Liderar para o aprendizado

Manter diretores sempre atualizados ajuda (e muito!) na qualidade da Educação

POR:
Rodrigo Ratier, Ana Rita Martins

Originalmente, o relatório da McKinsey possuía apenas três lições. A quarta, sobre gestão, nasceu da constatação prática de que, depois da qualidade do professor, a liderança escolar é a segunda característica que mais influencia a aprendizagem. "A idéia de que toda escola precisa de um grande gestor já estava presente quando falamos da formação dos professores. Mais tarde, decidimos enfatizar esse ponto em uma lição específica porque, sempre que se inicia uma reforma, é preciso assegurar que as pessoas certas estejam no lugar certo. Garantir isso é função da liderança escolar", afirma Mona Mourshed, coordenadora do estudo.

Sistemas de alto desempenho têm sucesso na gestão escolar pela aplicação de três medidas: atrair as melhores pessoas para a tarefa, incentivá-las a desenvolver habilidades de liderança e fazer com que elas dediquem a maior parte de seu tempo à formação permanente de professores e funcionários, em vez de se ocupar só com tarefas burocráticas. Cingapura é um país que consegue conjugar essas práticas. O acesso à carreira de salários altos só se efetiva depois de uma pesada formação de seis meses no Instituto Nacional de Educação. No dia-a-dia, a formação segue na forma de tutoria: cada diretor pode eleger outros dois para obter aconselhamento sobre sua atuação (leia no quadro abaixo).

Em Cingapura

Pré-requisitos: graduação, atuação destacada e curso específico
Indicação: avaliação do Ministério da Educação

Os escolhidos
Diretores são selecionados em rigoroso curso de seis meses

POLÍTICA PÚBLICA Governo incentiva diretoras iniciantes, como Wei-Li Liew (à esquerda), a buscar mentores. Foto: Ng Sor Luan/ Sph - The Straits Times
POLÍTICA PÚBLICA Governo incentiva diretoras iniciantes, como Wei-Li Liew (à esquerda), a buscar mentores

Primeiro, eles precisam provar que foram ótimos alunos na faculdade. Depois, necessitam construir uma trajetória destacada nas escolas em que atuam - se quiserem ser diretores, esse é um dos itens que mais conta. Finalmente, têm de sobreviver a um curso de formação do Ministério da Educação focado em Administração e Liderança. "Há muita prática nesse programa. Uma de minhas missões era seguir os passos de uma diretora e implantar um projeto inovador na escola dela", conta Wei-Li Liew, diretora da escola Xinmin, em Cingapura. No fim, um seletivo exame elimina os menos preparados. Acabou? Não. Desde 2007, o Ministério da Educação convida profissionais iniciantes a participar de um programa de mentoria. Wei-Li escolheu dois colegas mais experientes para aconselhá-la - entre eles, a diretora que teve de acompanhar, especialista em planejamento estratégico e currículo. "Ao longo do ano, há pelo menos seis sessões formais com os mentores. Nesses encontros, posso discutir a liderança e debater os problemas práticos que enfrento na escola." Nos próximos anos, ela pretende seguir uma das opções que o governo oferece: mestrados, especializações ou programas de interação com os pares.

A situação brasileira é uma cópia em negativo do parágrafo anterior. Para atuar como diretor de escola, o profissional precisa ser formado em Pedagogia - ou ainda ser graduado em outras áreas e ter licenciatura em Educação. É muito pouco em termos de gestão. "O educador sai da faculdade sabendo apenas o básico e precisa de uma preparação posterior que amplie seus horizontes e crie a possibilidade de ele se tornar um profissional melhor", afirma Bernadete Gatti, diretora de Pesquisas da Fundação Carlos Chagas, em entrevista ao Especial Gestão Escolar de NOVA ESCOLA. Por essa razão, é comum que o gestor encontre dificuldades para as quais a faculdade não o preparou (saiba mais no quadro abaixo).

