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Campos de Experiência na prática: como trabalhar “espaço, tempo, quantidades, relações e transformações” na Educação Infantil

Quinto e último Campo de Experiência propõe a exploração e interação com o mundo exterior, objetos e pessoas como forma de enriquecer o repertório de conhecimento das crianças

POR:
Lucas Santana
No quinto Campo de Experiências da BNCC, as crianças exploram e interagem com o mundo exterior, objetos e pessoas para ampliar seu repertório     Crédito: Getty Images

Nas últimas semanas, NOVA ESCOLA voltou suas atenções para os Campos de Experiência da Base Nacional Comum Curricular da Educação Infantil. Trouxemos, ao longo de uma série de matérias, relatos de atividades desenvolvidas por educadores de todo o país com base nos conceitos e propostas do novo documento da Educação.

Nesta série, iniciada com "O eu, o outro e o nós" e seguida por “Corpo, gestos e movimentos”, “Traços, sons, cores e formas” e “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, NOVA ESCOLA traz exemplos de atividades que professores de todo o país estão desenvolvendo com bebês e crianças tendo como base os Campos de Experiência. Também fomos buscar a análise de especialistas sobre os principais tópicos dos campos – e que você pode complementar com curso sobre o tema e planos de atividade produzidos pelo nosso Time de Autores. 

CURSOS   Grátis: Os Campos de Experiência na Educação Infantil

Para finalizar a série, nos dedicamos ao último Campo, “Espaço, tempo, quantidades, relações e transformações”.

Conheça os 5 Campos de Experiência
Os 5 Campos de Experiência ocupam espaço importante do novo documento da Educação Infantil. São eles:
  1. O eu, o outro e o nós
  2. Corpo, gestos e movimentos
  3. Traços, sons, cores e formas
  4. Escuta, fala, pensamento e imaginação
  5. Espaço, tempo, quantidades, relações e transformações

 PLANOS DE AULA   Veja planos de aula que incluem Campos de Experiência

Crédito: Getty Images

CAMPO DE EXPERIÊNCIA: ESPAÇO, TEMPO, QUANTIDADES, RELAÇÕES E TRANSFORMAÇÕES

As crianças vivem inseridas em espaços e tempos de diferentes dimensões, em um mundo constituído de fenômenos naturais e socioculturais. Desde muito pequenas, elas procuram se situar em diversos espaços (rua, bairro, cidade etc.) e tempos (dia e noite; hoje, ontem e amanhã etc.). Demonstram também curiosidade sobre o mundo físico (seu próprio corpo, os fenômenos atmosféricos, os animais, as plantas, as transformações da natureza, os diferentes tipos de materiais e as possibilidades de sua manipulação etc.) e o mundo sociocultural (as relações de parentesco e sociais entre as pessoas que conhece; como vivem e em que trabalham essas pessoas; quais suas tradições e seus costumes; a diversidade entre elas etc.). Além disso, nessas experiências e em muitas outras, as crianças também se deparam, frequentemente, com conhecimentos matemáticos (contagem, ordenação, relações entre quantidades, dimensões, medidas, comparação de pesos e de comprimentos, avaliação de distâncias, reconhecimento de formas geométricas, conhecimento e reconhecimento de numerais cardinais e ordinais etc.) que igualmente aguçam a curiosidade. Portanto, a Educação Infantil precisa promover experiências nas quais as crianças possam fazer observações, manipular objetos, investigar e explorar seu entorno, levantar hipóteses e consultar fontes de informação para buscar respostas às suas curiosidades e indagações. Assim, a instituição escolar está criando oportunidades para que as crianças ampliem seus conhecimentos do mundo físico e sociocultural e possam utilizá-los em seu cotidiano.

 

Trecho extraído do documento Base Nacional Comum Curricular

O quinto Campo de Experiência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que os educadores estimulem nas crianças a exploração, a observação do meio e dos objetos. “É uma iniciação ao conhecimento matemático, ao espírito científico, à atitude de descoberta e aprendizagem permanente”, analisa a consultora e doutora em Educação pela PUC-Rio Andrea Ramal.

É também este campo que sugere que os pequenos devem ter os primeiros contatos com os fenômenos socioculturais presentes no cotidiano das crianças. “Nesse campo as crianças serão inseridas em espaços e tempos de diferentes dimensões de fenômenos naturais e socioculturais, ou seja, os educadores devem promover experiências em que as crianças possam manipular, conhecer, observar, investigar e explorar os conhecimentos do mundo físico e sociocultural”, explica a autora e coordenadora pedagógica Aline Castro. Isso significa que bebês e crianças comecem a ter conhecimento sobre relações humanas, família, parentesco, costumes, diversidade.

