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Em foco | Masculinidades


Por: Tory Oliveira e Paula Calçade

Como o conceito tradicional de masculinidade afeta os meninos?

Como os modelos vigentes das masculinidades os torna, ao mesmo tempo, os maiores autores e as maiores vítimas de violência

Deixar de dizer que ama um amigo, não poder abraçar quem se gosta, esconder seus sentimentos e não poder chorar. Para muitos meninos, essas são algumas das regras não escritas das masculinidades. Nascido dos debates sobre gênero, o conceito de masculinidades abarca as regras sociais delimitadas aos homens para que eles construam sua maneira de agir consigo, com o outro e com a sociedade. Muito cedo se aprende que a pena para quem não seguir esse código estrito é ser visto como “menos homem”, associado à feminilidade, e, assim, estar vulnerável à violência e ao bullying dos pares. Pesquisa do Google sobre masculinidade no Brasil, de 2018, mostra que mais da metade dos homens já foram chamados de “gay” ou “afeminado” por terem expressado sentimentos. Recentemente, a sociedade passou a discutir questões de gênero e do feminismo, trazendo à tona as disparidades entre homens e mulheres e empoderando muitas meninas. No entanto, os meninos ficaram de fora desse debate.

“No Ocidente, a família e os produtos culturais, como os filmes, colocam os homens como detentores do poder. Eles são os heróis, protagonistas e provedores, e os garotos observam e buscam esse domínio masculino que lhes é ensinado de diferentes formas”, afirma Marcelo Hailer, pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças, da PUC-SP. Mas essa masculinidade hegemônica não é para todos, uma vez que heróis e protagonistas são poucos. “A narrativa social valoriza homens brancos, heterossexuais, fortes, com condições econômicas favoráveis”, completa Marcelo. Para o pesquisador, a escola pode ser um campo de cobranças dessa performance masculina. A ausência de discussões sobre o impacto disso para meninos e meninas pode resultar em violência dentro do ambiente escolar.“Enquanto não houver debate nas escolas, esses valores vão continuar resultando em violência física e psicológica, porque não há outras alternativas para essas crianças lidarem com as angústias e dúvidas em outros lugares também”.

“A maneira como os garotos são criados faz com que aprendam a esconder os sentimentos por trás de uma máscara de masculinidade”, afirma o psicólogo americano William Pollack no documentário A Máscara em Que Você Vive (2015). Disponível atualmente na Netflix, o filme introduz o debate sobre masculinidades de maneira acessível, mostrando como essa construção rígida do que é ser homem impacta a vida, a educação e a saúde de meninos.“Os homens têm dificuldade de expressar aquilo que sentem. Em geral, isso se dá por meio da violência: quando está triste, com raiva, quando sente medo ou insegurança, em todos esses aspectos, a violência é uma fuga muito grande. Temos uma dificuldade de entender os sentimentos e de lidar com eles de maneira não violenta”, explica Caio César Santos, professor de Geografia, youtuber e pesquisador de masculinidades desde 2015.

LEIA MAIS: Os impactos da masculinidade tóxica na saúde emocional

“Usa-se “masculinidades” no plural porque essa construção é pautada de maneira diferente para cada tipo de homem. A masculinidade construída para brancos foi criada pelos próprios homens brancos. Embora seja uma construção, de maneira geral, tóxica, há vários aspectos positivos associados à masculinidade branca, que é hegemônica. Então, eles são vistos como pais de família, honestos etc. Já a masculinidade negra, a masculinidade gay, não são construídas pelos próprios grupos e envolvem basicamente aspectos ruins, como associar o homem negro como violento e o gay como promíscuo”, explica Caio. Além de usar esses conhecimentos informalmente com seus alunos na escola particular onde trabalha, ele promove rodas de conversa sobre masculinidades com meninos em outras instituições de ensino do Rio de Janeiro, onde vive (saiba mais abaixo). Para Caio, a escola ainda não está aberta para falar desse tema, assim como acontece com o racismo, por exemplo. Na maioria dos casos, quando há alguma intervenção ela é pontual, sem desdobramentos. Além disso, explica Caio, é recorrente o professor, que não teve acesso a essa formação, reproduzir ideias do senso comum como a de que “menino não chora” ou mesmo não intervir ao ouvir isso sendo dito por outras pessoas no universo escolar.“É difícil pautar coisas diferentes do currículo. Mas há uma necessidade muito grande de discutir isso na escola. O que eu faço é trazer esse assunto para o meu dia a dia e conversar com os alunos. Os meninos me contam muitas coisas e eu fico atento também ao que eles conversam entre si”, relata.