 

 

No Brasil

Pré-requisito: graduação em Pedagogia
Indicação: nomeação, eleição ou concurso

Por conta própria
Gestores precisam pagar pela formação específica

ESFORÇO PESSOAL Para se especializar, Micele arcou com todos os custos do curso de gestão. Foto: Ademilde Correia
ESFORÇO PESSOAL Para se especializar, Micele arcou com todos os custos do curso de gestão

Embora existam opções de formação continuada financiadas pela União, pelos estados e pelos municípios, muitos educadores são obrigados a usar as próprias economias para bancar a capacitação. "Eu me tornei diretora há três anos. Aprendi na prática e com as leituras extras que fiz. Para enfrentar melhor o desafio, paguei por conta própria um curso de especialização em gestão escolar. Não foi fácil: gastei 5 mil reais em um ano de curso, fora o dinheiro da passagem e da alimentação, pois ele era na capital do estado", conta Micele Albano de Moraes, diretora da EE Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em Monte Negro, a 250 quilômetros de Porto Velho. A necessidade de complementar a graduação em Pedagogia nasceu da fragilidade da formação. "É a realidade da maioria das faculdades: algumas preparam para a liderança, mas a maioria não", afirma Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas. Para driblar a enorme distância entre teoria e cotidiano escolar, Micele se aconselha com os integrantes mais experientes de sua equipe. "A vice-diretora, Marlene, trabalha há 25 anos com Educação e me ajuda nessas horas. Sinto que compartilhamos um compromisso pelo aprendizado. Isso me motiva a seguir adiante."

 


POR ONDE COMEÇAR 

Para enfrentar as deficiências da formação inicial, é quase inevitável que os gestores precisem recorrer à formação continuada. Os dois maiores cursos apostam na capacitação a distância. Apoiado em parcerias com Secretarias Estaduais e Municipais, o Ministério da Educação mantém o programa Escola de Gestores, iniciativa de qualificação que inclui cursos de extensão, atualização e pós-graduação, com uma carga horária que varia entre 100 e 400 horas. Já o Conselho Nacional dos Secretários da Educação (Consed) organiza o Programa de Capacitação a Distância para Gestores Escolares, o Progestão, que já treinou cerca de 100 mil gestores em mais de 20 estados. Três quartos do total de 270 horas/aula são ministrados a distância.

Se a escolha forem os cursos presenciais de especialização ou mestrado em gestão escolar, a recomendação principal é ficar atento ao currículo, que deve ter como foco a aprendizagem e o que ocorre nas salas de aula. Uma terceira alternativa, mais abrangente, são cursos que envolvem todo o município na melhoria escolar. "Nesse caso, consultores acompanham a implantação de novas práticas e orientam as mudanças junto a todos os agentes do processo educativo. O diretor é elemento central nessa transformação", afirma Tereza Perez, diretora-executiva do Cedac.

GRAU DE DIFICULDADE 

Médio. Há medidas simples e de fácil comprovação prática. Muitos programas de formação continuada começam pela gestão do espaço escolar, prática que contempla a atuação em equipe, as relações interpessoais e a interação com a comunidade. O impacto na aprendizagem é mais difícil de ser observado, pois há outras variáveis envolvidas na melhoria do desempenho dos alunos - ele está mais relacionado, por exemplo, ao papel do coordenador pedagógico.

CUSTOS 

Variáveis. O Escola de Gestores, do MEC, não tem custo para o município. O secretário entra em contato com a Undime e indica os profissionais que gostaria de capacitar. Nos cursos de especialização e mestrado em gestão escolar, a opção por universidades públicas representa uma redução sensível (ou total) nos custos. E no Programa Escola Que Vale, do Cedac, a estimativa é de uma mensalidade de 22 reais por beneficiário.

TEMPO ESTIMADO 

A gestão do espaço escolar costuma ter resultados imediatos. Cuidados com a limpeza, a distribuição da merenda e a conservação da escola podem ser a mola propulsora de uma mudança profunda. Quando bem conduzida, a ênfase no trabalho em equipe também aparece no curto prazo. O impacto na aprendizagem é mais demorado. Resultados palpáveis são sentidos a médio e longo prazos - ainda assim, embalados em um conjunto de políticas.

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