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Professora e agora mãe: como fortalecer a rede de apoio na escola

Todas as mulheres necessitam de suporte ao retornar ao trabalho após a licença maternidade. Entretanto, nessa desafiadora transição, as mães-professoras precisam de apoio e recursos específicos dada a natureza da profissão

POR:
Elisangela Secco
Crédito: Getty Images

Não é novidade para ninguém que a mulher do século XXI lida com desafios que vão muito além dos papéis historicamente conferidos: o de mãe e o de cuidadora do lar. O trabalho remunerado somou mais um papel social na vida da mulher, o que resultou em maior exigência nos atributos físicos e psíquicos. Na área da Educação, a mulher ainda representa a maioria dos profissionais, já que segundo dados do Censo Escolar 2018, dos 2,2 milhões docentes da Educação Básica no Brasil, 80% são mulheres que, comumente, possuem mais de um emprego ou estão vinculadas a mais de uma rede de ensino para complementar a renda mensal.

A maternidade traz com ela diversos questionamentos: o que fazer diante dos múltiplos papéis que se entrelaçam aos inúmeros afazeres? Como desempenhar a maternidade, exercer a profissão, cuidar da vida pessoal, pensar na própria saúde física e emocional e ainda assim se sentir inteira? Após o término da licença maternidade, como retomar o dia a dia numa profissão que está ligada aos cuidados do próximo, e deixar a prole sob responsabilidade de outro?

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Para a mulher, o retorno ao trabalho após a licença maternidade acaba muitas vezes sendo um gatilho para sentimentos de vulnerabilidade, insegurança, culpa, medo e ansiedade – resultando em níveis mais altos de estresse e cansaço físico. Muitos desses sintomas estão intimamente relacionados a tarefas atribuídas à mulher, como ter que tomar a frente dos trabalhos domésticos e do cuidado com os filhos. Somado a isso, muitas mulheres não se sentem suficientemente amparadas nessa etapa da vida. Dados da pesquisa “Outras Formas de Trabalho” da Pnad (IBGE) em 2018 apontam que as mulheres ainda dedicam o dobro do tempo dos homens a tarefas domésticas.

Nesse cenário complexo, a mulher pode se sentir “dividida” entre a vontade ou necessidade de retornar ao mercado de trabalho e o desejo de dedicar-se aos cuidados do bebê. Esse período de transição é desafiador e vai demandar da mulher maior resiliência.

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Quando uma professora, coordenadora ou diretora retorna ao trabalho após a maternidade, é importante considerar que ela está em uma fase de adaptação. Ela está passando por uma transição psíquica natural, de aprendizado e fortalecimento, em que muitas vezes as circunstâncias não são propícias. Com aceitação e reconhecimento, a mulher pode sentir que pertence novamente à escola e lidar com os desafios inerentes à sua nova fase de vida.

Para garantir a saúde emocional das mulheres nesse período, é importante que tanto a família quanto a direção da escola e colegas de profissão compreendam que voltar ao trabalho envolve muito mais que o retorno à rotina. É importante que os profissionais envolvidos reconheçam a ambivalência do processo materno, as perdas e ganhos que essa profissional da Educação está enfrentando. A rede de apoio na escola pode oferencer ajuda prática por meio de uma conversa, da simples escuta ou da parceria nesse processo que se inicia. Cuidar da saúde emocional de uma professora que agora também é mãe é possibilitar que pouco a pouco ela esteja em sala de aula de maneira mais confortável e que possa expressar seus anseios e sentimentos.

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As mulheres também podem utilizar algumas estratégias de enfrentamento frente à conciliação entre maternidade e trabalho. Como postulou o psicanalista inglês Donald Winnicott, “a mãe suficientemente boa” é aquela que se permite falhar para garantir o desenvolvimento da sua prole, assim como a professora “suficientemente boa” é aquela que mostra aos estudantes que os erros fazem parte do processo de aprendizagem.

Sabemos que todas as mulheres necessitam de suporte na adaptação do início da maternidade, entretanto as mães-professoras necessitam de apoio e recursos específicos. Como a escola é em si uma comunidade aprendente, oferecer a essa mulher uma escuta aberta e compreensiva nas reuniões pedagógicas, nos corredores, no intervalo, na sala dos professores significa construir um espaço de proteção e acolhimento.

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Cabe aqui recordar que um dos princípios educativos mais importantes é o da solidariedade. Quando não há solidariedade na construção pedagógica, não há excelência. Só podemos pensar em solidariedade quando olharmos aquela mãe trabalhadora não somente como uma colega, mas como uma companheira de trabalho que pode confiar em sua rede de apoio – criando condições para que a readaptação seja um projeto comum.

O psicanalista Winnicott dizia que “um bebê nunca foi uma mãe, mas toda mãe já foi um bebê, bem ou mal acolhido”. Enquanto companheiros e companheiras de trabalho, como estamos acolhendo essas mães trabalhadoras?

 

Elisangela Secco é psicóloga clínica formada pela PUC-SP e professora de Educação Emocional para crianças e adolescentes

 

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