"A literatura me aproxima dos alunos"

Depoimento da professora e escritora Maria Vilani

POR:
Alexandre de Melo
Maria lançou livros, criou um centro cultural e continua a orientar adolescentes. Foto: Fernando Martinho/Paralaxis
Maria lançou livros, criou um centro cultural e continua a orientar adolescentes
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"Quando saí de Fortaleza rumo a São Paulo, deixei parte das minhas roupas para poder trazer os livros nas poucas malas que tinha. Não queria ficar em uma cidade estranha sem nada para ler e, de fato, eles foram meus companheiros por muito tempo. Meu pai sempre leu bastante para nós e consegui que meus filhos também crescessem rodeados por histórias.

Na infância, não pude estudar. Por isso fiz o antigo Madureza Ginasial, com mais de 18 anos, no Ceará. Em São Paulo, senti uma necessidade grande de buscar acesso à cultura e retomar os estudos para que pudesse acompanhar a Educação dos meus cinco filhos. Quando me mostravam a lição de casa, por exemplo, eu tinha dificuldade para orientá-los. Então, fui finalizar minha formação ao mesmo tempo que cuidava da deles. Eu estava com 39 anos e me colocaram em uma turma barulhenta, na mesma sala do meu filho Kleber, o cantor Criolo.

Estudar com ele foi muito natural porque sempre levei meus filhos a minhas atividades. A gente já compunha músicas, encenava peças e fazia poesias juntos no Centro de Arte e Promoção Social (Caps), que eu criei em nosso bairro.

Depois que terminei o Ensino Médio, entrei na faculdade. Me formei em Filosofia e, mais tarde, em Pedagogia. Fiz uma especialização em Filosofia Clínica e outra em Língua, Literatura e Semiótica. Escrevi três livros, publicados com a ajuda de amigos e vendidos de porta em porta, igual 'jegue de verdureiro'.

Aproveitei minha paixão por literatura para lecionar. Por 15 anos, dei aulas de Língua Portuguesa, História e Filosofia no Ensino Fundamental e no Médio. Sempre começava com a leitura de um conto ou de uma poesia. Isso fazia com que os alunos prestassem mais atenção em mim. Alguns me confidenciaram que aprenderam a gostar de poesia por causa dessa prática.

Recentemente, um problema de saúde afetou minhas mãos e me impediu de permanecer na sala de aula. Então, fui readaptada na mesma escola. Pensando em como os estudantes quase não têm voz, criei o programa Escutando e Orientando. Todos os dias, recebo os jovens em minha sala e os ouço, sem juízo de valor. Deixo que falem o que aconteceu e, depois de muita conversa, tento ajudá-los a encontrar uma solução. Após alguns encontros, um aluno que liderava a indisciplina em sala, por exemplo, vem mudando de postura e passou a entregar suas atividades e evoluir nos conteúdos. Vários passam a ler mais e a frequentar o Caps e, assim, a leitura também os transforma."

Maria Vilani é docente da EE Professora Adelaide Rosa Ferreira Machado de Souza, na capital paulista

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