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Saiba | Coluna Felipe


Por: Felipe Bandoni

Meu aluno não sabe ler, e agora?

Ajudar com os primeiros passos na leitura deve ser responsa

 É muito comum ouvir professores queixando-se de que seus alunos não sabem ler, principalmente no Ensino Fundamental II e no Médio. Contudo, em muitos casos, essas reclamações são superficiais e pouco embasadas.

Acompanhei uma coordenadora que investigou alguns casos a fundo. Analisando a produção de algumas crianças que eram alvo de queixas, notou que sabiam, sim, ler. Ainda um pouco insegura, consultou uma especialista em alfabetização, que confirmou suas impressões. Conseguiam decodificar as letras, compreender textos simples e até realizar inferências a partir do que liam. No entanto, tinham também dificuldades com certos textos, especialmente os de livros didáticos e questões de prova, muito presentes na escola.

Essa análise trouxe inquietações para a equipe. “Se sabem ler, por que não entendem os enunciados?, indagou um professor de Matemática. Ele contou que, embora soubessem realizar certas operações, esses estudantes não conseguiam resolver problemas por não entender os enunciados; portanto, não sabiam ler. A coordenadora pedagógica argumentou que essa afirmação deveria ser mais específica: o que os alunos não sabiam, ainda, era ler enunciados de problemas.

Há diferenças importantes entre a fala do professor e a da coordenadora. A primeira é paralisante, remete a algo que deveria ter sido resolvido nos anos iniciais da escola e que hoje não tem mais solução. A segunda, porém, aponta para um caminho: se não sabem ler esse tipo específico de texto, cabe a alguém ensiná-los.

E quem seria o responsável? Nesse caso, o professor de Matemática! E isso se estende a todas as disciplinas, pois cada docente é o responsável por ensinar a ler os textos que os estudantes vão encontrar. Achamos, ingenuamente, que aprender a ler, no sentido de decodificar as letras, habilita a compreender qualquer texto, o que não é verdade. É preciso aprender a ler os diferentes tipos de texto, e nós, professores de cada área – não apenas Português–, é que devemos nos imbuir dessa responsabilidade.

Felipe Bandoni é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Foto: Tomás Arthuzzi/NOVA ESCOLA