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“Para flexibilizar o Ensino Médio, precisamos ouvir os professores e jovens”

A professora Eliana Nunes Estrela aposta no protagonismo da juventude para reaproximá-los da escola

POR:
Paula Peres
Crédito: Lucas Magalhães

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal para ouvir os planos, perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

A Secretaria da Educação do Ceará ocupa um grande e arejado prédio no Cambeba, em Fortaleza. Internamente, seus corredores com divisórias de madeira lembram os corredores da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). Ao ouvir sobre a semelhança, um dos funcionários brincou: “Daqui a pouco vamos nos tornar o MEC - Ministério de Educação do Ceará”.

Os resultados educacionais do Ceará na Alfabetização são de conhecimento geral. Uma eperi?ncia exitosa na cidade de Sobral tornou-se a base para o desenvolvimento de uma política pública estadual, o Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC), que gerou resultados e foi alavancada a política nacional: o Programa Nacional Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). No Ceará, o papel da Secretaria é de articular com os municípios através de suporte e formação.

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Se por um lado os anos iniciais do Ensino Fundamental estão garantidos, a rede ainda tenta entender como pode alavancar os índices do Ensino Médio. Em 2017, os anos iniciais da rede estadual atingiram o índice de 6,7 no Índice de Educação Básica (Ideb), 1,8 pontos acima da meta prevista (4,9). Já o Ensino Médio, que tinha meta de 4,3 em 2017, atingiu o índice de apenas 3,8.

Os dados são uma obsessão para o Ceará: a Seduc conta com uma sala reservada com aparelhos de televisão e computadores que monitoram índices de aprovação, reprovação, evasão, Ideb e até ingressos em universidades públicas por estudantes da rede estadual. Nada escapa aos olhos.

Eliana Nunes Estrela chega à secretaria diante deste cenário, entre reuniões que quase não permitem que ela almoce na mesa de seu gabinete. Oriunda das salas de aula da Educação Básica, ela aposta no desenvolvimento de lideranças e no protagonismo juvenil para resgatar nos jovens cearenses o interesse pela escola. “Serão os jovens que vão dizer por onde devemos ir”, diz.

Veja, a seguir, a entrevista completa, realizada em janeiro de 2019:

NOVA ESCOLA: O que na sua trajetória e formação profissional te prepararam para esse desafio de encarar a Secretaria de Educação do Ceará?

ELIANA NUNES: Eu sou uma apaixonada por Educação. Sempre faço referência aos meus professores, meus mestres, com quem eu aprendi muito. Sou formada em Pedagogia pela Universidade Regional do Cariri, com sede no Crato, aqui no Ceará. Tenho três especializações, todas ligadas a gestão e a avaliação, sou mestre em Avaliação e Gestão pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Eu fui professora mesmo de chão de sala de aula, tanto do Ensino Fundamental como do Médio, tanto da rede particular como da rede pública. Fui coordenadora, diretora escolar da rede estadual, e coordenadora da Coordenadoria Regional de Desenvolvimento do Ensino (CREDE). CREDE é como se fosse uma mini-seduc nas regionais: é uma coordenadoria que coordena, executa os projetos da Seduc nas regionais. No caso nós temos 20 CREDES. E eu iniciei em 2007 na CREDE do Crato, que abrange 12 municípios. Em seguida, em 2013, eu fui para a CREDE do Juazeiro do Norte, que abrange 6 municípios. Então são 12 anos de CREDE, sempre ligados a essas políticas públicas, sempre executando os projetos, e fazendo com que os alunos conseguissem essa aprendizagem cada vez melhor.

Quantos anos você ficou em escola?

Desde 1993. Em 93 eu iniciei como professora de uma escola particular, e aí fiquei até 2003 como professora, e em seguida já comecei como gestora de escola e coordenadora também. Eu tive as duas experiências, tanto de diretora como de gestora. E em 2007 que eu fui para a coordenadoria regional.

A partir da sua experiência profissional em várias áreas de Educação, quais desafios você enxergava de uma maneira e teve outra perspectiva como secretária?

