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"Intervenção militar? Vou contar o que era dar aula na ditadura"

Autorretrato

POR:
Wellington Soares
Arlete, na USP, diante do monumento aos mortos pelo governo militar. Foto: Raoni Maddalena
Arlete, na USP, diante do monumento aos mortos pelo governo militar
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"Foi em 1970 que comecei a dar aulas em uma escola pública da capital paulista. Tempos difíceis para ser professor. Um ano antes, o tenebroso Ato Institucional Nº 5 entrara em vigor, intensificando a repressão aos opositores da ditadura.

Lecionei Educação Moral e Cívica, disciplina criada para transmitir princípios valorizados pelos militares: respeito à ordem, patriotismo etc. Colegas meus da Universidade de São Paulo (USP) também trabalhavam na mesma escola. Éramos um grupo que buscava um ensino crítico. Tentávamos levar os debates políticos para as aulas. Lembro-me das discussões sobre censura à imprensa e formas de resistência. Mostrei receitas de bolo e poemas que ocupavam, nos jornais, o espaço das notícias vetadas pelo governo.

Precisávamos ser sutis, mas fazíamos nosso trabalho com tranquilidade. Até que começaram os atritos com um diretor. Era comum ele ouvir nossas aulas atrás da porta. Suspeito que ele nos considerasse ‘subversivos’, como eram chamados os inimigos do regime.

Por minha atuação na escola e na USP, fui presa em março de 1973. Na sede do famoso DOI-CODI, um órgão de repressão do Exército, fui torturada por 90 dias. Queriam os contatos de militantes do movimento estudantil. Não dei.

Acabei libertada sem maiores explicações. Tentei voltar ao trabalho, mas minhas aulas já haviam sido atribuídas a outro docente sob a alegação de abandono de emprego. Consegui uma vaga temporária em outra escola e, alguns meses mais tarde, fui efetivada como professora da rede pública paulista. Trabalhei no estado até me aposentar, na década de 1990.

Apesar da prisão, da tortura e da morte de amigos próximos, tenho orgulho dessa trajetória. Não havia opção: formar os alunos criticamente é o dever de um professor que sonha com um país melhor. Quem hoje clama pela volta da ditadura é uma pequena minoria que não entende o passado. Ainda há muito o que fazer e a escola tem papel fundamental: mostrar que não há caminho de volta da democracia."

Arlete Lopes Diogo é professora aposentada da rede estadual de São Paulo

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