Escolas mostram a importância da participação da família

Duas escolas públicas comprovam que o envolvimento de pais e responsáveis é capaz de provocar pequenas revoluções

POR:
Ricardo Prado

 

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As "mães do Átila" Ana Lucia, Maria Zulene, Sonia, Rubeniza e Gersiene (no sentido horário), na quadra que foi resgatada do domínio dos traficantes: luta para participar da vida da escola

Conta Zulene Martins Baia, moradora do bairro de Eldorado, em Diadema, na Grande São Paulo: "Eu tinha acabado de matricular minha filha no Átila Vaz quando um aluno foi assassinado lá dentro, na porta da sala de aula. Fiquei desesperada, tentei transferência, mas não consegui". Zulene soube que um grupo de mães estava se reunindo para encontrar uma forma de participar mais da vida estudantil dos filhos. Procuravam uma maneira de superar a resistência da diretora à participação. Já que não havia como mudar sua filha de colégio, juntou-se ao grupo.

Conta a psicóloga Maryluci Faria, pesquisadora e coordenadora comunitária do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, uma Organização Não-Governamental que obteve financiamento do Banco Mundial para estudar a violência na cidade: "Chegamos à escola com uma comissão que havíamos formado na Câmara Municipal. Alguns professores haviam pedido ajuda, pois estavam assustados com o que acontecera". A comissão não pôde entrar, pois a diretora alegava que não tinham autorização. Mas a viagem não foi em vão. Na calçada, a pesquisadora, que desde 2000 trabalha nos projetos do instituto em Diadema (leia quadro ao lado), conheceu aquele grupo de mães que tentavam a todo custo participar da Associação de Pais e Mestres (APM).

Conta Ruth Francisca Ponciano Nogueira, uma das "mães do Átila": "Eu estudei lá e não me conformava de ver aquilo tão abandonado. Até a quadra não era mais usada e estava isolada do prédio por um muro".

O muro da vergonha

Os três relatos acima mostram como a situação na Escola Estadual Átila Vaz, em março de 2001, era grave. Não se podia sequer usar a quadra, que se tornara uma espécie de terra de ninguém. Como não havia portão que a separasse da rua, a direção, assustada com a invasão e o acerto de contas no corredor, preferiu fechar outro, o que ligava a quadra ao pátio. E os alunos ficaram sem ela. Cada vez mais acuada, a antiga diretora não conseguia ver naquele grupo de mães possíveis aliadas e tentou, novamente, dissuadi-las de participar das reuniões. Mas aquele encontro na calçada tivera um efeito prático: Maryluci levou-as à dirigente regional de ensino, e da reunião elas saíram com informações que lhes garantiam participar da APM, mesmo sem direito a voto. "A diretora não gostou nem um pouco quando viu a gente", recorda-se Gersiene Silva, atual presidente da APM e uma das "mães do Átila". "Ela usava palavras difíceis para que ninguém entendesse. Foram várias reuniões em que não se decidia nada, nem a data da festa junina."

Naquele ano trágico, a festa afinal se realizaria, mas apenas com os estudantes, para frustração de Gersiene. "Todos estavam traumatizados, não havia clima", justifica Eleni de Jesus Santos, coordenadora pedagógica, que presenciou a queda-de-braço entre a direção e as mães. No fim do ano, a diretora entregou os pontos, pedindo remoção. Passamos agora para outra história de festa junina, esperando que as duas se encontrem adiante, na mesma conclusão.

Uma piscina em 22 dias

Escola Estadual Sérgio Buarque de Hollanda, na mesma Diadema, 1996. A recém-chegada vice-diretora Rosemary Vieira Santos Dias estranhou que os pais tivessem que assistir à festa junina da então EEPG Vila Dirce do lado de fora do pátio, separados por uma grade. Lembrou-se de tirar uma foto na ocasião e mais não pôde fazer. Dois anos depois, para sua felicidade, assumiu a direção Carlos Vismara. Começa, então, uma fantástica mudança de postura. Carlos e Rose acham que quanto mais os pais participam, melhor. E assim foi.

Quem visitar a unidade hoje terá várias surpresas, a começar pela cor das paredes. Nada daquele gelo asséptico ou do branco invariavelmente encardido. A Sérgio Buarque de Hollanda é solar, pintada de amarela. Com pouco terreno, de recorte irregular, não havia espaço para uma quadra. Os pais foram chamados a procurar uma solução para o excesso de energia de seus filhos - crianças de 1a a 4a série do Ensino Fundamental. Alguém sugeriu, "meio de brincadeira", que construíssem uma piscina. Vismara levou a sério a proposta, achou que seria mesmo uma boa solução. Era maio de 2001 e em pouco tempo já tinham definido o lugar e o orçamento: cerca de 14 mil reais. Com boas relações com a comunidade, cada um ajudando no que podia, entre materiais, mão-de-obra e boa vontade, o custo da obra caiu para 8,2 mil reais. O dinheiro saiu da venda de bilhetes para a festa junina - que, por sua vez, davam direito a prêmios oferecidos pelo comércio vizinho. No dia da festa, a piscina foi inaugurada. Da idéia à realização, 22 dias!

