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Choro e birra na Educação Infantil podem ser resolvidos com conversa e habilidades socioemocionais

Não é indisciplina: sem recursos para explicar o que sentem, as crianças choram mesmo. Veja estratégias para acolher os pequenos durante a dor

POR:
Paula Salas
"Você não está me entendendo" O que fazer quando a criança chora?   Crédito: Getty Images

Se o desconhecido gera medo e insegurança nos adultos, imagina se você tem apenas 3 anos? E se ainda por cima, você não soubesse explicar aquele sentimento e ninguém parece entender sua dor, o que você faria? Não é fácil nem para os pequenos nem para o professor que precisa lidar com essa situação, mas o educador não está de mãos atadas.

A birra é a evolução do choro que foi potencializado, vem acompanhado de teimosia e é mais comum com a famíia. No entanto, nenhum dos dois pode ser reduzido a um comportamento de rebeldia ou uma escolha da criança. “O repertório da criança para lidar com o que ela sente é restrito, por isso a maioria vai para o choro”, esclarece Rosane Voltolini, psicóloga e coordenadora dos dos núcleos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul da Associação pela Saúde Emocional das Crianças (ASEC). “É um jeito fácil de ter o que quer, mas na medida que vai crescendo percebe que não é uma forma eficaz”.

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O choro, portanto, é uma maneira de a criança expressar o que está sentindo e que, muitas vezes, ela nem é capaz de definir ainda. “O choro é uma forma de comunicação. A criança ainda está aprendendo a contar seus desejos e algumas ainda não encontraram a forma de dizer e recorrem ao choro”, afirma Camila Bon, consultora pedagógica da Educação Infantil. O papel do professor de Educação Infantil, diz ela, é entender essa comunicação. “Como professora tento fazer a leitura de qual tipo de choro”, diz.

O choro também não pode ser taxado de indisciplina, pois a criança não sabe o que é ter disciplina ou qual o comportamento “adequado”. “São problemas, sentimentos, medos, inseguranças de uma criança que acabou de chegar no mundo. A escola tem que estar afetivamente aberta para isso”, explica Karina Rizek, especialista em Educação Infantil e formadora da Escola de Educadores.

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Além de acalmar a criança naquele momento de dor, é possível diminuir a ocorrência de choro. A chave está na forma com que a criança é acolhida e no olhar atencioso do professor para compreender o que está por trás daquele sofrimento. Entenda melhor algumas estratégias possíveis para esses momentos: 

Fique calmo, não é pessoal

“A criança só chora quando me vê ou quando pego ela no colo, ela não gosta de mim”. Nada disso! O choro não é direcionado ao professor. “É muito importante que o educador mantenha a calma, porque os pequenos se espelham muito no adulto. Ver um adulto perceptivelmente irritado só vai potencializar o choro”, explica Rosane Voltolini.

Para acolher, a  psicóloga indica que o educador se abaixe para falar com a criança para olhar nos olhos dela, converse com segurança e utilize uma linguagem que ela consiga entender. Em resumo: ter uma reação empática. Camila Bom acrescenta: “Lembre que vai passar”. 

Adaptação é difícil mesmo

Tem fases que não tem jeito, é complicado. A adaptação à escola é uma delas. Para tentar facilitar o distanciamento dos pais e responsáveis, a parceria com a família é essencial. Para uma adaptação mais tranquila, é importante que a transição seja gradual e respeite o tempo da criança. O que cabe à escola é mostrar como aquele espaço é interessante e prazeroso. Ajudar a criança a se sentir segura e a criar esse vínculo com a escola. 

Ignorar o choro da criança não é solução   Crédito: Getty Images

Investigue as causas

“Mesmo de quem chora mais, nunca se pode ignorar o choro”, alerta Karina Rizek. É preciso ter um olhar atento e entender o que está por trás daquele choro. O primeiro passo é descartar um mal-estar físico e, se não for o caso, investigar com a criança para descobrir a verdadeira causa. É importante que, além de oferecer um apoio maior naquele dia, o professor converse com o aluno e explique que há outras estratégias para que ele possa se comunicar, além do choro. 

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Também é possível assumir uma postura preventiva e se preparar para as fases de desenvolvimento dos pequenos. “A partir dos 3 anos, eles começam a sentir muito medo. É interessante fazer rodas de conversa sobre medo para que a criança perceba que não está sozinha. O choro pode ser sinal de insegurança”, indica Karina. 

Mantenha um olhar atencioso

Além da forma que acolhe, é importante acompanhar as crianças. Perceber se é algo recorrente, se durante aquela semana a criança está diferente, se é apenas na escola que chora. “Pode ser que seja um momento da criança, por isso é importante dar um tempo para ela, mas sempre vale pensar alternativas junto com a família”, diz Karina.

Conhecer cada criança, suas necessidade e interesses ajuda na hora investigar os motivos do choro e traçar estratégias para desenvolver na criança habilidades comunicativas mais eficazes. “Cada criança é única e ela vai te mostrar um caminho possível. O professor precisa se manter aberto e se colocar numa relação empática”, afirma Camila. 

Valorize os sentimentos

Quem nunca viu uma criança chorando e disse que não era nada? Não reconhecer essa dor é o que faz com que ela continue gritando e pedindo por atenção. Nesse momento, o adulto precisa validar aquele sentimento, ajudar a criança a nomear o que está sentindo e ampliar seu repertório para lidar com as emoções. Não reconhecer a dor daquela criança é o que faz com que ela continue gritando, buscando por atenção.

Na hora do choro, é possível questionar a criança para que ela tente explicar o que aconteceu. “Às vezes, a criança pequena vai se ater aos fatos e não olha para o todo, então o professor precisa ajudá-la a pensar no que ela fez, no que ela poderia ter feito diferente”, explica Rosane. “O professor, ao perceber que a criança não sabe dar nome, pode dizer que aquilo é tristeza e reconhecer a emoção”.

Uma alternativa para promover a discussão sobre sentimentos é utilizar histórias e imagens sobre sentimentos. “A criança relaciona o que ela vive com o personagem”, diz a psicóloga.

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A consequência direta desses exercícios – que devem ser diários – é que a frequência de choro vai diminuir gradativamente. A tendência é que criança utilize outras formas para se comunicar. “Se ainda é frequente, é a prova de que aquele aluno ainda não tem repertório de como lidar com essas situações”, aponta Rosane.

Esteja atento aos estímulos

É importante observar a dinâmica da aula e em que momentos o choro aparece. É possível que ao mudar as propostas da sala de aula, a frequência do choro diminua. “Se tenho propostas desafiadoras ligadas àquela etapa de desenvolvimento e às necessidades de aprendizagem da criança, o choro existe apenas no mal-estar”, afirma Karina. Por isso, a formadora indica verificar se a criança tem um espaço com uma boa organização, com materiais interessantes que incentivem a autonomia e a exploração.