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Esse campo de experiência está profundamente ligado à curiosidade inata das crianças. “O professor pode desenvolver temáticas com as crianças e aguçar ainda mais a sua curiosidade, pois elas já interagem com tais conhecimentos o tempo todo em seus cotidianos”, aponta Kelly Lotz, especialista em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas pela Universidade de Brasília (UnB).

Reunimos, abaixo, propostas desenvolvidas por educadores da rede pública brasileira que têm como base o Campo de Experiência “Espaço, tempo, quantidades, relações e transformações”. É sempre bom lembrar que as atividades podem e devem se relacionar com mais de um campo de experiência simultaneamente. Aqui, sugerimos propostas que têm preponderantemente o 5º Campo como norte. Para ver as atividades, é só clicar no triângulo na barra cinza escuro para abrir e ler o texto. Confira:

 

A CAIXA MISTERIOSA

IDADE: Bebês (0 a 1 ano e 6 meses)

Peguei uma caixa e coloquei diversos brinquedos. Na parte superior da caixa, eu prendi vários fios de modo que ficassem entrelaçados. A ideia era que as crianças tentariam retirar os brinquedos da caixa e, por causa dos fios, alguns objetos sairiam com mais facilidade e outros, não. Eu previ que, dependendo da idade, algumas crianças conseguiriam pegar os brinquedos mais facilmente. Mas me surpreendi com o resultado: quase todas as crianças conseguiram retirar os brinquedos da caixa. Com isso tive que confeccionar um novo material com um nível maior de dificuldade para que eles conseguissem alcançar os objetivos da atividade.

 

Ana Paula Souza Borges, Centro de Educação Infantil “Professora Odila Azevedo Marques Paiva”, Extrema (MG)

 

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM TRABALHADOS

- Manipular materiais diversos e variados para comparar as diferenças e semelhanças entre eles (EI01ET05);
- Explorar o ambiente pela ação e observação, manipulando, experimentando e fazendo descobertas (EI01ET03).

 

APRENDIZADOS

De acordo com a BNCC temos sempre que respeitar a autonomia da criança então estamos sempre em busca de atividades que venham de acordo com a necessidade delas. Na minha turma de berçário tenho 25 bebês na faixa de (4 meses a 1 ano e 3 meses). Pude perceber que quando levamos uma atividade para a sala, as próprias crianças acabam mostrando qual será a próxima atividade, pois fica visível a necessidade de cada uma.

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GELO PARA EXPLORAR O MUNDO

IDADE: Bebês (0 a 1 ano e 6 meses) e crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses)

Pegamos várias forminhas de gelo e enchemos com chá e um pouco de açúcar. Separamos pequenas flores e ervas como manjericão, alecrim e marcela que cultivamos em um canteiro na escola. Depois de lavadas, as flores e ervas foram colocadas nos compartimentos, juntamente com o chá. Nossa intenção era tornar a experiência mais atrativa para as crianças na hora de sentir a temperatura e o sabor dos cubos de gelo – aguçando a curiosidade dos pequenos.

Nossa expectativa era que as crianças levassem os cubinhos de gelo à boca e pudessem sentir o gosto e o aroma dos chás. Na hora de desenformar os cubinhos, colocamos todos numa bandeja e deixamos al alcance das crianças para que experimentassem os gelinhos.

 

Loen Cristy Lucatelli, E.M.E.I. Olga Machado Ronchetti

 

OBJETIVOS DE APRENDIZADO TRABALHADOS

- Explorar e descobrir as propriedades de objetos e materiais (odor, cor, sabor, temperatura) (EI01ET01);
- Explorar relações de causa e efeito (transbordar, tingir, misturar, mover e remover etc.) na interação com o mundo físico (EI01ET02);
- Explorar o ambiente pela ação e observação, manipulando, experimentando e fazendo descobertas (EI01ET03).

 

APRENDIZADOS

Inicialmente, as crianças olharam para os cubinhos de chá com olhares de desconfiança. Nós então incentivamos os bebês a tocar os objetos gelados. Alguns demonstraram gostar da experiência, pegando e largando os cubinhos gelados; outros mostraram desconforto e perdiam o interesse rapidamente. Nas primeiras vezes, quando as crianças perdiam o interesse, confesso que fiquei um pouco frustrada. Mas ao analisar tudo, percebi que muitas crianças ainda estavam se adaptando. Voltei depois de algum tempo a refazer a atividade e aí deu tudo certo.

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banho de lama

IDADE: Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses)

Levamos as crianças para brincar com terra. Ao remexer na terra, elas encontravam bichinhos enterrados no solo, como besouros e minhocas. As crianças usaram pazinhas para cavar buracos. Depois que os buracos estavam abertos, nós despejamos água no buraco. Dessa mistura de terra e água fizemos o local perfeito para um “delicioso banho de lama”.

