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Por que os jovens estão tão violentos?

A agressividade faz parte da adolescência, mas os casos de violência entre os jovens aumentaram e tornaram-se mais graves nos últimos dez anos. Entender o fenômeno é o primeiro passo para preveni-lo

POR:
Camila Monroe
Ilustração: Daniella Domingues
CECÍLIA* Lutinha dos meninos
Os meninos da escola começam com umas brincadeiras de lutinha... Dão tapa e soco... Ficam passando rasteira uns nos outros. A maioria das meninas acha idiotice, mas eles gostam pq querem mostrar q são homens e aguentam a brincadeira... O vencedor fika se achando o fortão.

BRIGA DE MENTIRA Na adolescência, brincadeiras físicas são um momento exploração do corpo do outro

No Rio de Janeiro, um estudante de 12 anos foi espancado por outro de 16 com golpes de porrete. Em Brasília, um aluno de 15 foi internado em estado grave após ser agredido por oito adolescentes na saída da escola. Em Natal, a polícia teve de conter um tumulto entre 60 jovens de gangues de colégios rivais. Em Matinha, a 245 quilômetros de São Luís, um menino de 11 anos matou um colega de 15 com um canivete. A impressão de que casos assustadores como esses (todos retratados pelo noticiário policial do mês de julho deste ano) têm se tornado cada vez mais comuns é confirmada pelas últimas estatísticas. De acordo com o estudo Mapa da Violência 2010, um levantamento do Instituto Sangari, em São Paulo, que toma como base a taxa de homicídios dos 5.564 municípios brasileiros, entre 1997 e 2007 o total de assassinatos entre jovens de 14 e 16 anos aumentou 30% - o maior crescimento entre todas as faixas etárias. Atônitos, pais e professores se perguntam: o que fazer para reduzir
essa escalada?

Mergulhar nas causas do fenômeno é um bom começo para ir além do choque. De início, é preciso lembrar que a agressividade tende a andar com a juventude, uma fase de descoberta também dos impulsos violentos. Na puberdade, o contato físico é uma maneira inconsciente de explorar a pele do outro. Essa atividade envolve uma experimentação que pode ganhar formas mais ríspidas, sem necessariamente indicar descontrole ou intenção de humilhar. Exemplos disso são as lutas simuladas e outras "brincadeiras de mão" típicas da fase, como ilustra o depoimento de Cecília*, 15 anos (leia o destaque acima).

Mudanças fisiológicas também explicam parte da agressividade. Na passagem para a adolescência, o centro de recompensa, área cerebral relacionada à produção de serotonina (neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar), é reduzido à metade. Como os níveis da substância caem, o adolescente tem mais dificuldade em ficar satisfeito - daí vem a irritabilidade que marca o período. Inclinado à impaciência, ele pode se alterar com qualquer contrariedade.

O ambiente social também influi. A começar pelas características de gênero (que se referem aos papéis culturais que a sociedade atribui a homens e mulheres). Um exemplo: a partir do momento em que um garoto desafia o outro numa briga, a recusa é vista como uma falta de virilidade, já que a dominação e o perigo são tidos como características masculinas. Isso ajuda a entender porque 90% das agressões em ambiente escolar são cometidas por meninos.

A meninas também estão mais agressivas na escola e na vida

Ilustração: Daniella Domingues
ANA* (16 anos) Minha amiga não amarela!
A Mariana veio fazer barraco e xingar uma colega por causa de um garoto lá da escola. Minha amiga saiu correndo, com todo mundo chamando ela de amarelona. Mas, aí, pra mostrar que não amarelava, abriu um sorriso e tacou uma cadeira bem em cima da Mariana, que até quebrou um dente!

COMO OS MENINOS Antes restrita ao plano psicológico, a violência entre mulheres ganha contornos físicos

As mulheres, por outro lado, voltam-se mais à violência psicológica do que à física. Mas até isso está em xeque. Se o processo de emancipação feminina trouxe inegáveis avanços na igualdade entre os sexos, um subproduto nocivo foi que elas também se apropriaram de características antes quase exclusivamente masculinas. Como resultado, muitas brigas de meninas também se tornam brutais, como indica a fala de Ana*, 16 anos (leia o destaque acima)

Há mais fatores em jogo. Pesquisas recentes sugerem que o ambiente familiar é um dos aspectos que mais influenciam condutas agressivas. "Pais que se colocam sempre em condição superior aos filhos tendem a transmitir esse comportamento. Respeito não se ganha com o medo", diz Sônia Maria Pereira Vidigal, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Rio Claro. No outro extremo, um comportamento permissivo demais também pode deixar os jovens irritadiços quando alguém resolve - finalmente! - estabelecer limites.

