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"Melhorar a Educação pode ajudar na prevenção da demência"

Especialista brasileira desenvolve pesquisas para identificar o impacto do estudo no aparecimento dos sintomas da doença de Alzheimer

POR:
Wellington Soares
Crédito: Getty Images

Pessoas que estudam mais envelhecem melhor. Em linhas gerais, é isso que estuda Elisa Resende, neurologista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A especialista tem se dedicado a investigar qual o impacto que a Educação pode ter na prevenção dos sintomas da demência, ligada à doença de Alzheimer.

A demência é uma síndrome caracterizada pela perda de funcionalidades como a memória, a linguagem e a orientação espacial. Segundo o Instituto Alzheimer Brasil, há pelo menos 100 mil novos casos de demência todos os anos no país e sua principal causa é a doença de Alzheimer. "Nem todas as pessoas que têm Alzheimer desenvolvem os sintomas", esclarece Elisa. 

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Estudos realizados pela médica mostram que a Educação pode ter um papel fundamental para retardar o aparecimento dos sinais da doença. Agora, ela trabalha com financiamento do Instituto Global do Cérebro (GBHI, na sigla inglês) e da Alzheimer Association para investigar se a Educação de Jovens e Adultos (EJA) pode também ajudar a combater os sintomas em pacientes que não concluíram os estudos na infância. 

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com a neurologista Elisa Resende. 

O que já se sabe sobre a relação entre demência e Educação?
Há diversos estudos nos Estados Unidos e na Europa que apontam que a demência tende a atingir menos as pessoas com Ensino Superior do que aquelas que só fizeram o Ensino Médio. No Brasil, desenvolvemos um estudo para ver se isso também se mantinha em pessoas com níveis de escolaridade mais baixos. O que percebemos é que as pessoas com pelo menos quatro anos de escolarização já apresentam conexões cerebrais mais íntegras do que aquelas que nunca frequentaram uma instituição de ensino. Também há estudos que mostram que a prevalência de demência em pessoas analfabetas é o dobro da de pessoas alfabetizadas. Ainda não é possível cravar que existe uma relação de causa e efeito, mas essas evidências apontam uma relação entre esses os fatores. 

Como a escolarização ajuda na formação dessa reserva?
Quando há mais conexões entre os neurônios, forma-se o que chamamos de reserva cognitiva, que é o que explica por que algumas pessoas com a doença de Alzheimer apresentam sintomas e outras não. Funciona como um músculo: nos casos em que ele é mais exercitado, forma-se uma reserva que é gasta ao longo da vida. E é essa reserva cognitiva que impede que algumas pessoas desenvolvam a demência. Sabemos que na infância há a formação de um grande número de conexões e que elas estão relacionadas a atividades com alta demanda cognitiva. A Educação possibilita tanto a formação dessas conexões quanto facilitam que elas continuem se desenvolvendo ao longo da vida. Pessoas com maior escolaridade tendem a ter trabalhos com maior demanda cognitiva e também realizar atividades de lazer — como a leitura — que ajudam a construir essa reserva. 

Qual o impacto da demência na sociedade?
A demência tem um custo alto. Para o próprio paciente, porque tem a sua qualidade de vida comprometida e passa a depender de um cuidador para realizar tarefas como se alimentar, se locomover, tomar banho, e assim por diante. As famílias também são impactadas porque cabe a elas tomar esse cuidado. Muitas pessoas passam a dedicar a própria vida a cuidar de parentes com demência. Por fim, há um impacto também sobre o sistema de saúde, que arca com o tratamento das pessoas, mesmo que o diagnóstico ainda seja difícil de ser realizado no sistema público. 

Como a Educação poderia contribuir com esse cenário?
Sem dúvidas, a Educação parece ser uma forma eficiente de prevenir casos de demência, melhorando a qualidade de vida dos idosos e das suas famílias e com um custo menor, se comparado aos tratamentos da doença. Tem havido um aumento na escolarização da população brasileira, então é possível que boa parte desse caminho já esteja trilhado, mas ainda há um número grande de adultos e idosos com baixa escolarização. 

A Educação de Jovens e Adultos poderia ajudar os adultos e idosos a prevenir a demência?
É exatamente o que estou estudando no momento. Temos um grupo de adultos recém ingressados na EJA, fizemos testes de memória e ressonância magnética neles agora. A ideia é, daqui a um ano, voltar a realizar esses procedimentos para ver se houve alguma diferença nas conexões cerebrais. Apesar disso, já sabemos que a Educação tem um impacto positivo na qualidade de vida de idosos, de maneira geral. Pesquisas mostram que pessoas que envelhecem com memória e habilidades cognitivas excepcionais têm, pelo menos, um ano a mais de escolarização do que aquelas que apresentam habilidades normais para a idade. Além disso, o diagnóstico da demência também tem impacto: a maioria dos testes realizados hoje depende que as pessoas saibam ler, escrever e realizar alguns cálculos. Todos esses fatores são importantes para a vida dessas pessoas e para o combate a essa síndrome.