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Matéria de capa | Cultura de paz


Por: Pedro Annunciato

8 respostas sobre violência e clima escolar

Com base em mais de 500 dúvidas enviadas por educadores pelas redes sociais, ouvimos especialistas para responder às angústias da comunidade escolar

  1. É possível identificar pessoas que têm um potencial de risco antes que ocorram tragédias como a de Suzano?

    É natural que as pessoas fiquem amedrontadas após um acontecimento traumático como esse, mas é preciso fugir da tentação do alarmismo. Casos como o de Suzano são raríssimos. Para se ter uma ideia, um levantamento feito pelo portal G1 mostrou que ocorreram sete episódios semelhantes nos últimos 20 anos, num universo de mais de 180 mil escolas de Educação Básica existentes no Brasil, segundo dados do Censo Escolar de 2018. Também é fundamental ter cautela para não rotular alunos com problemas de maneira negativa. Alguns estudantes podem demonstrar uma falta de empatia que chama atenção. Um exemplo clássico é a prática cruel com animais ou um ato de vandalismo, sem sentimento de culpa. Mesmo assim, isso não significa que o pior pode acontecer. A literatura a respeito desse tipo de ataque ainda é muito escassa e não conclusiva, mesmo nos Estados Unidos, onde essas ocorrências são mais comuns. O único consenso que se tem sobre o perfil de assassinos é de que eles, em praticamente todos os casos, são do sexo masculino.

  2. A escola pode solicitar a presença de psicólogos?

    Não há legislação específica sobre esse assunto, mas o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante acesso a uma rede de proteção, que inclui a escola, o sistema de saúde e a assistência social, que podem atuar de maneira integrada. Além disso, o Congresso discute, desde o ano passado, um projeto de lei que pretende tornar obrigatória a presença desses profissionais na rede pública. Entretanto, os especialistas ouvidos por NOVA ESCOLA lembram que o psicólogo pode ser um facilitador das relações entre pais, professores e alunos, mas não resolverá todos os problemas de convivência. Além disso, é preciso ficar atento para não colocar todos os comportamentos inadequados como problemas psíquicos. A grande maioria das questões de convivência pode ser solucionada no campo da Educação, e não da psicologia clínica ou da psiquiatria.


  3. Sinto medo dos meus alunos. O que fazer?

    Para restabelecer a segurança, é preciso realizar dois movimentos. O primeiro, exterior, é uma aproximação do aluno. Em vez de se afastar e deixar que a insegurança domine os sentimentos e a imaginação, procure abrir canais de diálogo, por meio de rodas de conversa e de outras estratégias pedagógicas que permitam que os estudantes falem o que estão pensando e sentindo. Para que essas atitudes sejam possíveis e gerem o efeito desejado, é necessário um segundo movimento, de busca de equilíbrio interior do próprio professor. Por isso, espaço de diálogo entre os colegas pode oferecer muito conforto. Mas vale lembrar a importância de cuidados básicos com o sono, a alimentação e as atividades físicas. Todo mundo sabe que a rotina docente é pesada, mas procure fazer o que for possível, dentro das suas possibilidades de tempo e dinheiro, para dormir bem, alimentar-se adequadamente e fazer algum tipo de exercício. Isso certamente terá impactos positivos no seu estado de ânimo.

  4. Por que as escolas às vezes são alvo de massacres?

    Novamente é preciso lembrar que fatos como o da EE Raul Brasil, em Suzano, são muito raros e que as pesquisas a respeito desse fenômeno, aqui e no exterior, ainda são escassas e inconclusivas. No entanto, os especialistas sugerem algumas hipóteses. Em geral, esse tipo de ataque está ligado a problemas de relacionamento e ao significado negativo que um ambiente tem na mente do assassino. Como a escola é lugar que reúne muitas pessoas, ela se torna um terreno fértil para os conflitos (o que não é exclusividade da escola e ocorre também em ambientes de trabalho, por exemplo). Além disso, os adolescentes ainda estão aprendendo a lidar com as próprias emoções e essa incapacidade aumenta a possibilidade de se chegar a situações extremas. Há, ainda, um fator neurobiológico relacionado a isso: o cérebro dos jovens ainda não tem um sistema de autogerenciamento maduro, o que os torna naturalmente mais impulsivos.

  5. Meus alunos estão traumatizados e não querem ficar na escola. Como ajudá-los?

    Essa situação costuma atingir quem tem alguma proximidade com os episódios violentos porque mora no mesmo bairro em que isso aconteceu, estuda em circunstâncias parecidas ou conhece alguma vítima. Em situações como a da cidade de Suzano, o acompanhamento precisa necessariamente ser feito por profissionais, em parceria com a equipe da escola. Mas também é possível que na sua escola, mesmo que distante das tragédias, haja alunos impressionados. Nesses casos, os adultos precisam transmitir serenidade e abrir espaços de diálogo coletivo e individual. Se o professor se apavora, a tendência é de que os alunos fiquem também apavorados. Deve haver também uma boa dose de bom senso: se o estudante não está emocionalmente estável, obrigá-lo a ficar na escola ou pressioná-lo por qualquer razão pode piorar as coisas.

  6. Em que casos posso expulsar um “aluno-problema” da escola?

    A expulsão é uma decisão extrema tomada em casos graves, previstos no regimento escolar ou nas orientações de cada rede de ensino. Por isso, esse recurso não pode ser banalizado. A punição máxima, em geral, não costuma ajudar o estudante do ponto de vista educativo, apenas “empurra” o problema para outra escola

  7. E se as escolas instalassem detectores de metal e tivessem maior policiamento, isso seria eficaz?

    Não existem evidências suficientes de que a implantação de dispositivos de segurança em todas as escolas diminuiria os casos de violência. As escolas americanas, por exemplo, já investem pesado em segurança privada e continuam enfrentando problemas, incluindo massacres. A especialista Telma Vinha argumenta, ainda, que em uma sociedade democrática a escola é aberta à comunidade, e que vale a pena correr o risco (que é pequeno, em termos estatísticos). No entanto, em zonas de conflito deflagrado, como em algumas regiões do Rio de Janeiro, pode ser necessária a presença da polícia e de um aparato que garanta condições mínimas de segurança para as atividades pedagógicas. Mas esses recursos servem para combater a violência externa, e não os problemas dentro da escola.

  8. Como a escola pode ajudar alunos com transtornos psiquiátricos?

    A gestão pode discutir com o corpo docente um protocolo de ação quando  se nota algum tipo de transtorno, que pode incluir falar com a família ou fazer parcerias, com a ajuda da Secretaria de Educação, com os serviços de saúde pública da região. Para  isso, é fundamental que a equipe domine algumas informações básicas que ajudam a identificar o problema. Há programas de formação, como o Projeto Cuca Legal, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que produzem, inclusive, materiais de referência (veja algumas recomendações no quadro abaixo). O objetivo não é habilitar o professor a fazer diagnósticos - esse papel pertence aos médicos e psicólogos -, mas capacitar os funcionários da escola a identificar indícios de que algo pode não estar indo bem com o aluno e saber qual é a medida mais adequada a ser tomada.