Foi montada também uma biblioteca, aberta à comunidade, com mais de 10 mil volumes. Criou-se uma brinquedoteca e, dentro dela, a maior atração é o videoquê. "É uma forma de a criança adquirir prontidão de leitura", argumenta Rose. É claro que a garotada adora. Criou-se uma sala de informática com nove computadores e todas as nove salas de aula possuem videocassete e televisão. O saudável hábito de dançar todos os dias foi instituído, no recreio. Dança quem quer, mas quase todos querem. Com o problema de espaço nas salas alternativas, as turmas são divididas em três, de forma que alguns usem o computador, outros a brinquedoteca, outros a piscina. Depois há o rodízio. Tudo, da forma como gerenciar o espaço aos equipamentos, foi discutido com os pais como parceiros.

Há passarinhos e maritacas em um viveiro interno, somando pios e cantos à algazarra infantil. Quando uma galinha garnizé apareceu e foi "adotada" pelos pequenos, o diretor fez um outro viveiro, junto ao pátio externo. Seria uma forma de a garotada, criada na cidade, estudar ecologia na prática, já que uma das alunas, perguntada de onde vinha a galinha, respondera que era "do supermercado". Alguns alunos trouxeram pintinhos, veio um galo, galinhas-d?angola e até um peru - confundido por alguns com um pavão, que está prometido mas ainda não veio. As aulas de Ciências incluem o acompanhamento do choco das aves, a medição dos ovos, o momento mágico do nascimento e a evolução dos filhotes. As crianças só não concordaram que o ciclo de vida terminasse na panela. "Daí, começamos a ter problema com o excesso de galos, que brigavam muito. De vez em quando o Carlos precisa vir aqui no fim de semana e dar cabo de alguns", confessa Rose.

Continuismo do bem

Quando a Sérgio Buarque de Hollanda recebeu uma verba para embelezamento das instalações, a comunidade decidiu aproveitar um canto do pátio para construir uma pequena cascata, batizada de "Recanto das Valkírias", em homenagem a uma professora falecida pouco antes. Virou uma espécie de sala de aula ao ar livre. Quando a Átila Vaz recebeu a mesma verba, a atual diretora, Neusa Castiglione Ellaru (que sucedeu Regina, que sucedeu aquela que resistia às "mães do Átila" e que será sucedida por outro diretor no fim deste ano), convocou a APM, agora composta de quem de fato queria trabalhar, para que a comunidade decidisse o que fazer.

Abre-se aqui um parêntese para comentar outra violência que precisa ser observada: a da burocracia que troca, em um único ano, quatro vezes um cargo estratégico como o de diretor. Segundo o Instituto Fernand Braudel, 44 escolas de Diadema tinham novos diretores no começo do ano e outros 23 seriam trocados durante as férias de julho. A pesquisadora Maryluci conta que trabalhou em 15 delas; apenas três mantiveram a direção. Enquanto isso, na Sérgio Buarque de Hollanda, os quatro anos com o mesmo diretor mostram claramente como a continuidade administrativa - e inclui-se aí a do corpo docente, que tende a permanecer quando a direção é harmônica - faz bem aos alunos. Admitido o direito de docentes se removerem (sem ele, por exemplo, a antiga diretora do Átila Vaz talvez estivesse lá até hoje), e levando-se em consideração que não é simples administrar 235 mil funcionários, seria bom que, pelo menos, fossem canceladas as mudanças no meio do ano letivo. Fim do parêntese.

A quadra reconquistada

O grupo do Átila Vaz usou a verba de embelezamento para criar um jardim. Pode ser um sinal, o começo de uma mudança. A quadra recebeu iluminação, cobertura e foi "reconquistada". "Só falta o portão, que já está pedido", diz a diretora Neusa. A participação dos pais nas reuniões aumentou em 80%. E agora inclui vivências, como pedir que eles desenhem a família e, depois, procurem identificar, entre os desenhos dos filhos, as próprias famílias. O grêmio foi reativado e duas chapas concorreram, mobilizando os jovens. A sangria de matrícula estancou-se e a festa junina foi aberta à comunidade, num ato simbólico que ajudou a exorcizar a tragédia do ano passado. "Durou o dia todo, veio um monte de gente do bairro e nem precisou de carro da polícia na porta", conta orgulhosa Gersiene, uma das líderes do bravo grupo de mulheres que descobriu, na prática e na garra, com quantas mães se faz uma boa escola.

Violência se combate com inteligência

Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, associado à Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), criado em 1987, é apoiado por um grupo de 40 empresas nacionais, além de fundações norte-americanas, como Ford e Tinker. Leva o nome do historiador francês, que foi um dos fundadores da Universidade de São Paulo. Com apoio do Banco Mundial, iniciou em junho de 2000 um trabalho que visava diagnosticar as causas da violência em Diadema, na época a segunda cidade com mais homicídios por mil habitantes do país. Representava o terceiro setor em uma articulação conjunta que envolveu a prefeitura, as polícias militar e civil, a Câmara Municipal, comerciantes e cidadãos. O resultado dessa ação conjunta já se faz sentir. De 374 homicídios em 1999, o número caiu neste ano (até setembro) para 156.

Além de ações junto à sociedade civil, como os fóruns de debate sobre educação pública, o instituto vem desenvolvendo círculos de leitura em quatro escolas públicas.

 

 

Quer saber mais?

Escola Estadual Sérgio Buarque de Hollanda, R. 19 de Novembro, 21, CEP 09912-140, Diadema, SP, tel. (0_ _11) 4056-6480

Escola Estadual Átila Ferreira Vaz, R. Badejo, 257, CEP 09972-030, Diadema, SP, tel. (0_ _11) 4043-5333

Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, R. Ceará, 2, CEP 01243-010, São Paulo, tel. (0_ _11) 3824-9633, internet: www.braudel.org.br

 
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