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Comecei a me sentir viva de novo aos 92 anos, quando voltei a dar aula

Professora de Fortaleza (CE) contou sua trajetória de mais de 40 anos na Educação

POR:
Camila Cecílio
A professora aposentada Ione Nóbrega voltou a dar aula após 40 anos: renovada   Crédito: Acervo pessoal

Quantas vezes a Educação pode transformar a vida de uma pessoa? A professora cearense Ione Nóbrega, de 92 anos de idade, responde: várias. A começar por ela mesma que aos 12 anos, para não ser condenada aos afazeres domésticos, como geralmente acontecia com as mulheres da época, decidiu dar aulas em um cômodo de sua casa, em Fortaleza, ao lado da irmã mais velha.

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O amor pela profissão levou a educadora a se dedicar ao ensino de crianças e adolescentes por 40 anos. Mas, também, por quatro décadas ficou sem exercê-la, voltando a viver a experiência de ensinar somente quando a aluna Maria Lucilene Borges da Silva, 35, sua cuidadora, contou que não sabia ler e escrever.

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Há cerca de dois meses as duas se sentam à mesa da cozinha, pontualmente às 16h30, para dar início às atividades. Ione, que andava enfraquecida por uma gripe, passou a se sentir revigorada depois que voltou a atuar como professora. Maria, por sua vez, enxergou a oportunidade de ver a Educação mudar sua vida também.

Confira o depoimento da professora Ione Nóbrega à NOVA ESCOLA.

“Nasci em 1927, no Ceará, numa época em que tudo era diferente, a começar pela educação. Comecei a estudar aos 7 anos e, aos 12, já dava aulas junto com a minha irmã Vilma, seis anos mais velha que eu, em um cômodo da nossa casa. Ela cursava Pedagogia, já eu queria ser dentista, mas nosso pai era muito rigoroso, dizia que se fosse para mulher ter profissão, tinha que ser professora, do contrário era cuidar da casa, do marido e dos filhos. E eu disse: ‘Ficar em casa? De jeito nenhum’. Foi então que fiz o curso para ser professora. Durou oito anos, mas até me formar, aos 20 anos, segui dando aulas para crianças de todas as idades ao lado de Vilma.

Maria Lucilene da Silva e a professora Ione Nóbrega: mesa da cozinha virou "sala de aula"   Crédito: Acervo pessoal

Um dia, o cômodo ficou pequeno e alugamos uma sala. Até que a sala também ficou pequena e fomos para grande casa, que se tornou o Instituto Nóbrega, a escola que tivemos juntas por quase 40 anos em Fortaleza. Minha irmã era diretora de manhã e eu à tarde, assim íamos revezando as responsabilidades de uma vida maravilhosa que, até hoje, tantos anos depois me traz tantas saudades. O que mais me recordo era a organização do colégio, a disciplina com a qual formávamos nossos alunos. Fechamos porque tínhamos que fechar, as grandes instituições foram engolindo as pequenas e não deu para manter.

Parei de dar aulas em 1979. Casei, tive meus filhos e passei a cuidar da casa, depois de tantos anos trabalhando. Há 28 anos meu marido morreu e eu não quis ir mais para canto nenhum, passei a ficar em casa porque é um lugar que eu gosto muito. Minha irmã Vilma partiu há 4 anos, mas tivemos a oportunidade de ver nossos alunos se tornarem médicos, engenheiros, advogados e o que mais quisessem ser, em uma vida no caminho do bem.

Hoje em dia, de vez em quando, encontro com alguns na rua e parece que eles encontram uma divindade, tamanho o carinho que eu recebo deles. No ano passado fizeram uma homenagem para mim e choro só de lembrar. Foi uma das coisas mais bonitas da minha vida.

Como fico muito tempo em casa e quando minha última cuidadora teve que ir embora, fiquei doente, acho que foi uma gripe. Minha família ficou preocupada e eu ficava parada, quieta, pensando na vida, em tudo que tinha acontecido, nos filhos, netos, bisnetos. Mas agora eu estou bem.

Depois que a Maria chegou aqui em casa eu passei a me sentir feliz outra vez, me sinto gente outra vez. Depois de alguns dias, perguntei: ‘Maria, você sabe ler e escrever? ’ E ela disse que não, um pouco envergonhada. E eu perguntei se ela queria aprender. A reposta foi positiva e então, depois de 40 anos longe das salas, voltei a dar aula.

A aula acontece de segunda a sexta-feira e dura quase duas horas. Maria tem 35 anos e não estudou porque a família vivia viajando pelo Nordeste. Começamos pela alfabetização e agora ela já escreve e lê as primeiras frases, tem força de vontade e aprende rápido. Me sinto realizada por saber que, mesmo aos 92 anos, estou preparando alguém para a vida.

Em todos esses anos tive a oportunidade de ver como a educação é transformadora, que nunca é tarde para estudar ou dar a alguém a oportunidade de aprender. Nunca é tarde para nada, e sem estudo não somos ninguém nesse mundo. Por isso, penso que o professor tem o papel mais importante de todos, que é acompanhar a aprendizagem dos seus alunos. E um estudo bem acompanhado tem o poder de mudar vidas”.

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