Nós sabemos que é necessária a valorização dos professores. Nós temos aqui no Ceará professores competentes, determinados, que realmente assumem o compromisso de sala de aula, nós admiramos muito o nosso time de professores. Sabemos que não é tão fácil estar em sala de aula, lidando com jovem que pensa diferente. É um trabalho que nós sabemos que não é fácil, é um desafio. É também uma missão.

Quando se fala em valorização, fala-se também em valorização do espaço, da sala de aula, de ter uma climatização, de ter um quadro branco com pincel, que não seja mais aquela lousa com giz, é tudo isso. Lógico, nós gostaríamos de fazer bem mais, mas ainda estamos caminhando. Temos uma boa relação com o sindicato que está à frente dos professores, temos uma mesa de negociação aqui na Seduc que nós sempre conversamos, vemos os assuntos para  melhorar a valorização do profissional, e isso tem sido fundamental aqui no nosso trabalho.

Quais são os desafios da rede estadual do Ceará?

Nós sabemos que o Ceará é referência na educação, é um reconhecimento importante porque ele não é simplesmente de propaganda, é fruto de um trabalho com a adesão dos municípios – 184 municípios – convocados a aderir ao PAIC. Foi uma adesão completa e nós começamos essa construção exatamente pensando que o nosso foco é o aluno, é essa aprendizagem. Nós não estamos querendo aqui falar simplesmente de ranking, de 1°, 2° lugar, o nosso foco realmente é a aprendizagem dos nossos alunos, que eles aprendam, e nós temos tido esse resultado, tanto na alfabetização quanto no ingresso dos nossos alunos na universidade por meio do Enem. O exame, de certa forma, abre as portas das universidades para a nossa juventude. Nós estamos percebendo o quanto nós estamos colocando nossos jovens nas universidades hoje. Nosso grande desafio é continuar esse trabalho, sabendo que precisamos avançar mais.

Nós ainda não estamos satisfeitos com os resultados, precisamos avançar e isso significa mais escolas de tempo integral, de Educação Profissional, mais investimento no PAIC, não só na Alfabetização do 1°, 2°, 3° ano, mas também do 5° ao 9°, o Fundamental como um todo.

O abandono vem diminuindo, [estamos conseguindo] manter realmente o aluno nas escolas. O jovem precisa se sentir bem. Nós queremos uma escola voltada para a juventude. Que ele se sinta bem, que ele consiga ter uma boa aprendizagem, que ele consiga realizar os seus sonhos e avance cada vez mais.

Na sua nomeação, você disse que aposta no protagonismo juvenil e você quer trazer os jovens para mais perto da gestão escolar. Como vocês vão fazer isso?

Essa é a nossa grande bandeira, é o que eu defendo muito. Nós precisamos desses jovens próximos, precisamos entender o que eles querem, que escolas eles querem, para contribuir mais com essa juventude.

Nós já temos uma rede de liderança por meio dos grêmios, todas as escolas têm grêmios e nós temos ações de fortalecimento. Onde eu estava, na regional da CREDE 19, eu tinha uma relação muito próxima dos jovens, e era por eles que nós sabíamos por onde deveríamos ir, tanto para atender aos anseios deles quanto para contribuir com a aprendizagem, com a participação, com a permanência deles na escola.

Nós precisamos investir nessa juventude para que eles acreditem cada vez mais na escola e tenham a vontade de estar lá, de aprender cada vez mais, de vivenciar, de ter boas amizades, é isso que nós queremos com esse comparecimento.

Nós já tivemos uma conversa com o governador Camilo [Santana], que também aposta que é por aí. A escola em tempo integral facilita muito esse protagonismo porque eles têm as disciplinas eletivas, que é um currículo flexível que dá a oportunidade deles trabalharem, se desenvolverem naquilo que eles gostam.

Sabemos que o jovem passa por uma transição biológica chegando ao Médio, e essa transição biológica mexe com muita coisa, então nós precisamos estar preparados para isso também. Por isso nós temos, hoje, psicólogos nas CREDEs. Não é para fazer o atendimento clínico, mas para dar suporte a questões socioemocionais, vivências, questões familiares que o jovem precisa de alguém para desabafar.