Nesta atividade, o envolvimento da professora é fundamental. O que nós adultos julgamos ser “sujeira”, para a criança é um mundo de possibilidades. Misturar materiais, sentir as texturas da terra seca e molhada, a lama, os bolinhos que as crianças faziam com as mãos, tudo era motivo para brincar.

Após terminar as brincadeiras com lama, usamos uma mangueira como ducha. Durante o banho, nós trabalhamos as atividades de autonomia das crianças, em atos como lavar os cabelos, esfregar o corpo com as mãos. Também foi um momento para explorar princípios de autocuidado e sustentabilidade, como uso racional da água e tempo de uso do chuveiro.

 

Monalisa Martins de Oliveira Costa e Letícia Rodrigues da luz, Jardim de Infância Recanto das Emas, Brasília (DF)

 

OBJETIVOS DE APRENDIZADO TRABALHADOS

- Observar e descrever mudanças em diferentes materiais, resultantes de ações sobre eles, em experimentos envolvendo fenômenos naturais e artificiais (EI03ET02);
- Estabelecer relações de comparação entre objetos, observando suas propriedades (EI03ET01);
- Classificar objetos e figuras de acordo com suas semelhanças e diferenças (EI03ET05).

APRENDIZADOS

Durante a atividade, percebemos que as crianças mais tímidas respeitaram seu tempo e calmamente tocaram a terra e depois a lama. As crianças mais agitadas se libertaram, pularam na lama, fizeram uma disputa de quem ficava mais lambuzado. Os “monstros de lama” logo apareceram. A atividade gerou sons, gestos, risadas. E nós, como professoras, passamos a fazer parte da brincadeira.

A atividade também foi um momento de respeitar o momento do outro, a relação que cada criança criou com o espaço. Enquanto uns sentiram nojo e medo, outros demonstraram alegria e euforia. Algumas crianças ficaram concentradas com seus potinhos, colheres e montinhos de lama. As crianças se perceberam como parte desse meio ambiente, afetando e sendo afetadas pelos elementos naturais.

Dentro da brincadeira, as noções de muito, pouco, mais e menos ganharam significado. O corpo se torna um espaço para sentir: o frio da água que sai da torneira, a lama escorrendo pelas pernas, os pés afundando nas poças.

Após o banho, deitamos todos na grama para apreciar as nuvens, o calor do sol e para comer um espetinho de frutas. Ao ouvir as crianças após o banho, elas disseram “que foi muito legal, o melhor dia de todos”.

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explorando e construindo com materiais de largo alcance

IDADE: Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses)

 

A atividade proposta acontece no momento em que as crianças estão no parquinho. Disponibilizamos os materiais pré-selecionados – potes de diversos tamanhos, caixa de ovos separadas pelo pessoal da merenda, pneus, tampinhas de garrafas plásticas, cones de linhas, caixas de papelão. Colocamos os materiais em diferentes espaços do parque, permitindo a livre exploração e observando a interação das crianças com os objetos.

A lista de materiais não estruturados é bem grande e não precisa ser disponibilizada de uma só vez. Dependendo do número de alunos da turma, é possível disponibilizar entre 4 e 5 materiais de cada vez e depois ir trocando por outros. Antes de iniciar a atividade, é importante conversar com as crianças e explicar o que irá acontecer – deixando claro quais materiais estarão disponíveis para a exploração. É muito importante utilizar apenas objetos que sejam seguros para manuseio das crianças.

 

Iara Felix, E.M.E.I Octávio Tegão, São Caetano do Sul (SP)

 

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM TRABALHADOS

- Coordenar suas habilidades manuais no atendimento adequado a seus interesses e necessidades em situações diversas (EI03CG05);
- Estabelecer relações de comparação entre objetos, observando suas propriedades (EI03ET01);
- Classificar objetos e figuras de acordo com suas semelhanças e diferenças (EI03ET05).

 

APRENDIZADOS

Proporcionar esta atividade para as crianças é sempre muito agradável e surpreendente. Vê-las interagindo com os objetos e atribuindo diferentes significados a eles é no mínimo encantador, pois revela sua criatividade e o desenvolvimento de sua apropriação cultural.

No início no ano, a turma não tinha tanto repertório para explorar o largo alcance, mas com o passar do tempo e a repetição da atividade, foi possível notar um aumento do repertório de brincadeiras, melhoria de suas narrativas e coordenação motora em geral.

Foi uma série de aprendizagens para as crianças e para mim, que pude perceber como a repetição com intencionalidade e o sequenciamento de uma proposta pode ampliar o repertório das crianças e auxiliar no seu desenvolvimento.