Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Alunos diferentes pedem estratégias diferentes

Aquele aluno que não registra nada no caderno nem sempre tem um problema. Que tal pensar em outras maneiras de fazê-lo aprender?

POR:
Mara Mansani
Quatro crianças enflieiradas na carteira fazendo atividade em folhas individuais
Crédito: Getty Images

“Precisamos respeitar o tempo de aprendizagem de cada aluno, levar em conta que cada um é cada um, aceitar que nossas turmas são heterogêneas, que nossos alunos aprendem de diferentes formas”. Quem nunca ouviu ou repetiu esse tipo de discurso? Muitos de nós, professores alfabetizadores, nos identificamos com esses argumentos, não é mesmo?

Mas há uma grande diferença entre o discurso e a prática em sala de aula. Ficamos aflitos e até estressados quando, em nossa turma, principalmente na etapa em que as crianças estão aprendendo a ler e escrever, encontramos alunos fora do “padrão” que estabelecemos como ideal. Mas não é necessário muito tempo de experiência em sala para perceber que esse aluno que idealizamos não existe. O que não significa que a gente deva perder o foco na ideia de que todos podem aprender.

Você já deve ter encontrado em alguma de suas turmas alunos com pelo menos uma dessas características:

  • Não fazem todas as atividades propostas;
  • Os cadernos são desorganizados ou quase destruídos;
  • Não param em seus lugares;
  • Fazem as atividades devagar demais ou rápido demais;
  • Não fazem registros escritos.

Já encontrei muitos que apresentavam essas características. Depois de muito estresse e conforme os anos de experiência foram crescendo, cheguei à conclusão de que, em muitos desses casos, o que pode fazer a diferença e contribuir significativamente na aprendizagem são medidas que cabem muito mais a mim do que às crianças: a mudança na minha postura no trato com esses alunos, boas intervenções pedagógicas, práticas que levem em conta as diferentes formas de se aprender, diferentes linguagens para abordar o conteúdo, entre outras coisas.

Um aluno de uma das minhas turmas de alfabetização deste ano contém todas as características que eu listei. Todos os dias (todos os dias mesmo), a mãe dele me pergunta na saída se ele havia feito as lições e já emenda: “Eu falo com ele todos os dias para fazer as atividades!”.

As primeiras sondagens do ano letivo, no 1º ano, indicavam que o aluno estava na hipótese pré-silábica. Ele não sabia identificar a maioria das letras, nem os números iniciais, as cores, etc. Mas no acompanhamento diário, percebi que aparentemente ele não tinha uma dificuldade real de aprendizagem.

O que fazer nesse contexto?

Conversei com a responsável pela criança, pedindo para firmar essa parceria. Esta mãe é presente na vida escolar do filho e estava preocupada com sua aprendizagem, pois percebia que na maioria das vezes ele não registrava nada no caderno.

Explique a ela que alfabetização é um processo que leva tempo, que o filho dela precisa de apoio, compreensão e paciência, e que mesmo não registrando no caderno todas as atividades, em sala de aula a criança sempre é convidada a participar, seja oralmente, seja escrevendo na lousa. Falei que eu faço perguntas que o levam a pensar sobre como se escreve alfabeticamente, que as práticas na alfabetização são exploradas em diferentes linguagens, e que o filho dela iria aprender a ler e escrever com base em todas essas intervenções e nas interações com os colegas. Finalizei dizendo que toda aquela pressão, na escola ou em casa, não era positiva para a aprendizagem, mas que isso não queria dizer que ela deveria deixar o filho abandonado, sem acompanhar o que ele estava aprendendo.

Para que todos os alunos avancem, não podemos propor somente práticas baseadas na linguagem escrita. Nosso desenvolvimento acontece a partir de diferentes linguagens. Em sua sala de aula há espaço suficiente para o desenvolvimento da oralidade? A leitura está bem representada? A leitura de imagens e sua interpretação faz parte das aulas?

E ainda: você, professor, estimula todos os alunos a participarem das diferentes atividades previstas para a alfabetização, ou os alunos que “dão mais trabalho” são deixados de lado? Você acha que o mais importante na alfabetização é escrever?

Esses são questionamentos que eu faço a mim mesma há anos. Isso me levou a mudar minha prática, o que garantiu alfabetizar crianças que aprendem de maneiras diferentes. Já alfabetizei muitos alunos que nunca tiveram um caderno organizado, por variados motivos, que não terminavam as lições, que não paravam quietos, entre outros comportamentos.

Mas, antes de chegar a esse ponto da minha trajetória, já recorri muitas vezes a psicólogos, psicopedagogos, médicos pedindo encaminhamentos que não tinham a devida necessidade.

É claro que precisamos de apoio e orientação profissional quando necessário, mas devemos ter cuidado, porque às vezes a questão está mais relacionada conosco e com a nossa compreensão de que muitas das situações podem ser resolvidas em sala de aula, com o apoio da equipe pedagógica, em parceria com as famílias.

Veja abaixo as sondagens de escrita do aluno que eu mencionei, em diferentes momentos, nos primeiros dois meses de aula:

Na primeira sondagem, foram ditadas as seguintes palavras: lapiseira, caderno, lápis e giz.

Crédito: acervo pessoal Mara Mansani

Na segunda, as palavras foram camiseta, jaqueta, bermuda e bota.

Crédito: acervo pessoal Mara Mansani

Na terceira, ditei as palavras joaninha, periquito, macaco, galinha, peru e boi.

Crédito: acervo pessoal Mara Mansani

Todas as palavras estavam dentro do mesmo campo semântico, de acordo com os princípios para um bom diagnóstico de escrita.

Vejam que é nítido o avanço na aprendizagem dessa criança, da hipótese pré-silábica para a silábica com valor. Até o final do ano, acredito que ele esteja lendo e escrevendo com autonomia. Agora a mãe já conseguiu ver alguns avanços e está menos ansiosa.

E você, professor, o que está fazendo para alfabetizar os alunos que aprendem de maneira diferente da maioria? Quais condições você cria para garantir essa aprendizagem? Conte aqui nos comentários!

Um grande abraço e até semana que vem,

Mara Mansani

Tags

Guias