Nós temos também o projeto “diretor de turma” dentro das nossas escolas, outra forma de aproximar o jovem do professor.  É uma pessoa em quem ele confia e para quem ele pode contar uma situação da sua vida e ter essa aproximação. Nós acreditamos e apostamos muito nesse fortalecimento da juventude, do protagonismo para que eles realmente possam crescer, sonhar e realizar os sonhos.

Vocês estão pensando na implantação da Base Nacional do Ensino Médio e na flexibilização da etapa?

Existem alguns diálogos. Agora no começo do ano temos as semanas de conversas pedagógicas, mas é uma conversa que precisa muito ouvir os professores, nós precisamos conhecer a realidade das escolas.  Já iniciamos os estudos, apoiando também os municípios que estão solicitando o nosso apoio. Mas lógico que nós vamos precisar ouvir os professores.

No Ideb do ensino fundamental o Ceará se destaca muito, sempre tem os seus municípios que estão entre as melhores experiências, Sobral é um estudo de caso, outro municípios também se destacam. Quando chega ao ensino médio que é de responsabilidade estadual faltou um pouco para vocês atingirem a meta do Ideb. O que vocês estão pensando para o ensino médio?

Nós estamos realmente com foco no Ideb. Mas é uma construção, não é uma coisa nova que eu vou chegar aqui e implementar. Estamos dando continuidade a uma gestão que nós acreditamos, que já fazemos parte há algum tempo e que sabemos que já avançou. Já avançamos, já tivemos resultado no Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE) que sentimos o crescimento, então o nosso foco é dar continuidade aos nossos programas, às nossas políticas, mas, claro, investir cada vez mais nesse avanço.

O governo já anunciou que nós vamos começar com mais 19 escolas em tempo integral esse ano. Só de Educação profissional nós vamos iniciar com mais três. Nosso foco é dar suporte às escolas, aos professores, aos gestores para que eles contribuam com esse foco de fazer com que o aluno realmente aprenda, contribuindo com a construção do conhecimento.

A estrutura da Seduc mudou um pouco esse ano. Nós tínhamos na estrutura o secretário da Educação, o secretário adjunto e  o secretário executivo. Esse ano tem o secretário de Educação e quatro executivos. Esses quatro executivos são chamados de programáticos, então tem um secretário que está ligado diretamente ao Ensino Médio e à educação profissional. Já estamos pensando nessa distribuição de como nós vamos fazer o acompanhamento mais de perto, no que nós podemos inovar, até para que exista avanço no Ensino Médio. Essa forma de estruturar a secretaria vai facilitar esse entendimento.

Uma secretaria estará focada em pensar como nós podemos alcançar o melhor resultado, aproximando a juventude, valorizando o profissional, com formação para os professores, com investimento maior na área pedagógica. A outra secretaria está ligada à gestão escolar, que estará mais próxima das questões administrativas, de alimentação, pagamento, material didático, programas e projetos. Tem outra secretaria que trabalha em cooperação com os municípios, que é essa de regime de colaboração, onde o nosso foco é a primeira infância. E a outra que é a secretaria financeira, que é a base de toda a secretaria. Nós entendemos que a partir dessa nova estrutura nós vamos poder ter um olhar mais focado para os resultados e, com certeza, com fé em Deus, avançar no Ideb.

Por que o ensino noturno chama a atenção no estado?

Nós precisamos ter um olhar mais direcionado para o ensino noturno, porque nós sabemos que o aluno é diferenciado. Geralmente é um aluno que passa o dia trabalhando e ainda tem esse esforço de ir à escola e por conta disso, muitas vezes, desiste, ou até mesmo pelo cansaço e tantas outras obrigações que se tem. Então, nós precisamos ter um olhar diferenciado até para perceber se pode fazer um horário diferente, uma dinâmica diferente. Ouvir de quem está lá no ensino noturno o que nós podemos fazer. Nos engrandece saber que eles têm a escola como uma prioridade para eles, porque depois de um dia todo trabalhando eles ainda se dedicam e têm o compromisso de estar lá.

O Ceará vive dias difíceis na segurança pública neste início de 2019. Além da população, escolas e creches estão sendo atacadas. Como a Secretaria de Educação pode contribuir nesse cenário para garantir a segurança dos alunos?

