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Gestão por evidências se faz com relação colaborativa

Estudos internacionais mostram que relação entre gestores e professores precisa de confiança para que a aprendizagem possa avançar

POR:
Charles Kirschbaum
Crédito: Getty Images

Há, nos últimos anos, uma tendência crescente de políticas públicas que defendem o uso de dados de avaliações externas dos alunos como aspecto central na gestão do aprendizado, com o objetivo de aumentar a qualidade do ensino nas escolas públicas.

A utilização eficaz de dados para o aprimoramento do ensino depende do desenvolvimento de capacidades individuais, organizacionais e relacionais. Essa ideia traz duas implicações importantes:

1. possivelmente, a resistência oferecida pelos profissionais seja atenuada (ou mesmo revertida) com capacitação;
2. os formuladores de políticas públicas necessitam explorar como as políticas são efetivamente interpretadas e postas em prática no ‘chão-de-escola’.

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Uma gestão com foco em evidências tem um grande potencial de suporte aos professores, mas ela precisa desenvolver junto a eles uma relação colaborativa. Um diretor escolar ou técnico de secretaria de educação pode ajudar os professores a prestar atenção em padrões relevantes e, ao mesmo tempo, evitar a reação exagerada a mudanças pontuais nos resultados. Mas, para isso, a comunicação precisa dar voz também aos educadores, a partir de seus diagnósticos, dando-lhes segurança para manifestarem suas opiniões.

A seguir, recupero brevemente três estudos sobre o uso de dados nas escolas, enfatizando as implicações práticas para a gestão escolar. O primeiro é de Schildkamp e colegas (2017), que entrevistaram 1073 professores distribuídos em 10% das escolas públicas holandesas. O foco da pesquisa foi investigar em que situações os professores utilizavam dados de desempenho. Eles estavam interessados, especificamente, em distinguir a utilização de dados para fins de accountability (prestação de contas) e para fins de ensino. Eles descobriram que, quando o diretor da escola estava engajado com a utilização de dados e havia colaboração entre os professores, aumentava o uso de dados para fins de accountability. A utilização de dados para o desenvolvimento do ensino, no entanto, ocorria quando, além desses dois fatores, também havia a crença individual na utilização de dados.

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Em 2011, Farley-Ripple e Buttram (2015) realizaram um estudo entre professores do Ensino Fundamental de quatro escolas da costa leste norte-americana. Eles perguntaram aos docentes quem eles buscavam para aconselhar-se para qualquer assunto e quais colegas eles procuravam para tirar dúvidas sobre o uso de dados. A simples comparação entre o primeiro e o segundo grupo revelou que apenas 24% da rede de aconselhamento era utilizada para esclarecer tópicos relacionados ao uso de dados. Os professores se sentiam inseguros em consultar pares que não fossem reconhecidos como autoridades no assunto.

Alan Daly e colegas (2014) realizaram um estudo semelhante ao de Farley-Ripple e Buttram, mas, ao invés de se focarem nos professores, prestaram atenção às relações entre os diretores e os supervisores da secretaria de ensino em uma grande cidade americana (14 mil funcionários distribuídos em 223 unidades escolares e repartições públicas). Eles verificaram que os diretores das escolas raramente buscavam os profissionais da secretaria para se aconselhar sobre uso de dados. A pressão institucional para que as escolas alcançassem o patamar esperado fazia com que a busca de aconselhamento junto ao órgão de supervisão se tornasse um movimento arriscado:  isso poderia sinalizar que a escola não iria desempenhar bem e que o diretor não era capaz de promover as mudanças necessárias. Dessa forma, a ‘tragédia anunciada’ ocorria: quanto pior era o desempenho da escola, menor a chance de seu diretor buscar a secretaria, com receio de expor-se ao escrutínio.

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Esses estudos mostram que a capacitação dos diretores e professores é importante, mas as interpretações e práticas de “utilização de dados” são construídas com os colegas. Para uma efetiva utilização dos dados é preciso foco nos relacionamentos de colaboração e confiança. Além disso, utilizar uma mesma estrutura tanto para o aconselhamento quanto para a supervisão nem sempre é benéfica. Uma possibilidade é capacitar profissionais na secretaria que não detenham o papel de avaliação, para que o diretor não se sinta ‘avaliado’ quando busca se aconselhar. Exemplos de como fazer isso podem ser encontrados na série de estudos Excelência com Equidade, que identificou as práticas comuns às escolas que conseguem bons resultados educacionais mesmo em contextos adversos.

 

Charles Kirschbaum é professor do Insper, pesquisador associado do CEM-Cebrap e membro do comitê técnico do Iede. Atualmente, realiza pesquisa em escolas públicas com ênfase nas redes sociais internas na escola

 

Para saber mais

Farley-Ripple, E., & Buttram, J. (2015). The development of capacity for data use: The role of teacher networks in an elementary school. Teachers College Record, 117(4), 1-34.

Schildkamp, K., Poortman, C., Luyten, H., & Ebbeler, J. (2017). Factors promoting and hindering data-based decision making in schools. School effectiveness and school improvement, 28(2), 242-258

Daly, A. J., Finnigan, K. S., Jordan, S., Moolenaar, N. M., & Che, J. (2014). Misalignment and perverse incentives: Examining the politics of district leaders as brokers in the use of research evidence. Educational Policy, 28(2), 145-174.

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