora da NOVA ESCOLA, com 13 escolas particulares e 33 públicas, das quais 23 eram da cidade de Sobral, no Ceará, reconhecida por seus ótimos resultados em exames de avaliação. Os resultados encontrados foram diferentes da realidade pintada pelo Pisa, na qual o Brasil ocupa as últimas posições no ranking - 63ª posição em Matemática, 58ª em Leitura e 65ª em Ciências. Em nota divulgada à imprensa, o Centro Paula Souza divulgou que quatro de suas escolas técnicas tiveram resultados equivalentes ou superiores aos de países desenvolvidos.

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“O nosso Pisa para Escolas mostrou que mesmo escolas com nível socioeconômico mais baixo podem ter um desempenho alto. Algumas escolas que participaram do teste registraram desempenho acima de França e Inglaterra. Significa que nós temos escolas de excelência. Nós não somos tão ruins quanto o Pisa amostral revela”, afirma  Nilma Fontenive, coordenadora do Centro de Avaliação da Fundação Cesgranrio e vice-presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) desde 2016. Ela acrescenta, no entanto, que isso se dá dentro de um amostra de escolas escolhidas para participar do projeto. “O Brasil tem escolas ótimas, mas não é a rede inteira, tem que relativizar essa comparação”, reforça.

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COMO FUNCIONARÁ A PROVA?

A primeira edição da prova será realizada em novembro deste ano. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo já anunciou que será a primeira rede a realizar a avaliação e 300 escolas estaduais vão participar do exame. Os detalhes sobre a realização da prova e quais instituições de ensino participarão ainda está sendo discutido. Além da rede paulista, a avaliação será aplicada em 40 escolas do Centro Paula Souza e 36 escolas ligadas à Fundação Bradesco.

Uma novidade deste ano é que a prova será digital. Por uma questão de segurança e por ser esta a primeira tentativa, segundo Nilma Fontenive, a avaliação será feita offline. “As provas serão gravadas em um pendrive e, nos locais de aplicação será instalado em cada computador”, explica. No final da prova, as respostas de cada aluno serão enviadas para um local de armazenamento e posteriormente serão analisadas pela OCDE.

Isto para as questões de múltipla escolha. As questões dissertativas serão corrigidas pela equipe da Cesgranrio, seguindo os critérios de avaliação da OCDE. Após analisar os dados de cada escola, a OCDE enviará um relatório em fevereiro do próximo ano. Os dados contidos nesse relatório são sigilosos: apenas as escolas participantes terão sua senha individual. “O resultado da escola em si é sigiloso. Ninguém tem acesso, nem o secretário. Se o governador quiser contratar para fazer esse relatório, não é proibido. O que acontece é que tem que pedir”, afirma Nilma.

Enquanto o Pisa é realizado a cada três anos, a expectativa do Pisa para Escolas, devido à alta demanda, é que seja realizado mais de uma vez por ano. Nilma revela que a Federação Nacional das Escolas Particulares (FENEP) já manifestou interesse em participar no ano que vem. “É uma avaliação que veio para ficar. A comparabilidade internacional hoje é o que as escolas estão procurando, mesmo as públicas. Sobral já tinha a comparação com o Saeb, mas quis saber como estava em relação ao mundo”, esclarece a coordenadora.

Qualquer escola pode aderir à prova, mas é importante dizer que a adesão não é gratuita. Segundo Nilma, o custo de realização da avaliação é muito alto, o que impossibilita que seja de graça. Para participar, a escola deve preencher determinados requisitos como ter computadores disponíveis para que todos os alunos realizem a prova.

POR QUE A SECRETARIA DE SÃO PAULO ADERIU À PROVA?

Segundo Caetano Siqueira, coordenador de Gestão da Educação Básica da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, a adesão foi motivada pelo interesse em posicionar as escolas paulistas em relação a outros sistemas de Educação; pela prova ter um perfil de desafiar o aluno e avaliar desde habilidades simples de reconhecimento até mais complexas de desenvolver uma argumentação; e dar mais informações para que as escolas aprofundem a análise dos resultados dos alunos e reflitam sobre a prática. “A ideia é que ao fazer essa avaliação as escolas aprendam mais sobre como avaliar, como interpretar os resultados, como essas habilidades [exigidas pelo Pisa] funcionam e como ensiná-las”, explica.

A expectativa não é que os alunos tenham uma preparação específica para a prova. “A ideia é que a avaliação traga um retrato de como os alunos estão. Quem terá uma formação são os professores das escolas que vão receber a avaliação”, explica o coordenador. No entanto, a formação será depois da realização da prova.

Ainda que os resultados oferecidos pela OCDE sejam individuais, há um interesse em ter uma visão do desempenho da rede, mas não é o foco. “É uma ferramenta muito focada na escola, para que ela reflita sobre seu desempenho”. Neste ano, 300 escolas estaduais participarão da prova, mas a expectativa é ampliar para toda a rede no ano que vem.

Em relação ao custo para aderir à prova, ainda está em negociação. De acordo com o porta-voz da secretaria, é um investimento vantajoso se comparado aos benefícios que a avaliação poderia trazer para a rede. A iniciativa se relaciona, segundo Caetano, à aposta da secretaria em uma Educação inovadora e na preparação dos alunos para os desafios do século 21.

O PISA PARA ESCOLAS PODE SUBSTITUIR O SAEB?

Nilma Fontenive defende que a prova não veio para substituir outras avaliações. “Achamos que causará um grande impacto para as escolas que aderirem, mas nas redes eu acho que o impacto vem com o Saeb. É Pisa para Escolas, não para sistemas de ensino, nem para redes”, ressalta.

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A prova foi pensada para medir especificamente o desempenho das instituições que aderirem ao sistema. A avaliação tem um caráter voluntário, então não são todas as escolas que participam; os relatórios oferecidos pela OCDE são individuais e não fazem uma comparação entre escolas brasileiras, apenas com os resultados internacionais; e os conteúdos e habilidades avaliadas são diferentes daquelas às quais os alunos estão acostumados. Além disso, por avaliar apenas os alunos de 15 anos não traz um panorama real de como está a Educação. “Ela tem um potencial grande, sobretudo para as particulares que não participam individualmente do Saeb”, afirma a coordenadora.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo vê na adesão ao exame uma oportunidade de aprender com o resultado das provas e, no longo prazo, incorporar algumas características da prova nas avaliações do estado. Não há expectativas que o Pisa para Escolas substitua avaliações como o Sagesp, mas que seja mais um insumo para as escolas compreenderem o desempenho de seus alunos e aprofundem suas práticas.

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