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Solidão do professor: está na hora de compartilhar

A solidão em ser professor está entre as queixas mais comuns relatadas pelos docentes brasileiros. Saiba mais sobre os impactos dessa sensação e como criar redes de apoio para professores

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Crédito: Getty Images

Apesar do professor passar boa parte do seu tempo em sala de aula cercado de alunos e com a rotina bastante agitada, a solidão na profissão é um tema bastante comum entre os docentes brasileiros.

Segundo dados obtidos pela QEdu na pesquisa Prova Brasil 2017 sobre as interações humanas entre os professores brasileiros, o levantamento aponta que:

- 65% desses profissionais não costumam trocar com frequência material didático com os colegas de profissão
- 67% não participam de reuniões semanais com colegas que trabalham na mesma série
- 86% não têm o costume de se reunir semanalmente para elaborar atividades conjuntas - tais como projetos interdisciplinares - com outros professores
- 65% não têm a oportunidade semanal de se reunir com seus pares para discutir a aprendizagem dos alunos
- somente 46% sentem que participam das decisões tomadas em relação ao trabalho na escola
- apenas 37% sentem que suas ideias são levadas em consideração pela equipe de professores de onde atuam.

Além do que apontam esses dados, os relatos trazidos por professores em conversas após a pesquisa A saúde do educador brasileiro (2018), evidenciam que os professores se sentem cada vez mais sozinhos e sem espaços para troca e diálogo. Além disso, a sensação de isolamento pode se intensificar quando o professor é inciante na profissão, quando trabalha em mais de um local, ou é o único a lecionar determinada disciplina na escola.

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Se sentir sozinho na profissão pode aumentar ainda mais a pressão no professor, aumentando os impactos em sua saúde emocional. O sentimento de solidão pode ampliar as chances de Burnout – a síndrome do esgotamento físico e mental –, intensificar a probabilidade de depressão, já que há pouco espaço para o compartilhamento das angústias inerentes à profissão, e minar a capacidade criativa desse profissional em desenvolver aulas, projetos estimulantes para os alunos e diferentes alternativas para si mesmo, já que o próprio compartilhamento de ideias é terreno fértil para a criação. Não falar sobre o que causa angústia ou não ser capaz ou encontrar acolhimento para verbalizar o que está dando certo também são componentes para que o professor não confie em si mesmo ou se fortaleça na profissão. 

Como diminuir a solidão do professor?

De acordo com o pesquisador Richard Ingersoll em análise divulgada pelo National Center for Education Statistics sobre os tipos de programas desenvolvidos para apoio do professor no início de carreira, há duas maneiras efetivas de diminuir a sensação de solidão e de controlar o índice de abandono da profissão: denominar um mentor para cada professor e garantir que o profissional tenha tempo de trocar e colaborar com seus parceiros na escola.

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Programas de mentoria entre professores mais experientes com os iniciantes ou entre professores da mesma área são apontados como uma das formas mais eficazes de propiciar apoio na profissão, criar clima escolar positivo, desenvolver conexões pessoais e profissionais e auxiliar no planejamento e organização das tarefas profissionais (Teacher Wellbeing, 2017). Na formação do docente, o ideal seria que houvesse maior incentivo no início da profissão, com observação de aulas, estabelecimento de rede de apoio desde o início da atuação, formação integral e acesso a recursos para auxiliar no dia-a-dia do profissional da Educação. A formação continuada também é uma excelente oportunidade de atualizar os conhecimentos e compartilhar os saberes trazidos pela prática.

No cotidiano, cada escola pode fortalecer o senso de comunidade, criando espaços de troca presenciais e/ou virtuais para dialogar sobre a prática docente e se ajudar em temas como manejo de sala de aula e desafios da profissão, propondo a construção de rubricas coletivas para observação de aulas e feedback entre pares, trazendo a possibilidade da construção de projetos interdisciplinares e se assegurar que cada professor seja ouvido em suas contribuições e valorizado por sua atuação. Mesmo que, por muitas vezes, o entorno não valorize o professor, podemos optar por seguir juntos e por solidificar o senso de comunidade.

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Além das sugestões citadas, gestores devem se atentar e identificar as demandas dos professores a partir dos relatos dos próprios. Perceber as raízes da solidão em cada escola pode propiciar a construção coletiva de medidas que visam aliviar esse problema. Ser professor está muito além da apropriação de conteúdos, do planejamento didático e da correção de provas. O professor atua, sobretudo, com o desenvolvimento do ser humano e lidar com esse campo traz desafios que ultrapassam o ensino e aprendizagem. Somo seres sociais que anseiam por vínculo e por troca. Quando nos sentimos fortes e amparados, nos tornamos capazes de superar nossas dificuldades e frustrações e de vislumbrar novas possibilidades para a própria saúde emocional. Nem sempre é simples eliminar o sofrimento pelo qual o professor está passando. Entretanto, sempre é possível oferecer a escuta e o apoio na profissão.

 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha como consultora de projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

 

Referências bibliográficas

 

National Center for Education Statistics

 QEdu: dados da Pesquisa Prova Brasil (2017)

 Teacher Wellbeing: A review of the literature (2017). F McCallum, D Price, A Graham, A Morrison. AIS: NSW, The University of Adelaide, Australia 34

 

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