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Autoconhecimento só serve para trazer mais responsabilidade para o professor?

Ou pode ser uma habilidade para perseguir e desenvolver consigo mesmo e com os alunos?

POR:
Isabel Cossalter
Crédito: Getty Images

Outro dia estava conversando com uma colega quando ela fez o seguinte comentário: “Acho que valorizar o autoconhecimento é uma maneira de aumentar a responsabilidade do professor”. Ela se referia a uma fala minha durante um debate sobre saúde emocional do professor com o médico Gustavo Estanislau, promovido por NOVA ESCOLA. Nesse dia, falamos a respeito das questões que causam estresse na vida do profissional de Educação e como amenizar e prevenir o desgaste da rotina diária.

Eu acredito que o autoconhecimento é um importante elemento de proteção à saúde. Ao mesmo tempo em que facilita a percepção da própria conduta e do grau de tolerância em relação às dificuldades enfrentadas no dia a dia, o autoconhecimento favorece a busca pelo equilíbrio físico e emocional.

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Minha colega discordou dessa visão. “Valorizar o autoconhecimento é fazer mais uma exigência ao professor. Até a BNCC fala sobre isso”, argumentou.

Eis aí uma questão que não me ocorreu e que me fez parar para pensar. Será que conhecer a si mesmo é uma competência que o professor precisa ter e da qual depende a sua capacidade de gerir a sala de aula?

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A primeira coisa que fiz foi reler o documento oficial da Base Nacional Comum Curricular. É verdade que uma das dez competências gerais recebe o título de “Autoconhecimento e autocuidado” (competência 8) e assim como as outras nove, trata do desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Provavelmente você já tenha trabalhado atividades voltadas para muitas dessas habilidades com seus alunos, antes de ouvir falar em BNCC – nas rodas de conversa, nos trabalhos realizados em grupo, nos projetos.

Entendo que o documento deixa claro que as competências gerais não são pré-requisitos, mas objetivos que devem ser garantidos até o final da Educação Básica. São o ponto de chegada de um longo trajeto. Em outras palavras, precisam de tempo para serem sedimentados com as crianças.

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Da mesma maneira, nenhum adulto alcança o autoconhecimento do dia para a noite até porque o ser humano é um conjunto complexo de heranças genéticas, emoções, crenças, ações, pensamentos e interações com diversos meios. Pode ser que soe como uma responsabilidade a mais, já que se trata de um processo de aprendizado que demanda disposição e amadurecimento para reconhecer nossas habilidades, falhas e necessidades. Mas não será uma vantagem? Penso que sim.

Vou dar um exemplo. Na minha família sempre tivemos o hábito de não desperdiçar qualquer tipo de alimento. Tudo era reaproveitado – inclusive as cascas e restos viravam adubo –, herança de avós e bisavós que viveram em um período pós-guerra em que era difícil conseguir comida. Esse é um valor que trago comigo e que levei para a minha vida profissional. Assim, sempre orientei meus alunos a pegar apenas o que iriam comer e a não jogar nada fora. O problema é que isso muitas vezes acontecia apesar da minha orientação e eu me sentia muito irritada. Foi um momento em que precisei, além de reconhecer que minha indignação só estava me desgastando, pensar uma forma de conseguir transformá-la em aprendizad o. No caso, para mim e para o grupo. Acabei elaborando em conjunto com a turma um projeto que tinha como objetivo o não desperdício (que atualmente estaria de acordo com a competência 10 da BNCC, “Responsabilidade e cidadania”). Não quero com isso dizer que sempre dei conta de tudo em sala de aula, houve situações em que as questões foram mais complexas e precisei de ajuda. Mas sempre que pude parar para avaliar minhas ações e reações encontrei mais fácil o caminho.

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Esse assunto me fez lembrar outro: a autoavaliação. Não é incomum que na primeira vez alguns alunos se mostrem bem condescendentes ao se avaliarem, ao contrário de outros, muito críticos com seu desempenho e atitudes. Geralmente, no decorrer ano, com as mediações e feedbacks que fazem parte do nosso processo de trabalho, as respostas evoluem e mostram uma autoanálise mais coerente. Eu sempre me senti orgulhosa de ver os alunos aprendendo a analisar e se responsabilizar por suas ações.

Assim como os alunos, penso que podemos ir aos poucos desenvolvendo a competência de saber quem somos e como lidamos com as diferentes situações da nossa vida, com empenho e respeito ao nosso tempo. Não como ingrediente de receita infalível que dará fim aos percalços que todos nós temos que enfrentar, mas como uma forma de proteção, carinho e cuidado pessoal. Tem sido importante para mim e espero que possa ser para você também.

Isabel Cossalter é licenciada em Pedagogia pela Universidade de Minas Gerais com pós-graduação em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Atuou como professora do curso Infantil e do curso de Magistério, é professora e coordenadora pedagógica do Fundamental I, autora freelancer para produção de livros didáticos. É integrante do Time de Autores Nova Escola de Matemática e Língua Portuguesa.

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