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Socialização na Educação infantil: o que acontece quando uma criança encontra a outra

Por mais conhecimento que o professor tenha, há coisas que só uma criança vai saber ensinar a outra

POR:
Nairim Bernardo
A escola ganha importância como espaço de convivência e interação social    Crédito: Getty Images

Até começarem a frequentar instituições escolares, geralmente por volta dos 3 anos de idade, muitas crianças têm um convívio muito limitado com outras. Principalmente se compararmos com o que acontecia há décadas atrás, pois a queda da taxa de natalidade diminuiu o número de irmãos e primos. Esse fato reforça o papel e importância da escola como um espaço de convivência e interação social. Mas como se dá o encontro da criança com o mundo para além do que lhe foi apresentado em casa e qual o papel do professor nesse processo?

Antes de tudo, a primeira tarefa dos educadores é entender que as crianças têm modos próprios, válidos e interessantes de se relacionar entre si e perceber a beleza dos momentos de interação entre elas. “Os adultos precisam se convencer de que crianças já são pessoas, não que serão apenas no futuro”, explica a professora Maria Letícia Barros Pedroso, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa Sociologia da Infância e Educação Infantil da Universidade de São Paulo. Segundo ela, o sociólogo Émile Durkheim [1858-1917] acreditava que a socialização era “vertical”, do adulto para a criança. “Mas estudos realizados nos últimos 50 anos mostram que esse processo se dá principalmente entre elas. O professor não é o centro”, diz ela.

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Hoje, a própria estrutura educacional brasileira já valoriza ações que envolvam o contato e a interação entre pares. A nona e a décima competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

tratam, respectivamente, sobre Empatia e cooperação e Responsabilidade e cidadania. “A relação entre pares nos faz pessoas. Nós não somos seres isolados, não construímos identidade sem os outros, sendo eles próximos ou distantes. É um direito da criança conviver com outras crianças e adultos”, defende Maria Letícia.

Willian Corsaro, sociólogo da infância e professor titular da Faculdade de Sociologia da Universidade de Indiana (EUA), apresenta o termo culturas infantis. Em suas pesquisas, ele percebeu que havia uma lógica na organização das brincadeiras e que nelas as crianças trabalham coletivamente atividades ou rotinas, artefatos, valores e interesses que dizem respeito a uma cultura mais ampla. Ou seja, elas já interagem de modo a compreender o mundo adulto, no que diz respeito às suas relações de gênero, classe, raça, papéis sociais, etc. O brincar de “faz de conta” dá à criança a possibilidade de antecipar papéis que ela poderá desempenhar no futuro.

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Nossa sociedade valoriza muito o modo de interação adulto-criança. Mas por mais conhecimento que o adulto tenha, há coisas que só uma criança vai saber ensinar para outra. “O professor fica tão preocupado em cumprir o protocolo que acaba dificultando um processo que deveria ser mais natural”, explica Alysson Massote Carvalho, doutor em Psicologia e diretor geral do Instituto Presbiteriano Gammon. Há um mito, diz, de que o professor deve estruturar as brincadeiras como se fossem uma disciplina. “Mas o professor precisa deixar tempo para a recreação livre. As crianças não estarão ‘perdendo tempo’, e sim desenvolvendo e consolidando habilidades”. Segundo ele, para que isso aconteça, é importante oferecer espaços cuja disposição favoreçam o agrupamento em duplas, trios, quartetos e outras organizações. Nos momentos de recreação livre, o professor deve desempenhar o papel de monitor da atividade, não de guia.

Para incentivar uma socialização rica e saudável, é muito importante que os educadores se empenhem em incluir todos da turma em todas as atividades. Caso haja alunos com deficiência física ou mental, é papel da escola providenciar espaço, materiais e estratégias que possibilitem sua participação junto à turma. No que diz respeito a gênero, a Educação não pode aceitar a constante separação entre meninos e meninas como algo inevitável. Criar espaços, caixas de brinquedos e atividades separadas entre os gêneros é uma atitude equivocada e que não é interessante para ninguém em um processo de socialização humana.

Uma proposta bastante interessante é a de organizar momentos de atividades entre crianças de idades e turmas diferentes. Ao contrário do que o senso comum supõe, essa relação não se resume em um risco para a segurança das menores. Crianças tendem a se interessar muito pelas mais novas e até pelos bebês; e, quando colocadas em contato, podem desenvolver um senso de cuidado e proteção. Também ganham a possibilidade de realizar algo essencial na socialização humana: ensinar aprendizados já adquiridos. “Um ambiente diverso pode ser um fator de proteção e desenvolvimento social e afetivo. As mais velhas reforçam para si mesmas o que estão ensinando e quem aprende tem a oportunidade de fazer isso com uma figura que não é adulta. Outro fator de importância é o aprendizado de modos de trabalhar em equipe e confiar no outro”, comenta o psicólogo Alysson. 

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No que diz respeito aos professores, a tarefa mais importante nesse momento em que as crianças começam a se relacionar e construir repertório juntas é justamente o da observação. “O professor tem que verificar do que as crianças estão brincando e como elas estão brincando, como se agrupam, se há crianças afastadas ou mesmo excluídas do grupo e qual repertório elas trazem de casa”, explica a professora Maria Letícia. “Não dá para ser um bom profissional sem saber com quem se trabalha”.  Segundo ela, o professor deve ter uma postura de pesquisador e um olhar sensível (que pode ser desenvolvido com o tempo), pois é frequente que durante suas observações, ou na falta delas, perca momentos interessantes – enquanto estava na expectativa fixa de obter outro resultado. “Se surpreender com as crianças é uma competência que o professor tem que desenvolver. Até na mesmice e na recorrência do que os pequenos apresentam pode haver algo interessante”, complementa Maria Letícia.

Entretanto, não se deve julgar ou esperar do educador e da escola que seu trabalho seja inteiramente responsável pela formação social e humana de quem passa por ela. Esse processo é bastante complexo e se dá no ambiente doméstico, na rua, no contato com as pessoas em outros espaços e no que veem nos meios de comunicação. Não é algo restrito a um período específico, mas um processo contínuo ao longo da vida. “As crianças são o que são no presente, depois elas vão se modificando”, afirma Maria Letícia. “Nós as educamos hoje, e por mais que tenhamos esperanças, não podemos garantir que elas vão se tornar ‘isso ou aquilo’. Temos que incentivá-las a ter experiências significativas enquanto crianças, no presente. Mas elas não vão se apropriar de tudo o que apresentamos”, avisa a professora Maria Letícia.

 

Indicações de leitura

CORSARO, W. A. Sociologia da infância. Porto Alegre: Artmed, 2011

"A gente gosta é de brincar com os outros meninos!" Relações sociais entre crianças num Jardim de Infância

O desenvolvimento social da criança e seus contextos de emergência     

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