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Autismo: conheça o TEACCH®, um programa para melhorar a comunicação de crianças com autismo

O Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficits Relacionados à Comunicação (TEACCH®, na sigla em inglês) ajuda pessoas com Transtorno do Espectro Autista a compreenderem melhor o universo ao redor

POR:
Beatriz Vichessi
Crédito: Getty Images

A comunicação é um dos entraves que marca o universo do transtorno do Espectro Autista (TEA), tanto no que diz respeito à compreensão de pessoas com esse diagnóstico em relação ao que é dito (comunicação receptiva) quanto ao que elas desejam comunicar (comunicação expressiva). Muitos professores se preocupam se vão ser entendidos, com o modo de ensinar os conteúdos para crianças com autismo e com o relacionamento delas com as demais crianças e jovens da escola. No mais, é notório que muitos dos famosos comportamentos disruptivos do TEA têm a ver com problemas e comunicação – bater com a cabeça na parede, morder outra pessoa, gritar, etc.

Um modelo criado no final da década de 1960, na Universidade da Carolina do Norte (UNC), nos Estados Unidos, chamado Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficits Relacionados à Comunicação (TEACCH®, na sigla em inglês), é a proposta baseada em evidências adotada por diversos profissionais para trabalhar os problemas relacionados à comunicação e ensinar habilidades.

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Beatriz Zeppelini Bezerra de Menezes Nasser, diretora da Companhia do Autismo, em São Paulo, psicomotricista e especialista em Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, foi aluna na Universidade da Carolina do Norte do TEACCH® Autism Program. Ela e Maria Elisa Fonseca, TEACCH® Advanced Consultant pela UNC, explicam detalhes sobre essa ferramenta de trabalho. Confira:   

1.Quais são as principais bases do TEACCH®?
Basicamente, esse modelo tem como princípios que o ambiente organizado, o ensino estruturado e a previsibilidade (o que fazer, onde fazer, como fazer, o que fazer em seguida) favorecem o desenvolvimento e a aprendizagem de pessoas com autismo. Com isso, é esperada a diminuição dos comportamentos disruptivos, a ampliação do repertório comunicativo e o aumento de engajamento nas atividades e do entendimento do que se deve fazer (com compreensão, não somente por repetição mecânica). A ideia é que, com o uso do TEACCH®, a criança com autismo conquiste cada vez mais autonomia e melhore sua capacidade de compreender o que as pessoas comunicam.   

2. Qual a grande marca do TEACCH®?
À primeira vista, é o uso de imagens para ajudar a criança coim autismo a se valer de instruções visuais e assim aumentar seu poder de comunicação. Por exemplo: objetos sinalizadores, fotografias, ícones, pictogramas, escrita e sinalizadores do ambiente. Mas não se trata simplesmente de um conjunto de fichas. Um olhar mais apurado enxerga que o trabalho com TEACCH® pressupõe levar em conta características do indivíduo para analisar o que precisa ser eliminado do ambiente – geralmente, estímulos sensoriais, que perturbam e confundem –, e transformar materiais de acordo com o que a criança compreende e precisa, além do uso de imagens. Tudo isso com o objetivo de fazer a criança com autismo se tornar, passo a passo, mais autônoma, e ter menos comportamentos disruptivos.

3. O que é feito na prática por profissionais que atuam com TEACCH®?
Depende das necessidades da criança. Dentre as possibilidades, é possível listar o uso da agenda de imagens para sinalizar a rotina pessoal e de marcações visuais no ambiente –  com fotografias, ícones ou palavras – para ajudá-la no dia a dia a realizar tarefas simples e compreender o que está sendo dito e pedido para ela. É importante que os profissionais façam sempre uma análise funcional do comportamento, relacionando variáveis e entendendo as razões que podem estar envolvidas nos comportamentos. A manipulação dessas variáveis garante as mudanças e os processos de ensino. 

4. Como a agenda é utilizada na perspectiva do TEACCH®?
Ela é um facilitador de compreensão. Tal como qualquer outra agenda, ela ajuda a organizar a rotina da criança, orientando a compreensão da passagem do tempo. Pode conter somente imagens ou textos – esse último, somente no caso de pessoas já alfabetizadas, evidentemente. 

5. Imagens podem ser usadas em qualquer ambiente, para ajudar a criança com autismo a saber o que e como fazer?
Sim, se isso for uma necessidade específica da criança em questão. No banheiro de casa, por exemplo, podem ser fixadas placas que indiquem se despir, seguidas do uso do chuveiro e da toalha e, por fim, de se vestir. O importante é não trabalhar com o objetivo de que a pessoa com autismo seja treinada para repetir essa sequência de forma mecânica e sim com a ideia de que ela precisa ir adquirindo compreensão sobre o que fazer, como fazer e em que ordem.

6. Como a adaptação de material é feita por quem trabalha com TEACCH®?  
Na Educação Infantil, por exemplo, se uma turma está explorando os animais domésticos e selvagens, é comum o uso de figuras e fotografias desses animais. Porém, o profissional, conhecendo o TEACCH® pode tomar a decisão de propor a apreciação de miniaturas desses bichos, para ajudar a criança com autismo a conhecê-los se ela não consegue identificar imagens de modo satisfatório.

7. O uso desses recursos não torna a criança com autismo dependente deles, prejudicando a expressão por meio da fala?
Não. O uso de imagens e ícones não faz as crianças verbalizarem menos e o TEACCH® é uma ferramenta, uma alternativa a ser usada enquanto a criança com autismo não fala e deve ser usado para aumentar sua capacidade de compreensão. A ideia do trabalho com TEACCH® é justamente ajudar a pessoa a ganhar autonomia. Por isso mesmo, no decorrer do percurso do tratamento, a equipe multidisciplinar que acompanha a pessoa com autismo avalia se os itens usados podem ir sendo retirados do dia a dia, aos poucos.

8. Quais profissionais podem trabalhar com TEACCH®?
O uso do TEACCH® não é exclusivo de nenhuma área, é um modelo generalista. Profissionais diversos que atuam com crianças com autismo podem se valer do programa. Aliás, quanto mais combinado for o uso dela pela equipe que atende a criança, melhor. Na escola, os educadores podem se valer do TEACCH® para organizar a rotina e aumentar o grau de previsibilidade das atividades do dia a dia, dar noção de fim. Fotos dos momentos que marcam o dia da turma, colocadas em ordem cronológica – chegada, parque, roda de conversa, lanche, soninho, biblioteca e saída – são de grande utilidade não só para crianças com autismo, mas para todas, em geral da Educação Infantil. Apesar de ser um modelo generalista, possível de ser empregado por profissionais diversos, para serem certificados, devem passar pela instituição do programa da Universidade da Carolina do Norte.

9. O TEACCH® tem comprovação científica?
Sim. O modelo foi criado com base em anos de pesquisa e passa por investigação minuciosa constante. Ligado ao departamento de Psiquiatria da UNC, é constituído por várias práticas baseadas em evidência, sendo uma composição de estratégias. O TEACCH® é compreendido pelos especialistas que trabalham com ele como uma moldura no qual muitos recursos e estratégias são incorporadas. É considerado um modelo completo justamente por agregar as práticas consideradas as mais fortes e de comprovada eficiência para pessoas com autismo.

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