Claro que não estamos descrevendo uma equação exata: nem toda família rigidamente autoritária ou excessivamente indulgente será o berço de adolescentes agressivos. Há os que sofreram abusos e cresceram sem uma referência de pai e mãe, mas são pacíficos. De forma semelhante, muitas pessoas que vêm de famílias tranquilas se tornam hostis. Isso ocorre porque outras referências entram em cena. Se o jovem tem como ídolo um professor que realiza um bom trabalho, pode se espelhar nele. No reverso da moeda, o foco de sua atenção também pode ser um traficante
em busca de poder.

É preciso ter cautela para evitar exageros ao buscar explicações no ambiente para qualquer tipo de comportamento. Games e filmes violentos, por exemplo, não são responsáveis por surtos de agressividade. "No máximo, se somam a outras influências do meio e reforçam tendências já existentes", argumenta Vanessa Vicentin, doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP). De acordo com os especialistas, mais perigoso é o incentivo ao consumo desenfreado, que se tenta igualar à própria felicidade. "Do ponto de vista da violência, isso é bastante nocivo: adolescentes que se revoltam por não terem o que querem podem optar pela criminalidade para conseguir seus objetivos", diz Vanessa.

A escola deve indicar, com clareza, a necessidade de respeitar o outro

Ilustração: Daniella Domingues
CAIO* (14 anos) Prevendo o prejuízo
Na escola, meu amigo brigava, chamavam a mãe, ele brigava de novo, chamavam a mãe de novo umas 30 vezes até ele ser expulso. No outro ano ele voltou, mas continuou aprontando. E a escola continuou chamando a mãe do mesmo jeito! A gente já sabe o que vai receber de punição se brigar...


PENA INEFICAZ Ao só punir, a escola não diminui a violência porque impede que os alunos entendam o erro

Como local mais comum de contato social fora do lar, desde sempre a escola foi palco de manifestações de agressividade. As soluções mais recorrentes não vingam porque a maioria das instituições enfrenta a violência apenas com punições. Às vezes, a resposta é tão simplista ou repetitiva que a turma já adivinha como será castigada e, em vez de parar com a violência, passa a prever as próximas atitudes considerando as consequências da pena, como mostra a fala de Caio*, 14 anos (leia o destaque acima).

Para os especialistas, suspensões e expulsões geram apenas um medo temporário pelo castigo. A falha é que elas não levam o agressor a refletir sobre a necessidade das regras nas relações. "Essas medidas não são educativas e vão contra o objetivo de formar pessoas autônomas", aponta Telma Vinha, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Se um aluno é mandado para outra escola sem entender a gravidade do que fez, aumentam as chances de que o comportamento
se repita por lá", completa.

Claro que, dependendo da gravidade do caso, é preciso acionar órgãos como o Conselho Tutelar e mesmo a polícia. "Mas isso deve ocorrer apenas quando a segurança está fortemente ameaçada, com um aluno portando uma arma, por exemplo", afirma Telma. Na maioria dos casos, entretanto, é mais adequado criar um ambiente de diálogo. Organizar assembleias para discutir conflitos coletivos, providenciar a mediação de profissionais da escola para desentendimentos pessoais e reservar momentos de reflexão em sala também é uma possibilidade para prevenir futuras agressões.

Se mesmo assim a violência der as caras, será preciso firmeza para mandar a mensagem certa. Uma providência importante é nunca relativizar o problema (em muitas escolas, se a agressão ocorre com o professor, age-se na hora, mas, se o caso envolve alunos, ele é entendido como "coisa da idade"). O correto é ensinar que todos, sem exceção, precisam respeitar o outro, independentemente de quem seja e do comportamento que adote. Um aprendizado fundamental não apenas na trajetória escolar, mas para o resto da vida.


* Os destaques desta reportagem trazem depoimentos por um programa de troca de mensagens instantâneas pela internet de alunos do 9º ano e do Ensino Médio de escolas de São Paulo. Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Reportagem sugerida por 4 leitores: Adélia Ribeiro Passos, Manaus, AM, Giselle Tulle de Souza, Niterói, RJ, Eloisa Menezes Pereira, Porto Alegre, RS, e Marcos José Pereira Gomes, Santa Luzia, MA

Quer saber mais?

CONTATOS
Sônia Maria Pereira Vidigal
Telma Vinha
Vanessa Vicentin

BIBLIOGRAFIA
A Causa dos Adolescentes, Françoise Dolto, 352 págs., Ed. Idéias e Letras, tel. 0800-16-0004, 53 reais
Adolescência: a Crise Necessária, Stéphane Clerget, 264 págs., Ed. Rocco, tel. (21) 3525-2000, 38 reais

INTERNET 
Download da pesquisa Mapa da Violência 2010.

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