Eu quero primeiro fazer uma referência especial ao nosso governador por sua determinação e coragem. O que o governo está fazendo é de segurança para a população e nós precisamos deixar isso muito claro, essa decisão é de segurança. E nós enquanto escola, enquanto Educação, nós temos que fazer com que o aluno esteja realmente na escola. Nós não tivemos problemas maiores em nossas escolas em relação a isso, o dia letivo está confirmado, cada um com o seu calendário.

O nosso investimento em escola em tempo integral, em Educação profissional é exatamente pensando em diminuir essas questões de violência, de tirar o jovem da rua, deixar ele onde de fato deve estar, é se apegar mais ao que ele realmente sonha.

Você disse que a secretaria tem um diálogo com o sindicato dos professores, que vocês ouvem as pautas. Este ano vocês já conversaram sobre salário e outras questões de valorização dos professores?

Uma das primeiras visitas que eu fiz aqui, antes mesmo de visitar uma escola, foi ao sindicato e fomos muito bem recebidos, porque nós já fomos com a mesa de negociação e eles já nos entregaram pautas para começar o diálogo. Mas apenas foi entregue a pauta, nós não começamos a mesa de negociação.

O governador foi reeleito, a equipe que está trabalhando aqui na Secretaria de Educação é a mesma que vem trabalhando há algum tempo. Nesse aspecto de continuidade da gestão, tem alguma política que você acha que vale a pena continuar investindo, e outra que você acha que faria diferente?

Vamos continuar com o que nós já tínhamos, porque acreditamos que é o caminho, mas com o fortalecimento do protagonismo, que é a nossa bandeira principal. Vamos fortalecer a juventude, vamos tentar aproximar a juventude não da pessoa da secretária, mas da escola, para que eles tenham o sentimento de pertencimento, de acreditar, de valorizar e de estar cada vez mais próximo da escola que eles querem. Nós precisamos ouvir a juventude, nós precisamos saber o que eles querem. Esse fortalecimento vai ser primordial, principalmente nesse primeiro momento.

E qual é o seu sonho para a educação do Ceará?

Meu sonho é que os nossos jovens consigam realizar os sonhos deles.

O espaço está aberto para as suas considerações finais.

Eu quero agradecer por terem vindo, pela oportunidade de mostrar o nosso trabalho no Ceará, dizer que nós estamos abertos, pautados em alguns pilares importantes, que são o diálogo, o respeito às pessoas, a boa meritocracia e os bons resultados. São os nossos principais pilares, nós vamos trabalhar sempre dessa forma, com diálogo, procurando respeitar as pessoas e zelar pelo ser humano, acho que isso é fundamental na gestão.

E eu quero deseja a toda a juventude sucesso, que consigam realmente ter sonhos. Sonhar é importante, só que não basta só sonhar, tem que procurar realizar os sonhos e a realização dos sonhos começa na escola, com conhecimento. E para os nossos professores, eu quero agradecer, tirar mesmo o chapéu. Nós sabemos que é uma missão muito bonita, com muitos desafios, dizer que nós valorizamos e respeitamos o trabalho de cada um. Agradecer aos gestores, esse vínculo de confiança que nós temos, as CREDES, as pessoas que fazem a Seduc. Costumo dizer que nós somos um time e que tanto os nossos desafios como as nossas conquistas são divididos com o nosso time.

O que é a boa meritocracia?

Os cargos de diretor aqui passam por uma seleção, eles não têm indicação, não é uma questão política. É uma boa meritocracia porque tanto os diretores como os coordenadores, como os coordenadores de CREDEs, todos passam por seleção. Eles fazem prova de conhecimentos, de competência, de técnica e a partir daí tem alguns que são eleitos e tem outros que não são indicações, mas fazem uma formação e depois vão para um banco de indicação de diretores, assim como os coordenadores de CREDE.

Aqui no Ceará, nós não temos uma influência político-partidária na indicação desses cargos, por isso nós falamos na boa meritocracia. Não é uma meritocracia por causa de qualquer coisa, é porque realmente ela é reconhecida, é importante, fundamental para que os processos andem, sejam mais tranquilos, sem essa interferência que nós sabemos que em outros lugares ainda existe.

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