Para Helen dos Santos, psicóloga e doutoranda sobre construção hegemônica das masculinidades pela UFRGS, para além do sofrimento pessoal, as ideias sobre masculinidades disseminadas na sociedade trazem consequências práticas (e dolorosas) para todos. “A violência na nossa sociedade vem de uma base machista, como o feminicídio, isto é, o assassinato de mulheres por sua condição de gênero, a violência entre os homens. O bullying nas escolas também é provocado a partir desses modelos de verdadeiro homem que se assentam na cabeça dos meninos e jovens em contextos fortemente machistas”, pontua Helen. Dados recentes sobre violência revelam que os homens e os meninos são os que mais morrem, mais matam e os que mais correm riscos, em comparação com as mulheres (veja mais no gráfico abaixo). Para a psicóloga, o massacre na escola em Suzano é uma face extrema desse problema. Ambientes virtuais como fóruns e chats alocados na deep web (internet não rastreável e de difícil monitoramento e acesso) e marcados pelo anonimato são terrenos férteis para a disseminação de comportamentos agressivos e misóginos entre os jovens. No entanto, alerta Marcelo Hailer, a raiz do problema é muito anterior aos chats e à própria web.“É um problema social”, afirma o pesquisador da PUC-SP.

RETRATOS VIOLENTOS

Três situações de masculinidades marcadas por violência

Fontes: Atlas da Violência 2017 - Ipea, Violências e Mortes no Futebol Brasileiro: reflexões, investigações e proposições - Pesquisa coordenada pelo sociólogo Maurício Murad

Acolhimento e diálogo

Na experiência da coordenadora da EE Professor Leopoldo Santana, na zona sul de São Paulo, Tatiane Santos, grande parte das situações de brigas e agressões envolve meninos. “Quando buscamos entender melhor a situação, chamando a família e observando o histórico em outras escolas, vemos que é comum esse comportamento nos outros ambientes em que os garotos vivem”, conta. Diante dessa análise, Tatiane percebeu que a raiz dessas atitudes é fomentada desde cedo e alimentada por problemas familiares, como pais violentos, e estimuladas no convívio social dos meninos. A coordenadora propôs o diálogo como principal forma de intervenção. “Os alunos organizam-se no grêmio estudantil e quando detectam algum problema entres eles, trazem a situação até nós”, conta. Segundo Helen dos Santos, debater gênero e raça nas escolas produz resultados excelentes, como a redução da violência contra a mulher e a aceitação da diversidade. Para a filósofa Susana de Castro, para cumprir o compromisso com a democracia e a igualdade, a educação precisa desconstruir tanto os modelos femininos subalternizados quanto a masculinidade tóxica. Para alcançar esse objetivo, é preciso uma transformação pedagógica, com foco na formação dos educadores para terem condições de acolher todos os alunos.“Os debates precisam estar presentes nas universidades com a preparação para lidarem com as diferenças nas salas de aula”, defende Marcelo Hailer.

DISCUTINDO COM OS MENINOS

Como montar uma roda de discussão sobre masculinidade na escola

Reúna os meninos
O ideal é que as discussões sejam planejadas e de longo prazo. Em geral, trabalha-se com rodas só de meninos. A faixa etária do Ensino Médio é mais adequada para discussões mais complexas.

Expressão sem julgamento
Adapte de acordo com a sua realidade, mas a ideia é que, nesse espaço, eles se sintam à vontade para se expressar sem julgamentos. Caso seja uma classe com muitos alunos, divida-os em grupos.

A máscara em que eles vivem
Peça que escrevam na parte de frente de um papel quais sentimentos eles mostram. E, na parte de trás, o que eles escondem. Reflitam sobre quais sentimentos são mostrados ou escondidos.

Monte uma “caixa do homem”
Peça para colocarem dentro da caixa características ou atitudes que eles associem com a masculinidade a partir do questionamento: o que um homem precisa fazer para ser considerado como tal?

O que você já deixou de fazer?
Pergunte o que eles já deixaram de fazer para não serem considerados “menos homens”. Compare as respostas com as que surgiram durante a atividade na “caixa do homem”.

Para saber mais

DOCUMENTÁRIO
A Máscara em Que Você Vive EUA, 2015, disponível na Netflix

LIVRO
João de Ferro Robert Bly, Ed. Campus

LIVRO
As Cores da Masculinidade Mara Viveros Vigoya, Ed. Papéis Selvagens

Ilustrações: André Ducci